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quarta-feira, julho 15, 2026

Marçal confessa que pensou em ser padre antes do rádio e da política

A revelação do prefeito durante a sanção da lei que reconhece São Miguel Arcanjo como Guardião Espiritual de Dourados resgata a influência decisiva do padrinho Jorge Antônio Salomão e mostra como uma vocação para servir apenas mudou de caminho ao longo da vida.

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Valfrido Silva

Senhor,
Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!

(Oração de São Francisco de Assis, recitada diariamente por Jorge Antônio Salomão no encerramento do programa “Ave Maria”, às seis da tarde, durante décadas no Rádio Clube de Dourados.)

Um menino da periferia cresce ouvindo diariamente uma oração como essa. Ainda sem compreender toda a profundidade daquelas palavras, aprende que viver também pode significar levar paz, esperança, perdão, solidariedade e amor ao próximo. O locutor que recita a prece é também seu padrinho de batismo. Não é difícil imaginar que, depois de tantos anos ouvindo a Oração de São Francisco, tenha nascido naquele menino o desejo de dedicar a própria vida à evangelização. Tanto que, mais tarde, pensou seriamente em estudar Teologia e Filosofia para ser padre. O destino, porém, resolveu escrever outro roteiro. O mesmo padrinho que talvez lhe tenha despertado a vocação religiosa acabaria convidando o afilhado para trabalhar no rádio. A batina ficou pelo caminho. Veio o microfone. A política chegaria muito depois. Ao revelar, nesta terça-feira, que sonhou em seguir o sacerdócio, Marçal Filho talvez tenha explicado muito mais sobre sua trajetória do que imaginava. Porque certas vocações não desaparecem. Apenas encontram outra forma de servir.

A revelação aconteceu durante a sanção da lei que reconhece São Miguel Arcanjo como Guardião Espiritual de Dourados. Enquanto a solenidade seguia seu roteiro, entre discursos e homenagens, o agora prefeito Marçal Filho deixou escapar uma frase que, para mim, acabou sendo muito mais importante do que a própria notícia. Contou que, ainda jovem, pensou seriamente em estudar Teologia e Filosofia para servir à Igreja Católica. Naquele instante, a sanção da lei deixou de ser o centro da história. Passei a imaginar outro Marçal. Aquele que talvez tivesse seguido para um seminário, vestindo a batina em vez do paletó da vida pública.

A lembrança me levou imediatamente a Jorge Antônio Salomão. Não por acaso. Foi ele quem segurou Marçal no colo, diante da pia batismal. Foi ele quem, anos mais tarde, lhe abriu as portas do rádio. E dificilmente haveria alguém mais apropriado para isso. Jorge Antônio jamais enxergou o microfone apenas como instrumento de comunicação. Fez dele uma extensão da própria fé. O tradicional programa Ave Maria, levado ao ar religiosamente às seis horas da tarde, encerrava-se sempre com a Oração de São Francisco. Não era apenas um momento de devoção. Era um compromisso diário com valores como solidariedade, perdão, esperança e serviço ao próximo. Gerações de douradenses cresceram ouvindo aquelas palavras.

Mas Jorge Antônio não evangelizava apenas pela oração. Evangelizava pelo exemplo. O rádio era também o instrumento das grandes campanhas beneficentes, das mobilizações para socorrer famílias em dificuldade, das arrecadações para quem precisava de ajuda, das iniciativas comunitárias que transformavam solidariedade em ação concreta. Muito antes de conquistar votos, conquistou a cidade mostrando que comunicar também era servir. Talvez por isso tenha chegado naturalmente à Prefeitura. Sua liderança política nasceu muito antes das urnas.

Foi exatamente nesse ambiente que Marçal cresceu. Primeiro como afilhado. Depois como aprendiz de radialista. Pensando bem, talvez a política nunca tenha sido sua primeira vocação. Antes dela vieram a religiosidade da família, o exemplo do padrinho e um rádio que ensinava diariamente que um microfone também podia ser um instrumento de transformação humana.

O rádio acabou mudando completamente o rumo daquela vocação inicial. Em vez da batina, veio o estúdio. Em vez do altar, o microfone. Em vez da homilia, a notícia, a entrevista, a prestação de serviços e o diálogo permanente com a população. A missão, no entanto, permaneceu. Apenas mudou de instrumento. Mais tarde, o radialista abriria caminho para o vereador, o deputado estadual, o deputado federal por quatro mandatos e, finalmente, o prefeito de Dourados.

Talvez seja justamente por isso que a trajetória de Marçal não possa ser compreendida apenas pela relação dos cargos que ocupou. Antes de tudo isso, foi um comunicador. E o rádio ensina uma lição que nenhuma faculdade de ciência política consegue transmitir: ouvir. Quem passa décadas conversando diariamente com milhares de pessoas aprende a perceber as angústias, os sonhos e as pequenas urgências de uma cidade.

Quando afirmou que o rádio o levou por outros caminhos, mas jamais abalou sua fé nem seu compromisso de trabalhar por uma sociedade mais justa, solidária e fraterna, Marçal acabou resumindo toda a sua caminhada. Sem perceber, revelou que o menino que um dia sonhou servir à Igreja nunca desapareceu completamente. Apenas encontrou outra maneira de exercer a mesma missão.

É claro que política e sacerdócio pertencem a universos diferentes. Um cuida da vida espiritual. O outro deveria cuidar da vida coletiva. Mas ambos compartilham uma palavra essencial: serviço. Um padre dedica sua existência às pessoas. Um homem público também deveria fazê-lo. Quando essas duas dimensões se encontram, nasce uma liderança que vai além das disputas eleitorais.

Talvez Dourados tenha realmente deixado de ganhar um padre. Quem sabe até um bispo formado em sua própria terra. Em compensação, ganhou um radialista que aprendeu com Jorge Antônio Salomão que um microfone também pode ser um instrumento de evangelização no sentido mais amplo da palavra: aproximar pessoas, aliviar sofrimentos, despertar solidariedade e fortalecer esperanças. Mais tarde, a política apenas ampliou esse palco.

Às vezes, uma frase perdida no meio de um release conta uma vida inteira. E, desta vez, contou também a história de um padrinho que, sem imaginar, plantou no afilhado a semente de uma vocação. Não exatamente para o sacerdócio. Mas para uma vida dedicada, cada um a seu modo, ao serviço das pessoas.

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