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sexta-feira, junho 19, 2026

Propaganda contraproducente

No país das emendas parlamentares, a propaganda costuma chegar antes do recurso, o recurso antes da obra e a obra, quando chega, depois da próxima campanha eleitoral

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Valfrido Silva

A diarista atravessa a rua e olha para o outdoor. Três milhões de reais para a saúde de Dourados. O número ocupa quase toda a placa. Maior que o nome da parlamentar. Maior que a fotografia. Maior que qualquer outra informação. Três milhões. Ela faz as contas sem perceber. Cem reais por diária. Quando consegue três por semana, já considera uma vitória. Tem aluguel para pagar. Tem três filhos para criar. Tem remédio para comprar. Tem mercado para fazer. Tem creche. Tem boletos que vencem todos os meses, com juros sem dó nem piedade. Para ela, três milhões de reais não é dinheiro. São uma abstração.

O curioso é que a intenção do outdoor provavelmente é positiva. Mostrar trabalho. Mostrar resultado. Mostrar compromisso com a cidade. Mas a política brasileira desenvolveu uma estranha obsessão por cifras. Milhões para isso. Milhões para aquilo. Milhões para saúde. Milhões para infraestrutura. Milhões para educação. O problema é que, quando os números crescem demais, o cidadão comum começa a fazer a pergunta mais simples de todas: se tanto dinheiro foi destinado, por que os problemas continuam tão visíveis?

A resposta não é necessariamente simples. Recursos públicos obedecem regras. Dependem de projetos, convênios, liberações, licitações e execução. Nem toda verba anunciada chega imediatamente ao destino. Nem toda verba liberada produz resultado instantâneo. Mas a população não vive de etapas burocráticas. Vive de resultados. E é justamente aí que a propaganda corre o risco de se tornar contraproducente.

Pior ainda quando surgem os múltiplos pais da criança. Um recurso destinado por um senador aparece na propaganda do deputado. O deputado divide os créditos com o vereador. O vereador retorna de Brasília depois de alguns dias de “agenda oficial”, diárias pagas pelo contribuinte e uma foto estratégica em algum gabinete, celebrando uma conquista histórica para o município. O prefeito agradece. O secretário comemora. As assessorias produzem vídeos. As redes sociais entram em campo. E, quando o dinheiro finalmente chega, se chegar, a criança já ganhou tantos pais que nem exame de DNA resolve.

Ao final da cadeia de homenagens, resta ao contribuinte uma dúvida simples, quase infantil. Se tanta gente trouxe o recurso, se tanta gente trabalhou pela conquista, se tanta gente aparece na fotografia e se tantos milhões foram anunciados ao longo dos anos, por que os problemas continuam exatamente onde estavam?

Talvez porque a política brasileira tenha desenvolvido uma obsessão pela fotografia da entrega e um interesse muito menor pela fotografia do resultado. A primeira rende votos. A segunda exige prestação de contas.

O eleitor talvez não compreenda os detalhes das emendas parlamentares, dos convênios federais ou das engrenagens do Orçamento da União. Mas compreende perfeitamente a diferença entre uma placa anunciando milhões e uma consulta médica marcada para o filho. Compreende a diferença entre um vídeo comemorando recursos e um hospital funcionando adequadamente. Compreende a diferença entre uma cifra estampada num outdoor e a realidade que encontra ao atravessar a porta de uma unidade de saúde.

Talvez seja por isso que algumas propagandas políticas acabem produzindo exatamente o efeito contrário ao pretendido. Quanto maior o valor anunciado, maior a expectativa criada. E quanto maior a expectativa, maior a cobrança quando os problemas continuam os mesmos. O cidadão olha para os milhões estampados na placa e passa a procurar os milhões aplicados. Procura nos postos de saúde. Procura nos hospitais. Procura nas filas de espera. Procura nos exames. Procura no atendimento.

E quando não encontra correspondência entre a propaganda e a realidade, surge a dúvida. Não sobre a existência do dinheiro. Mas sobre a eficácia da propaganda. E a conta é simples. O eleitor pode não entender de orçamento público. Mas entende perfeitamente de resultado.

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