Anita Tetslaff
A campanha da Argentina na Copa do Mundo de 2026 tem sido marcada por atuações de superação dentro de campo, mas, fora das quatro linhas, uma sombra persistente ameaça ofuscar o brilho da equipe. Atos racistas protagonizados por torcedores argentinos, somados a uma estrutura social que historicamente apaga sua população negra e indígena, transformaram a seleção albiceleste em alvo de críticas globais e reacenderam o debate sobre um racismo que muitos no país insistem em negar.
A frase que circula nas redes sociais, “Argentina e Messi são o país e a pessoa mais odiados do mundo atualmente”, ganhou contornos de realidade à medida que vídeos de torcedores argentinos praticando atos racistas viralizaram. Durante esta edição do mundial, um streamer norte-americano foi alvo de gestos e xingamentos racistas por parte de fãs argentinos em duas ocasiões distintas, levando a FIFA a abrir investigação. Este comportamento não é um fenômeno novo e isolado. Em 2022, após a conquista do título sobre a França, torcedores foram filmados cantando músicas racistas contra o atacante Kylian Mbappé, além de queimarem um boneco com seu rosto. Na ocasião, a Federação Francesa de Futebol prometeu processar os responsáveis.
O problema, no entanto, é estrutural e tem raízes históricas profundas, conforme aponta a composição étnica da própria seleção. Entre as 48 equipes do mundial, a Argentina se destaca negativamente por ser a única que não conta com nenhum jogador negro em seu elenco, enquanto França, Brasil e Inglaterra possuem dezenas. Essa “europeização” não é acidental. Ela foi forjada no século XIX sob a política deliberada de “branqueamento” (blanqueamiento) implementada pelo então presidente Domingo Faustino Sarmiento, que incentivou a imigração europeia maciça para diluir a população negra e indígena do país.
A política de Sarmiento, somada ao dizimamento da população negra masculina nas guerras civis e na Guerra do Paraguai, teve efeitos demográficos drásticos. Se no século XIX os negros representavam cerca de 33% da população, em 2010, o censo argentino registrou apenas 149.493 pessoas que se autodeclaram afrodescendentes, menos de 0,3% dos 47 milhões de habitantes. O historiador Norberto Pablo Cirio, em estudo acadêmico, analisa como Sarmiento usou o carnaval para “angostar o caminho de promoção cidadã em trânsito à branquitude”, e que a reverberação dessa violência histórica ainda ecoa na sociedade argentina. O jornalista Richard Gott, em um simpósio na Universidade de Londres, foi mais incisivo ao classificar Sarmiento como “ideólogo do racismo de colonos brancos”, apontando sua defesa do extermínio de indígenas durante a “Conquista do Deserto”.
Essa negação do passado e a perpetuação do mito da “Argentina branca” criam um ambiente de carência de letramento racial, como define o sociólogo Guilherme Omar Orsi. “Na Argentina, a população não reconhece o problema”, alerta o especialista. As figuras do Poder Executivo e Legislativo frequentemente se manifestam de maneira racista sem sofrer consequências. Recentemente, o governo de Javier Milei extinguiu o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), órgão que, mesmo com limitações, era uma referência para denúncias.
Apesar da rejeição de parte dos torcedores e da existência de uma lei (nº 23.592) que tipifica atos discriminatórios como crime, a inação da FIFA e o silêncio de ídolos como Lionel Messi criam um vácuo de responsabilidade. A entidade máxima do futebol, que se define como uma “celebração de unidade, diversidade e respeito”, tem se limitado a notas de repúdio enquanto as imagens de racismo se espalham. O ex-jogador Patrick Vieira, francês de ascendência africana, resumiu o sentimento de muitos ao dizer que os atos racistas colocaram “uma escuridão sobre o que a Argentina conquistou em campo”.
Enquanto a Argentina segue na busca pelo tetra, a comunidade internacional assiste a um paradoxo: a genialidade futebolística de um país que, em sua história oficial e nas arquibancadas, ainda luta para reconhecer e combater o racismo que mancha sua identidade.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
