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segunda-feira, junho 15, 2026

Pra Frente Brasil!

Marchinha de Dom e Ravel, que já provocou calafrios, volta a ser a esperança de todos brasileiros

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A vida, às vezes, gosta de zombar das nossas convicções mais arraigadas. Durante décadas, bastava alguém ouvir os primeiros acordes de “Pra Frente Brasil” para que a memória imediatamente viajasse para 1970, para a conquista do tricampeonato mundial, no México, e para os anos duros do governo Médici. A música composta por Dom & Ravel acabou se transformando numa das mais conhecidas trilhas sonoras daquele período, carregando consigo não apenas a alegria de uma seleção inesquecível, mas também o peso político de uma época que continua dividindo interpretações e sentimentos.

Mas eis que chega a Copa do Mundo de 2026 e a história resolve pregar uma de suas peças mais curiosas.

A Seleção Brasileira já não mete medo como antigamente. O futebol nacional parece procurar uma identidade que durante décadas foi tão natural quanto respirar. A camisa amarela, outrora símbolo de unidade nacional, tornou-se objeto de disputa política. O país segue dividido entre lulistas e bolsonaristas, entre narrativas irreconciliáveis, entre versões conflitantes da realidade, como se estivéssemos condenados a uma interminável prorrogação ideológica sem perspectiva de decisão nos pênaltis.

Foi então que me ocorreu uma heresia. Talvez nunca antes na história deste país — para utilizar a expressão eternizada pelo próprio presidente Lula — a velha marchinha de Dom & Ravel tenha sido tão necessária. Não por causa da ditadura, do governo do presidente Garrastazu Médici ou de sua forte propaganda oficial. Mas por causa de uma frase simples que parece ter desaparecido do vocabulário nacional:

“Todos juntos!”

A observação feita pela cronista Anita Tetslaff em seu recente artigo “A camisa que um dia foi de todos” toca exatamente nessa ferida. Em algum momento da última década deixamos de disputar apenas eleições. Passamos a disputar símbolos. A bandeira nacional, a camisa amarela, as cores verde e amarelo e até mesmo o direito de expressar um sentimento afetivo ao país passaram a ser interpretados através do filtro da polarização política. O resultado é que aquilo que antes unia passou a separar.

Durante décadas, ninguém perguntava em quem o sujeito votava antes de saber para quem ele torcia. A camisa da Seleção era simplesmente a camisa da Seleção. Pertencia ao empresário e ao sindicalista, ao agricultor e ao professor, ao conservador e ao progressista. Pertencia ao Brasil. Hoje, porém, muitos parecem vestir a camisa não para torcer pelo time, mas para sinalizar uma posição política.

Talvez esteja aí uma das razões para o distanciamento emocional que parte dos brasileiros demonstra em relação à equipe nacional. Não porque faltem jogadores talentosos. Eles continuam surgindo aos montes. Não porque o futebol tenha perdido sua importância cultural. Basta observar a movimentação de qualquer Copa do Mundo para perceber o contrário. Talvez falte apenas aquilo que existia em abundância naqueles tempos em que Pelé, Tostão, Gérson, Rivelino e Jairzinho encantavam o planeta: a sensação de que todos estavam do mesmo lado.

A ironia é quase cruel. O Brasil que cantava unido em 1970 vivia sob um regime sem liberdade política. O Brasil de 2026 desfruta da democracia, mas parece incapaz de encontrar consensos mínimos até mesmo em torno de sua seleção de futebol. Nunca tivemos tanta liberdade para discordar. E talvez nunca tenhamos encontrado tanta dificuldade para concordar em alguma coisa.

É claro que ninguém precisa abandonar suas convicções. Não se trata de pedir que bolsonaristas se tornem lulistas ou que lulistas se convertam ao bolsonarismo. O futebol jamais teve essa pretensão. A bola não distingue eleitores. O gol não pergunta em quem o torcedor votou. O impedimento não reconhece ideologias. Dentro das quatro linhas todos continuam rigorosamente iguais.

Talvez por isso a velha canção de Dom & Ravel continue resistindo ao tempo, às polêmicas e às disputas de interpretação. Não necessariamente por aquilo que representou em 1970, mas por aquilo que ainda pode representar hoje.

Num país exausto de gritos, acusações e trincheiras virtuais, talvez o verso mais revolucionário da Copa de 2026 continue sendo justamente o mais simples.

Todos juntos, vamos! Pra frente Brasil! Salve a seleção!

Nem que seja apenas durante os noventa minutos de cada jogo.

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