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terça-feira, junho 16, 2026

O Sepulcro Caiado de Delcídio do Amaral

Entre frases de Voltaire, lembranças da Lava Jato e aparições periódicas nas pesquisas eleitorais, o ex-senador Delcídio do Amaral segue desafiando a mais implacável das sentenças da política: o esquecimento.

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Valfrido Silva

A política brasileira possui uma relação peculiar com a morte. Não a morte biológica, evidentemente, mas aquela que deveria encerrar carreiras, arquivar projetos e transformar personagens em notas de rodapé da História. Aqui, os mortos votam, os mortos opinam, os mortos concedem entrevistas e, não raramente, os mortos aparecem em segundo lugar nas pesquisas eleitorais.

É o caso de Delcídio do Amaral Gomes.

Quando seu nome surgiu novamente nas pesquisas para o governo do Estado, tecnicamente empatado com o petista Fábio Trad e muito atrás dos números confortáveis do governador Eduardo Riedel, a primeira impressão foi a de alguém que, distraidamente, abriu um antigo mausoléu político para verificar o estado de conservação do ocupante. E eis que lá estava ele, respirando. Ou pelo menos dando sinais de atividade.

A cena lembra uma antiga advertência bíblica sobre os sepulcros caiados. Bonitos por fora, surpreendentes por dentro. A diferença é que, na política, ninguém sabe ao certo quem está visitando quem. Se são os eleitores que abrem os túmulos da memória em busca de velhos conhecidos ou se são os próprios fantasmas que insistem em reaparecer quando todos imaginavam que já haviam cumprido seu ciclo histórico.

O curioso é que Delcídio não faz exatamente campanha. Desde que deixou o Senado, passa mais tempo em São Paulo do que em Mato Grosso do Sul. Não percorre cidades. Não mobiliza multidões. Não inaugura comitês. Seu principal palanque parece ser um aplicativo de mensagens, onde distribui reflexões filosóficas, frases motivacionais e pensamentos de autores clássicos, quase sempre acompanhados daquele silêncio estratégico que permite ao leitor imaginar o destinatário da mensagem.

Nesta terça-feira, por exemplo, convocou Voltaire.

Nada mal para alguém que já atravessou quase todos os ambientes políticos possíveis sem perder completamente a capacidade de despertar curiosidade. O mesmo Delcídio que chegou à política estadual no final dos anos 1990 carregando o prestígio de ex-ministro de Minas e Energia do governo Itamar Franco. O mesmo Delcídio que desembarcou no PSDB como símbolo de uma renovação técnica que parecia destinada a modernizar a política regional. O mesmo Delcídio que, percebendo a mudança dos ventos nacionais, embarcou no projeto petista de Zeca do PT, tornou-se secretário de Obras, senador da República e uma das figuras mais influentes do Estado em Brasília.

Por algum tempo, parecia que sua trajetória obedecia às leis da gravidade invertida. Quanto mais avançava, mais subia. Até que veio a Lava Jato. E com ela a prisão que transformou o então senador no primeiro parlamentar em exercício preso desde a redemocratização. A cena chocou o país. O homem que simbolizava competência técnica, trânsito entre diferentes grupos políticos e capacidade de articulação nacional transformava-se repentinamente em personagem central de um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil.

Em qualquer manual convencional de política, aquele seria o capítulo final. Mas a política brasileira não segue manuais. Ela prefere os romances de realismo fantástico.

Passaram-se os anos. Mudaram os governos. Mudaram os partidos. Mudaram as narrativas. A Lava Jato, que parecia destinada a reescrever a história nacional, acabou ela própria sendo reescrita. Muitos personagens desapareceram. Outros foram absolvidos. Outros ressurgiram. E Delcídio permaneceu naquele espaço indefinido entre o esquecimento e a lembrança.

Talvez porque represente uma época, ou porque represente várias. A verdade é que poucos políticos sul-mato-grossenses conseguiram transitar com tanta desenvoltura entre o tucanato, o petismo, o trabalhismo e as múltiplas metamorfoses do sistema partidário brasileiro. Hoje, curiosamente, Delcídio aparece como o último dos herdeiros do PDT que tenta preservar no Estado as antigas bandeiras do brizolismo, corrente política que, por sua vez, encontra raízes históricas no próprio getulismo que ajudou a moldar a região através da criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados.

É uma trajetória tão cheia de curvas que parece desafiar qualquer tentativa de classificação. Talvez seja por isso que Voltaire tenha aparecido em seu WhatsApp. O filósofo francês, que desconfiava profundamente das certezas absolutas, provavelmente apreciaria a ironia. Afinal, a política brasileira é um lugar onde os vivos frequentemente parecem mortos e os mortos frequentemente parecem vivos.

Enquanto isso, Delcídio segue fazendo o que faz há mais de duas décadas: desafiando prognósticos. Não se sabe se será candidato muito menos seu destino eleitoral. Não se sabe sequer se seus números representam intenção de voto, nostalgia, curiosidade ou simples reconhecimento de nome.

Mas sabe-se de uma coisa. Num país onde a política se parece cada vez mais com um grande cemitério de ideias inacabadas, abrir um sepulcro caiado pode ser uma experiência arriscada. Principalmente quando o ocupante resolve responder ao chamado. E, pelo visto, Delcídio do Amaral continua respondendo.

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