Seis da manhã, 25 graus. O momento mais fresco entre a noite e o dia. As janelas estão todas abertas para “esfriar” o ambiente. É o melhor momento para praticar esporte ao ar livre e caminhar meus 10 quilômetros. Desta vez, antes da ginástica em uma sala climatizada, onde tento me “esconder” entre duas máquinas que inundam o espaço com ar frio. Para mim, frio até demais, a ponto de sentir desconforto. Isso me faz lembrar os ônibus e alguns hotéis que frequentei no passado, no Brasil: 16 °C no interior do ônibus e 36 °C no exterior. Meu delicado corpo nunca gostou de tanta diferença. Agora, viajando pelo Brasil durante o outono, não tenho mais esse problema.
Aqui e agora, é preciso beber muita água e, durante os momentos de maior calor, ler, escrever e permanecer o mais imóvel possível.
Impossível não lembrar o verão de 2003, entre o fim de julho e meados de agosto, quando uma onda de calor, com temperaturas superiores a 40 °C, atingiu grande parte da Europa, sobretudo a França. Em diversas regiões, os termômetros ultrapassaram os 40 °C durante vários dias consecutivos, provocando a morte de cerca de 15 mil pessoas. Uma tragédia! Mais de vinte anos depois, ainda não estamos acostumados a enfrentar temperaturas tão elevadas.
Felizmente, desta vez registramos menos mortes, mas os hospitais estão sobrecarregados e quentes. Sim, nem todos dispõem de sistema de climatização, o que representa uma grande preocupação. O governo correu para comprar aparelhos de refrigeração que, fabricados na China, levam pelo menos um mês para chegar. E os particulares também querem um pouco de frescor. Durante a semana, uma rede de supermercados anunciou que venderia esses aparelhos. Foi então um verdadeiro quebra-quebra, com todo mundo querendo garantir o seu. Incrível! Parecia aqueles tumultos após grandes jogos de futebol. A humanidade — ou melhor, a desumanidade — mostrando sua face. Podemos nos transformar em monstros diante de situações que escapam à nossa experiência, ao que nos é familiar.
Sobretudo no sul da França, mas não apenas ali, os incêndios queimam casas, desalojam famílias, provocam mortes e destroem florestas e plantações.
Nas ruas, árvores e outras plantas estão morrendo de sede, enquanto a chuva só está prevista para depois de terça-feira, 14 de julho, feriado nacional francês, equivalente ao nosso 7 de Setembro.
Enquanto isso, para se refrescar um pouco durante as férias escolares, muitos já estão à beira-mar. Os que permaneceram na cidade, por falta de condições de viajar ou porque ainda não chegaram as férias, têm à disposição as piscinas instaladas no rio Sena e no Bassin de la Villette.
Eu, que decidi encurtar o inverno europeu viajando ao Brasil em março e novembro, talvez precise rever meus planos. Nestes tempos de mudanças climáticas, o mais sensato será partir justamente nos períodos de calor intenso na França para aproveitar o inverno brasileiro!
E adeus, onda de calor!
Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
