Valfrido Silva
O empresário Luciano Hang, dono das Lojas Havan e um dos bolsonaristas mais emblemáticos, voltou a ocupar espaço no noticiário ao afirmar que as universidades federais seriam “guetos da esquerda”. A frase certamente encontra eco em parte do eleitorado conservador e se encaixa perfeitamente na guerra cultural que há anos alimenta a polarização política brasileira. O problema é que, quando a espuma das redes sociais baixa e a realidade entra em cena, surgem algumas contradições difíceis de explicar. E poucas regiões ilustram melhor essa situação do que Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, dois dos mais sólidos redutos eleitorais da direita no país.
São estados onde o agronegócio se tornou motor da economia, onde lideranças conservadoras acumulam vitórias sucessivas nas urnas e onde o discurso da direita encontra terreno fértil. Mas são também estados profundamente ligados ao ensino superior público e privado. Em Dourados, por exemplo, convivem a Universidade Federal da Grande Dourados, a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e diversas instituições particulares. Em Campo Grande, a UFMS desempenha papel semelhante. Em Mato Grosso, a UFMT ocupa posição histórica na formação de profissionais e na produção de conhecimento.
A pergunta surge naturalmente. Se essas instituições são apenas “guetos da esquerda”, o que exatamente estamos produzindo há décadas? Agrônomos, veterinários, médicos, enfermeiros, engenheiros, pesquisadores, professores e profissionais que sustentam boa parte da economia regional ou simplesmente militantes políticos?
A ironia é que muitos dos setores que mais apoiam o bolsonarismo são justamente aqueles que mais dependem da formação oferecida pelas universidades. O agronegócio moderno, que transformou o Centro-Oeste numa potência econômica, não se construiu apenas com tratores, sementes e mercado internacional. Foi construído também com pesquisa, extensão universitária, inovação tecnológica e formação profissional. Boa parte dos especialistas que hoje atuam no campo, nas cooperativas, nos laboratórios e nos órgãos de defesa sanitária saiu das mesmas universidades que agora são colocadas sob suspeita.
É aí que a declaração do empresário deixa de ser apenas uma frase de efeito e passa a produzir um constrangimento político. Como ficam as lideranças bolsonaristas de Mato Grosso do Sul diante de uma afirmação desse tipo? Como ela é recebida por figuras como os deputados federais Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira, talvez os mais visíveis porta-vozes do bolsonarismo sul-mato-grossense? Como repercute entre prefeitos, vereadores e lideranças conservadoras que defendem o agronegócio, mas convivem diariamente com universidades que formam os profissionais responsáveis por impulsionar esse mesmo setor?
A questão também alcança nomes que disputam espaços mais amplos na política estadual. O ex-governador Reinaldo Azambuja, apontado como um dos principais candidatos ao Senado, percorre um estado cuja economia e cuja estrutura de serviços dependem fortemente da presença das universidades. O mesmo vale para praticamente todas as lideranças que pretendem disputar votos em Mato Grosso do Sul nos próximos anos.
Porque uma coisa é fazer guerra cultural nas redes sociais. Outra, completamente diferente, é explicar a produtores rurais, médicos, engenheiros, pesquisadores, empresários e milhares de famílias que as instituições responsáveis pela formação de seus filhos seriam apenas redutos ideológicos.
Dourados talvez seja o melhor retrato dessa contradição. A cidade se consolidou como polo regional de educação superior. A presença das universidades movimenta o comércio, fortalece o mercado imobiliário, impulsiona a pesquisa agropecuária, abastece hospitais com profissionais qualificados e influencia diretamente setores estratégicos da economia. Reduzir tudo isso a uma disputa ideológica parece pouco diante da realidade.
Talvez por isso a pergunta mais incômoda não seja dirigida aos reitores nem aos professores. Talvez ela deva ser respondida pelos próprios líderes conservadores que representam uma das regiões mais bolsonaristas do país. Porque uma coisa é transformar universidades em inimigas na guerra cultural. Outra, muito diferente, é explicar quem formou os profissionais que ajudaram a construir o Mato Grosso do Sul que conhecemos hoje.
