Valfrido Silva
Há alguns anos, aprendi num curso que fiz de cinema o que significa subtexto. Grosso modo, é aquilo que uma cena diz sem que nenhum personagem precise dizer. O sujeito fala da chuva, mas está falando da saudade. O casal discute por causa de uma xícara esquecida sobre a mesa, mas o casamento é que acabou faz tempo. A câmera permanece alguns segundos sobre uma cadeira vazia e ninguém precisa explicar quem deveria estar sentado ali. Está tudo na tela, embora não esteja. Subtexto é aquilo que o autor deliberadamente não diz porque confia que o espectador será capaz de dizer sozinho. Desde então, descobri que essa extraordinária ferramenta não pertence apenas ao cinema. Está na literatura, no teatro, na música, na boa charge e pode estar também na crônica jornalística, desde que não seja usada para insinuar como fato aquilo que não se pode provar. Subtexto não é esconder acusação debaixo do tapete. É outra coisa: é deixar um espaço vazio para que a inteligência do leitor o preencha.
Foi exatamente o que aconteceu, quase sem planejamento, na crônica sobre Lúdio Coelho. O personagem principal era aquele velho fazendeiro de poucas letras e sabedoria oceânica que foi prefeito de Campo Grande e senador da República. O gancho veio de Nelsinho Trad, que, depois de retirar sua candidatura à reeleição para o Senado, aumentou a presença pública, intensificou a prestação de contas e, numa conversa sobre civilidade política, lembrou-se dos conselhos que recebera de Lúdio quando acabara de ser eleito prefeito da mesma Campo Grande. A história tinha tudo para viver por conta própria. Tinha política, memória, afeto e até a impagável viagem de Seu Lúdio e dona Nilda numa Besta, interrompida pelo patrulheiro que pediu primeiro os documentos da Besta e, tentando corrigir o mal-entendido, acabou pedindo os documentos da perua. Lúdio entregou a primeira exigência com a própria carteira de identidade e transferiu imediatamente a segunda para a mulher: “Aí, Nirda… segura essa, que o negócio agora é com você.”
Mas a gargalhada era apenas a porta de entrada. Porque o mesmo homem que aparentemente não entendera o significado de Besta e perua entregaria a Nelsinho, anos depois, quatro recomendações que muito doutor em administração pública talvez não conseguisse condensar numa tese de quinhentas páginas. Primeiro, não deixe acontecer greve de professores. Segundo, não deixe acontecer greve de médicos. Terceiro, jamais deixe acontecer greve dos coletores de lixo. E, o mais importante: não atrapalhe o povo. Foi quando chegamos aí que o texto começou a escrever outro texto por baixo dele. O subtexto.
Porque Lúdio morreu há quase quinze anos. Nelsinho não é prefeito de Campo Grande há quase o mesmo tempo. Mas a cidade continua lá. Tem professores, médicos, coletores de lixo e, sobretudo, tem povo para ser atrapalhado. E havia uma personagem que não aparecia uma única vez na crônica.
Não foi esquecimento. Muito menos falta de assunto. A atual prefeita de Campo Grande estava ausente do texto precisamente porque não precisava estar presente. Bastava colocar diante do leitor os quatro conselhos de Lúdio e deixar que cada campo-grandense comparasse aquela régua com a cidade em que vive. Quem considerasse Campo Grande um primor administrativo poderia terminar a leitura com uma bela história sobre um antigo prefeito. Quem enxergasse outra cidade faria a montagem seguinte por conta própria. Como no cinema, não era necessário mostrar a cena. A ausência era a personagem.
E eis que, depois da brincadeira literária, aparecem os números para demonstrar que o subtexto não nasceu apenas da maldade deste cronista. Pesquisa do Instituto Ranking Brasil Inteligência, realizada entre 17 e 21 de julho com mil eleitores, encontrou 94% de desaprovação à administração Adriane Lopes; 85% dos entrevistados classificaram a gestão como ruim ou péssima. Apenas 3% disseram aprová-la. É uma fotografia devastadora, produzida por um levantamento registrado na Justiça Eleitoral.
Mas o velho Lúdio provavelmente dispensaria porcentagens e perguntaria pelas coisas simples. E os professores? Pois professores da Rede Municipal paralisaram as atividades em junho cobrando o reajuste de 5,4% relacionado ao piso, deixando sem aulas uma rede de cerca de 112 mil alunos naquele dia; uma comissão acabou recebida pela prefeita após a mobilização. Seu Lúdio havia aconselhado Nelsinho a não deixar acontecer greve de professores. Décadas depois, o primeiro mandamento já seria suficiente para o leitor começar a compreender por que não foi necessário colocar o nome da atual prefeita na crônica anterior.
E a saúde, Seu Lúdio? A mesma pesquisa colocou justamente a saúde no topo das preocupações dos moradores: 35% citaram falta de melhoria e demora nos exames; 30%, falta de médicos e medicamentos. Buracos apareceram com 23%, falta de gestão municipal com 21% e precariedade do transporte coletivo com 10,2%. Até a sujeira da cidade entrou espontaneamente entre os problemas mencionados. Não é necessário transformar pesquisa em sentença definitiva nem ignorar que toda administração possui sua versão, suas limitações orçamentárias e realizações que apresentará em defesa própria. Mas também não é preciso ser Federico Fellini para perceber que, quando um antigo prefeito aconselhava a manter escola funcionando, médico atendendo, lixo sendo recolhido e o governo longe de atrapalhar o cidadão, a montagem com o presente praticamente se edita sozinha.
