Valfrido Silva
Uma hora antes de o Brasil inteiro ouvir o solene brado “Em Brasília, dezenove horas!” e os primeiros acordes de O Guarani anunciarem o início obrigatório de A Voz do Brasil, Dourados já vivia seu próprio ritual radiofônico. Pontualmente às dezoito horas, Jorge Antônio Salomão abria o microfone da Rádio Clube e dizia, com aquela voz que parecia entrar em cada casa sem precisar bater à porta: “Quando o ponteiro maior do céu aponta para o céu e o menor para a terra…”. Em seguida, subia a trilha da Ave Maria, a música caía suavemente para segundo plano e ele começava a recitar a Oração de São Francisco de Assis. Durante alguns minutos, a cidade diminuía o passo. Os rádios permaneciam ligados nas casas, nos bares, nas oficinas, nas fazendas e nos estabelecimentos comerciais, enquanto uma única voz falava de paz, perdão, fé, esperança, alegria e amor ao próximo.
Era uma Dourados muito diferente da que conhecemos hoje. Não havia internet, redes sociais, podcasts, emissoras digitais ou locutores transmitindo diretamente de um telefone celular. Televisão local produzindo jornalismo diário, então, nem pensar. A Rádio Clube era a única emissora da cidade e, para aquela geração, ela bastava. Por seus microfones passavam as notícias, as campanhas humanitárias, os recados comunitários, o esporte, a política, as alegrias e as dores de uma população que praticamente acertava o relógio pela programação. Hoje, incontáveis locutores se inspiram naquele modelo, rezando ou orando segundo os mais diferentes credos nas muitas emissoras convencionais e nas rádios espalhadas pela internet. É legítimo e até bonito que seja assim. Mas aposto um picolé de groselha que ninguém conseguiu reproduzir a força daquela voz nem o sentimento de uma época em que uma cidade inteira parecia caber dentro de uma única frequência.
Quem imaginar, porém, que a velha Rádio Clube vivia apenas daqueles instantes de devoção estará cometendo uma enorme injustiça com uma das maiores escolas de radiojornalismo que Dourados já conheceu. A oração ocupava alguns minutos do fim da tarde. O restante do dia pertencia à notícia. E notícia, para nós, não era mercadoria que pudesse esperar. Não aguardávamos o jornal do dia seguinte nem nos limitávamos ao famoso gilette press, aquela prática de recortar informações dos jornais impressos para depois reproduzi-las diante do microfone. Aconteceu, entrava no ar. Fosse um fato na periferia de Dourados, uma decisão do governo estadual, uma crise em Brasília ou um acontecimento do outro lado do mundo. O princípio primordial do rádio sempre foi a atualidade, e naquela redação nós o levávamos ao pé da letra.
Foi assim que Jorge Antônio Salomão e este repórter transmitiram, ao vivo, diretamente do Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande, a instalação do novo Estado de Mato Grosso do Sul, na presença do presidente Ernesto Geisel. Não aguardamos fotografias, telex, jornais ou qualquer relato de segunda mão. Estávamos lá, acompanhando e contando a História enquanto ela acontecia. Foi assim também que, durante um programa da madrugada, interrompi a rotina da emissora para anunciar, em boletim extraordinário, a morte do generalíssimo Francisco Franco, na Espanha. O fato ocorria a milhares de quilômetros da terra de seu Marcelino, mas chegava imediatamente aos ouvintes douradenses pela voz de um adolescente diante de um microfone. Talvez resida justamente aí o segredo que permite ao rádio atravessar todas as transformações tecnológicas e continuar vivo: ele não chega depois da História. Caminha ao lado dela.
