Valfrido Silva
Depois de ler um artigo de Tostão — o nosso eterno camisa 9 da inesquecível Seleção de 1970 — na Folha de S.Paulo deste dominngo e de ouvir mais uma avalanche de análises sobre o fracasso brasileiro na Copa de 2026, das mais lúcidas às mais histéricas, resolvi fazer aquilo que jornalistas fazem desde que o mundo é mundo quando a dúvida aparece: fui consultar a sala ao lado, aqui da IAIA. A pergunta parecia simples. Afinal, o que ainda significam aqueles números estampados nas costas dos jogadores? O velho 1 continua sendo goleiro? O 5 ainda protege a defesa? O 10 continua sendo o dono do time? E, sobretudo, quem foi o iluminado que inventou essa história de falso 9?
Quando comecei a acompanhar futebol, ninguém precisava de curso de tática para entender uma escalação. Bastava ler os números. O goleiro era o 1. O lateral-direito, o 2. O zagueiro, o 3. O quarto-zagueiro, o 4. O volante era o 5, espécie de guarda-costas da defesa. O 6 tomava conta da lateral esquerda. O 7 infernizava os adversários pela direita. O 8 organizava o meio-campo. O 9 fazia gols. O 10 criava futebol. E o 11 descia pela esquerda levando consigo metade da torcida. Era quase uma língua universal do futebol brasileiro, como Rivelino, improvisado por Zagalo, em 1970.
Foi assim que alguns números deixaram de ser simples algarismos para virar patrimônio da memória. O 10 nunca mais foi apenas um número depois de Pelé. O 7 ganhou a ginga de Garrincha. O 9 passou a lembrar o próprio Tostão, depois Careca, Romário, Ronaldo Fenômeno. O 11 vestiu a elegância de Rivellino e, mais tarde, a velocidade de Romário em outras circunstâncias. O 5 ganhou o rosto de Clodoaldo, também de 1970. Bastava olhar as costas da camisa e o torcedor já sabia o roteiro da partida.
Só que o futebol resolveu complicar aquilo que era simples. Vieram os esquemas táticos, os analistas de desempenho, os mapas de calor, a ocupação de espaços, as linhas compactas e uma infinidade de expressões importadas. De repente, surgiu o falso 9. A primeira vez que ouvi essa expressão imaginei tratar-se de propaganda enganosa. Afinal, como alguém pode ser camisa 9 sem ser centroavante? Descobri depois que o falso 9 é justamente o atacante que faz de tudo para… não ficar onde deveria estar o camisa 9. Em vez de permanecer entre os zagueiros esperando a bola, recua para armar o jogo, arrasta a marcação e abre espaço para quem vem de trás. Funcionou maravilhosamente com Lionel Messi no Barcelona de Guardiola. Mas, como acontece com quase toda moda do futebol, muita gente passou a copiar sem ter um Messi à disposição.
Talvez parte da confusão da Seleção de 2026 esteja justamente aí. Não faltaram números. Faltaram identidades. Havia camisas 10 que pouco criavam, camisas 9 que apareciam menos na área do que os volantes, laterais que jogavam como meias, pontas que atuavam por dentro, meias que viravam atacantes e atacantes que voltavam para marcar laterais. No fim, todos faziam um pouco de tudo e ninguém fazia exatamente aquilo que o torcedor esperava.
Isso não significa defender a volta do futebol engessado dos anos 1970. O jogo evoluiu, os espaços diminuíram, os jogadores se tornaram atletas completos e a preparação física mudou completamente a dinâmica das partidas. O problema nunca foi a evolução. Foi esquecer que, antes de qualquer sistema tático, existe talento. E talento não se desenha na prancheta ou em bloco de anotações como a do técnico Thomas Tuchel, da Inglaterra.
Por isso achei curioso reler Tostão. Poucos jogadores compreenderam tão bem a transformação do futebol quanto ele. Justamente um camisa 9 que jamais foi apenas um finalizador. Inteligente, recuava, articulava, criava espaços e confundia marcadores muito antes de alguém inventar o rótulo de falso 9. Talvez a diferença esteja exatamente aí. Tostão fazia aquilo por inteligência. Hoje, muitas vezes, o jogador faz porque o software mandou.
E o que esperar de 2030? A resposta talvez não esteja em descobrir quem vestirá a camisa 10, nem quem será escalado como falso 9, ponta invertido ou volante construtor. A pergunta correta talvez seja outra: haverá jogadores capazes de devolver significado aos números? Haverá um novo camisa 10 que faça a torcida esquecer a prancheta? Um camisa 9 que devolva ao gol sua antiga simplicidade? Um camisa 5 que volte a comandar o meio-campo sem precisar de GPS para encontrar posição?
Por isso continuo desconfiando de que o futebol não perdeu apenas uma Copa. Perdeu também uma linguagem que todo brasileiro falava sem precisar de tradutor. Antigamente, bastava anunciar a escalação e o torcedor completava o resto de memória. Hoje precisamos de especialistas para explicar por que o centroavante joga longe da área, o ponta atua pelo meio, o lateral aparece na meia-cancha e o camisa 10 passa boa parte do jogo correndo atrás do volante adversário.
Talvez Ancelotti descubra até 2030 a fórmula que todos esperamos. Mas, se me perguntarem onde começaria essa reconstrução, arriscaria uma resposta bem menos sofisticada do que imaginam os estrategistas modernos. Eu começaria devolvendo identidade aos números. Porque, antes de existir o falso 9, existiu um futebol em que o camisa 9 era verdadeiro. E foi justamente esse futebol que fez o Brasil ensinar o mundo inteiro a jogar bola.
