Valfrido Silva
A cada nova eliminação brasileira em Copa do Mundo, as desculpas se amontoam e produzem fenômenos curiosos. Enquanto comentaristas discutem esquemas táticos, dirigentes anunciam reformas milagrosas e especialistas procuram culpados de ocasião, a memória resolve fazer exatamente o contrário. Em vez de olhar para a frente, ela dá meia-volta e começa a caminhar para trás. Foi exatamente isso que me aconteceu depois da derrota para a Noruega. Bastou a Seleção deixar o gramado para que outro time inteiro começasse a entrar em campo na lembrança. Não era o Brasil de hoje. Era o Brasil que ainda cabia inteiro dentro de uma cidade do interior. Era quase uma Seleção Brasileira reforçada pelos craques de Ubiratan e Operário — alguns deles aqui lembrados nas crônicas anteriores — e que, por incrível que pareça, também entrava em campo na velha Liga Esportiva Douradense de Amadores.
Quem não viveu aqueles anos talvez imagine que estou exagerando. Afinal, o que teria Dourados a ver com a história do futebol brasileiro? A resposta é simples: muito mais do que supõem os livros. Naquele velho campo da LEDA, fincado sobre a terra vermelha de Dourados, passaram alguns dos personagens mais fascinantes da história do nosso futebol. Mané Garrincha, talvez o maior driblador que Deus resolveu fabricar num domingo particularmente inspirado. Roberto Rivelino, dono do elástico mais famoso do planeta. O folclórico Fio Maravilha, eternizado por Jorge Ben Jor. E, anos mais tarde, Dadá Maravilha, o centroavante cuja convocação defendida publicamente pelo presidente Emílio Garrastazu Médici encontrou a resistência de João Saldanha e acabou se transformando num dos episódios mais emblemáticos da história da Seleção Brasileira, abrindo caminho para a ascensão de Zagallo ao comando da equipe tricampeã do mundo em 1970. Todos eles transformaram Dourados, por algumas horas ou por algum tempo, num improvável ponto de encontro entre o futebol brasileiro e o interior do antigo Mato Grosso.
Quando Fio Maravilha apareceu por ali, eu ainda era apenas um foca, carregando uma pesada maleta de transmissão que me dava ares de astronauta, um microfone Shure de estimação, de Jorge Antônio Salomão, na mão e um frio na barriga que nenhuma faculdade ensina a controlar. A fotografia deste post registra um craque. Eu enxergo outra coisa. Vejo um guri começando uma profissão sem imaginar que, meio século depois, aquela entrevista ainda renderia conversa. Hoje percebo que aquela imagem não registrou apenas um encontro com um ídolo. Registrou um pedaço de um Brasil que desapareceu sem fazer muito barulho.
Naqueles tempos, o futebol ainda percorria estradas. Os craques não viviam cercados por assessores de imprensa, contratos milionários e zonas mistas cuidadosamente coreografadas tendo cenários painéis de merchandising. Eles apareciam. Conversavam. Jogavam. Riam. Suavam. Tornavam-se personagens das cidades por onde passavam. O interior brasileiro não assistia ao futebol apenas pela televisão. Participava dele.
Nelson Rodrigues dizia que o futebol era a pátria de chuteiras. Talvez acrescentasse, se tivesse conhecido a velha LEDA, que essa pátria também usava poeira nos meiões. Foi naquele pedaço de chão douradense que muita gente descobriu que os gigantes também eram humanos. Como Messi hoje, Garrincha errava passes. Como Viny Jr., Rivelino sorria. Fio Maravilha respondia pacientemente às perguntas de um repórter que mal começava a profissão. E nós, sem perceber, estávamos assistindo à História sem imaginar que um dia ela seria apenas memória.
Os anos passaram. Deixei a reportagem esportiva, troquei a pesada maleta de transmissão pelos bastidores da política e segui outro caminho no jornalismo. Mas Dourados continuou cruzando, de maneira quase inexplicável, o destino de grandes personagens do futebol brasileiro. O próprio Dadá Maravilha, não apenas passou pela cidade. Chegou a fixar residência temporária por aqui, tendo como única assessora e cicerone a colunista social Clay de Lúcia. Já não era o tempo daquele foca que atravessava os campos da LEDA carregando uma maleta de transmissão quase do tamanho dos próprios sonhos e a respiração presa diante de Fio Maravilha. Era outro Valfrido. Mas era a mesma Dourados, insistindo em provar que o futebol brasileiro também gostava de fazer escala na terra de seu Marcelino.
Talvez seja exatamente por isso que a derrota para a Noruega tenha doído tanto. Não apenas porque fomos eliminados. Eliminados já fomos outras vezes. O que realmente machuca é perceber que perdemos também aquela intimidade com a Seleção. Perdemos o direito de sentir que os grandes jogadores pertenciam um pouco a todos nós. Hoje pertencem aos clubes europeus, aos patrocinadores, às redes sociais e às cifras astronômicas. Antigamente pertenciam também às pequenas cidades, aos campos de várzea, às ligas amadoras e aos meninos que sonhavam em segurá-los por alguns minutos diante de um microfone.
Hoje olho para esta fotografia e descubro que ela conta outra história. Não é apenas a de Fio Maravilha. Nem a minha. É a de uma cidade que, por alguns instantes, conseguiu transformar seu velho campo de futebol num pequeno Maracanã sentimental. A LEDA não recebia apenas jogadores. Recebia capítulos da história do futebol brasileiro. E nós, sem perceber, caminhávamos sobre eles como quem atravessa uma rua qualquer.
Seria injusto, porém, dizer que tudo isso ficou preso às fotografias amareladas ou às lembranças de quem viveu aqueles domingos da velha LEDA. O futebol continuou escrevendo sua história em Dourados. Já na virada do milênio, a cidade deixaria de ser apenas ponto de passagem de grandes craques para também entregar os seus à Seleção Brasileira. O zagueiro Antônio Carlos Zago e o volante Lucas Leiva, ambos formados em famílias estabelecidas no comércio douradense, vestiram a camisa amarela e levaram consigo um pedaço da terra de seu Marcelino. Talvez sem perceber, davam continuidade àquela mesma história iniciada décadas antes, quando Garrincha, Rivelino, Fio Maravilha e, mais tarde, Dadá faziam da velha LEDA um improvável palco do futebol brasileiro. A cidade deixava de ser apenas testemunha. Passava a ser também protagonista.
Talvez seja por isso que continuo desconfiando de quem mede a grandeza do futebol apenas pelas taças. Taças enferrujam. Estatísticas envelhecem. Rankings mudam a cada quatro anos. As filigranas da memória, não. Elas sobrevivem escondidas nos cantos da alma, esperando apenas uma derrota da Seleção para resolver aparecer outra vez. E, no rastro desse novo fracasso canarinho o velho Leão da Fronteira resolveu despertar outra vez dentro de mim. Junto com ele, Fio Maravilha, Rivelino, Garrincha, Dadá, a pesada maleta de transmissão, o microfone Shure e um guri que ainda não imaginava que faria do jornalismo a profissão de uma vida inteira. Uma vida que começou à beira daquele velho campo da LEDA e que continua acreditando que certas histórias jamais deveriam ser deixadas apenas para os almanaques.
