Anita Tetslaff*
A promessa de uma “Copa para todos” feita pela FIFA parece ter ficado nos discursos oficiais. Dados apurados mostram que, para um torcedor brasileiro acompanhar a Seleção desde a estreia até uma possível final, o gasto mínimo com ingressos gira em torno de R$ 37 mil. Esse valor representa um salto de quase 500% em relação aos valores praticados no Mundial do Qatar, em 2022.
A política de preços dinâmicos adotada pela entidade máxima do futebol agravou a situação. Em plataformas de revenda oficial, os bilhetes para a estreia do Brasil contra Marrocos, no dia 13 de junho, chegaram a ser comercializados por US$ 2.900 (cerca de R$ 15 mil). A final, em Nova Jersey, apresenta valores estratosféricos que variam de US$ de 1.490 a impressionantes US$ 32.970 (mais de R$ 170 mil), transformando o evento em um artigo de luxo inacessível para a classe trabalhadora.
A justificativa da FIFA, na voz de seu presidente Gianni Infantino, é a lei de mercado. Ao ser questionado sobre os altos valores, Infantino rebateu que, se comparado à final da NBA, os preços são “justos em termos de retorno”, alegando que a alta demanda demonstra que a tabela está correta. No entanto, a realidade das arquibancadas vazias e a sobra de ingressos para partidas de países tradicionais, como os 3.500 bilhetes disponíveis para os jogos do Brasil às vésperas da estreia, contradiz essa tese.
Enquanto a Copa no exterior se torna inacessível, no território nacional a relação do torcedor com a Seleção também passa por um momento de crise identitária. Um fenômeno claro se evidencia, a camisa amarela, outrora símbolo de união nacional, tornou-se alvo de disputa ideológica e a festa virou “produto”. Essa percepção é corroborada pelos desafios de público enfrentados em solo brasileiro nas eliminatórias.
Os dados financeiros são irrefutáveis, a Copa do Mundo se tornou um negócio bilionário que prioriza a “experiência VIP” e o retorno sobre o investimento (ROI) para patrocinadores e para a FIFA. No entanto, o futebol, especialmente no Brasil, é movido por uma economia afetiva que não se mede em dólares. A conta não fecha quando se vê uma arquibancada vazia ou quando o pai precisa vender o carro para tentar pagar um ingresso, ou quando o trabalhador sequer tem a opção de escolha, assistindo à distância sua própria festa ser transmitida por uma tela.
Para que a Seleção volte a ser “de todos”, é necessário um movimento institucional que vá além dos discursos. É preciso que a CBF e a FIFA compreendam que a festa genuína não está nos camarotes corporativos do MetLife Stadium, mas sim na vila, no campinho de terra e no bar da esquina. Enquanto o acesso for restrito a uma elite cambial, o Brasil continuará com sua maior virtude esportiva aprisionada em um “pacote premium”, distante da alma que, de fato, faz o esporte ser bonito.
(*) Anita Tetslaff – Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