Jorge Antônio não utilizava o microfone apenas para noticiar ou recitar orações. Fez dele também um instrumento permanente de solidariedade. Suas campanhas humanitárias mobilizavam a cidade para socorrer famílias, arrecadar alimentos, remédios, roupas e tudo aquilo de que alguém necessitasse. Antes mesmo de chegar à Prefeitura de Dourados, já exercia uma liderança comunitária construída pela palavra e, principalmente, pelo exemplo. A religiosidade que aparecia diariamente no programa Ave Maria não se limitava a um discurso. Traduzia-se em ações concretas de benemerência, fraternidade e atenção aos mais pobres. A política viria depois, quase como consequência de uma missão que ele já desempenhava diante dos microfones.

Foi naquela Dourados e sob a influência daquela mesma voz que cresceram dois meninos cujos destinos acabariam se cruzando várias vezes. Um deles era Marçal Filho, afilhado de batismo de Jorge Antônio. O outro, este velho jornalista insubordinado que vos escreve. Ambos ouviam diariamente a Oração de São Francisco, embora em circunstâncias diferentes. Marçal tinha no locutor não apenas uma referência radiofônica, mas o padrinho que o acompanharia desde o batismo e, mais tarde, mudaria completamente o rumo de sua vida. Eu era apenas um adolescente fascinado pela velocidade com que o rádio fazia o mundo chegar à empoeirada cidade modelo.
Talvez tenha sido justamente a repetição diária daquela oração, impregnando-se pouco a pouco em sua mente, que despertou em Marçal o sonho de uma missão ligada à evangelização. Ele próprio confessou, durante a sanção da lei que reconheceu São Miguel Arcanjo como Guardião Espiritual de Dourados, que pensou seriamente em estudar Teologia e Filosofia para servir à Igreja Católica. Não é difícil imaginar o efeito daquelas palavras sobre um menino que crescia ouvindo seu padrinho pedir que pudesse levar amor onde houvesse ódio, perdão onde houvesse ofensa e esperança onde houvesse desespero. O chamado para o sacerdócio talvez tenha começado ali, às seis da tarde, diante de um rádio ligado.
O destino, porém, resolveu virar tudo de cabeça para baixo. O mesmo Jorge Antônio que possivelmente ajudara a semear no afilhado a ideia de uma missão religiosa foi quem o levou para trabalhar na Rádio Clube. Antes que chegasse a batina, veio a mesa de som. O menino que pensava em estudar para padre tornou-se sonoplasta. O rádio abraçou Marçal ainda menor de idade e lhe ofereceu outro púlpito, outra forma de alcançar as pessoas e outro caminho para aquela vocação de serviço que talvez já carregasse consigo. A política só apareceria mais tarde.
Quando Marçal chegou à emissora, eu já me preparava para sair. Minha caminhada começara ali como rádio-escuta, acompanhando emissoras de outros lugares para manter nossa programação informativa atualizada. Depois vieram as reportagens de campo na velha LEDA e a redação do inesquecível Fatos & Notícias. Dali ganharia o mundo dos impressos, passando por O Progresso, Folha de Londrina e Folha de S.Paulo. Anos depois, o destino, sempre dado a suas ironias, me colocaria diante de outra mesa de edição, desta vez na TV Morena. Também comecei na televisão como repórter em Dourados, tornei-me correspondente e cheguei a Campo Grande, onde encerrei aquela trajetória como diretor de Jornalismo de Mato Grosso do Sul.
Marçal encontrou uma bifurcação diferente. Do rádio foi para a Câmara de Vereadores e, mais tarde, para a administração do prefeito Braz Melo, justamente na área de comunicação, onde nossos caminhos voltaram a se cruzar. Vieram depois o mandato de deputado estadual, quatro passagens pela Câmara dos Deputados e, finalmente, a Prefeitura de Dourados. Em determinado momento, já como diretor de Jornalismo da TV Morena, ainda tentei levá-lo para apresentar o principal telejornal da emissora. Mas isso é outra história. O que importa aqui é que aquele sonoplasta saído das mãos de Jorge Antônio construiu uma das trajetórias mais longevas da política sul-mato-grossense, enquanto o outro menino permaneceu no jornalismo, atravessando jornais, rádios, televisão, campanhas eleitorais, ilhas de edição e mais de meio século de saudável insubordinação.
Os dois seguiram caminhos diferentes, mas carregaram consigo alguma coisa daquela escola. Marçal levou para a política a linguagem direta e popular aprendida no rádio, a familiaridade com o cotidiano das pessoas e a capacidade de conversar com a cidade como quem ainda estivesse diante de um microfone. Este jornalista levou para as redações o compromisso com a atualidade, a urgência da notícia e a convicção de que comunicar não significa apenas falar, mas prestar serviço à sociedade. Talvez por isso a revelação de que Marçal quase seguiu o sacerdócio tenha me tocado tanto. Ela não me fez enxergar apenas o prefeito que um dia pensou em ser padre. Fez-me reencontrar uma época, uma emissora e um homem que, sem perceber, ajudou a formar duas trajetórias.
Hoje, as notícias chegam a toda hora e por todos os lados. O telefone vibra, as redes se atropelam, as imagens circulam antes mesmo de sabermos exatamente o que aconteceu e qualquer pessoa pode abrir um microfone virtual para falar ao mundo. Apesar disso, o rádio resiste. Continua fazendo companhia no carro, na cozinha, no comércio, no campo e nas madrugadas solitárias. Mudaram os equipamentos, as frequências, as plataformas e até o modo de ouvir. Não mudou a exigência fundamental: estar presente no momento em que o fato acontece. É isso que o mantém como o mais perene dos veículos de comunicação.
Talvez nenhuma das incontáveis emissoras atuais consiga reproduzir exatamente aquele espírito da Rádio Clube. Não porque faltem bons profissionais, fé ou capacidade técnica. O mundo simplesmente mudou. O que existia naquele tempo era uma comunhão quase impossível de recriar: uma única emissora, uma cidade em formação e uma voz capaz de anunciar uma notícia internacional, mobilizar uma campanha beneficente, narrar o nascimento de um Estado e, às seis horas da tarde, convidar todos a alguns minutos de silêncio e reflexão.
Foi nessa escola que dois meninos começaram a vida. Um descobriu no rádio o caminho que mais tarde o levaria à Prefeitura de Dourados. O outro saiu dali para ganhar o mundo, passou pelos jornais, pelo Congresso Nacional, pela televisão e continua, mais de meio século depois, acreditando que jornalismo também é uma forma de servir. Ambos aprenderam a mesma lição diante do mesmo microfone, ouvindo a mesma voz.
Hoje, quando Marçal Filho abre uma entrevista ou uma conversa com seu já tradicional “Alô, você…”, poucos talvez imaginem que existe um longo fio invisível ligando esse cumprimento à velha Rádio Clube. Assim como poucos se lembrarão de que, muito antes dele, Jorge Antônio Salomão iniciava diariamente seu encontro com os ouvintes falando dos ponteiros do relógio. Cada comunicador encontra sua própria assinatura. Alguns deixam apenas um bordão. Outros deixam uma escola. Jorge Antônio deixou as duas.
Talvez seja por isso que esta crônica não tenha nascido da confissão de um prefeito que um dia pensou em ser padre. Ela nasceu da lembrança de uma época em que um microfone era capaz de reunir uma cidade inteira, anunciar a História enquanto ela acontecia, mobilizar a solidariedade e, por alguns minutos, ensinar que comunicar também era uma forma de servir.
Sempre que a memória insiste em voltar, ainda consigo ouvir Jorge Antônio Salomão anunciando, com a mesma serenidade de tantas décadas atrás: “Quando o ponteiro maior do céu aponta para o céu e o menor para a terra…”. Uma hora depois, o Brasil inteiro ouviria “Em Brasília, dezenove horas”, ao som de O Guarani. Mas, para quem viveu a velha Rádio Clube de Dourados, a verdadeira Era do Rádio começava muito antes.