O transporte coletivo talvez seja um exemplo ainda mais cinematográfico. É um problema que se arrasta há anos e chegou a uma discussão judicial sobre intervenção no contrato do Consórcio Guaicurus. Em junho, a própria prefeita dizia preferir um acordo a uma intervenção, enquanto tratava publicamente do impasse. A administração certamente poderá apresentar suas razões, responsabilidades herdadas, dificuldades contratuais e providências tomadas. Tudo isso faz parte do quadro. Só existe um personagem que não dispõe do luxo de discutir eternamente quem tem razão: o cidadão parado no ponto esperando o ônibus.
Talvez seja essa a genialidade involuntária do quarto conselho de Lúdio. Os três primeiros tratavam de categorias profissionais e serviços essenciais. O último tratava de uma filosofia inteira de governo. Não atrapalhar o povo não significa não governar. Não significa deixar cada um fazer o que quiser, abolir fiscalização, jogar o Código de Posturas pela janela e transformar prefeitura em decoração urbana. Significa compreender que o Estado existe para organizar a vida coletiva sem converter essa organização numa penitência para quem trabalha, estuda, produz, procura atendimento, pega ônibus, abre empresa, paga imposto e tenta chegar em casa sem deixar uma roda do carro dentro de um buraco.
Vivemos, paradoxalmente, a época em que o Poder Público possui mais ferramentas para facilitar a vida das pessoas e parece conservar uma criatividade inesgotável para complicá-la. Temos inteligência artificial, bancos de dados integrados, georreferenciamento, aplicativos, atendimento remoto, protocolos digitais, câmeras, satélites e computadores capazes de realizar em segundos cálculos que consumiriam meses na época de Lúdio. Mesmo assim, o cidadão ainda consegue entrar num portal para solicitar uma informação, fazer cadastro para obter uma senha, usar a senha para acessar outro sistema e descobrir, depois de preencher quinze campos, que deverá comparecer pessoalmente levando um documento que o próprio governo já possui. A tecnologia evoluiu espetacularmente. O bom senso continua em versão beta.
Foi por isso que, na crônica anterior, apareceu aquela vontade modesta do cidadão de trabalhar, criar os filhos, pagar as contas e, sobrando algum dinheiro e tempo, tomar uma cerveja sem que o Poder Público apareça para pedir uma certidão negativa da espuma. A frase nasceu como piada. Pensando melhor, talvez fosse subtexto também. Porque todo cidadão conhece alguma repartição, algum regulamento, alguma exigência ou algum serviço público capaz de fazê-lo imaginar que a certidão da espuma não está tão longe assim.
E aqui está talvez a parte mais interessante desse jogo. Se tivéssemos escrito ontem uma crônica chamada “Adriane Lopes deveria aprender com Lúdio Coelho”, provavelmente teríamos produzido um artigo muito pior. Os adversários da prefeita entrariam no texto aplaudindo, seus aliados entrariam defendendo-a e todos sairiam exatamente do mesmo lugar político em que estavam antes. Lúdio viraria instrumento de uma briga partidária que não é mais capaz de ouvir sequer os mortos sem perguntar primeiro em quem votariam. Preferimos contar a história. Colocar o velho prefeito diante do leitor. Deixá-lo falar. E confiar que Campo Grande saberia reconhecer, sozinha, o tamanho da distância entre uma filosofia de administração e a percepção que seus moradores têm da administração presente.
Agora quebramos o encanto, naturalmente. Suíte (aqui no sentido jornalístico da coisa) serve também para revelar o truque do mágico. O nome que ontem não estava escrito está aqui. Adriane Lopes é a prefeita. Tem mandato, responsabilidades, argumentos e todo o direito de contestar avaliações, apresentar realizações e tentar recuperar uma administração que hoje enfrenta índices severíssimos de rejeição. O que não pode fazer — e isso vale para ela, para Marçal Filho, para Eduardo Riedel, para Lula e para qualquer um que receba do eleitor uma chave de gabinete — é exigir que o cidadão suspenda a própria experiência cotidiana para acreditar na propaganda oficial. Governo pode editar vídeo e fazer desaparecer da tela aquilo que não lhe convém. O morador ainda não descobriu nenhum efeito mágico de edição capaz de fazer o buraco desaparecer antes de cair dentro dele.
Talvez seja essa também a diferença entre texto e subtexto. O texto é aquilo que o governante diz que está fazendo. O subtexto é aquilo que o cidadão sente que está acontecendo.
Lúdio Coelho, com sua pouca instrução formal, provavelmente jamais frequentou curso de roteiro de cinema ou de TV e talvez desse uma bela gargalhada se alguém tentasse explicar-lhe a diferença entre texto, contexto e subtexto. Mas entendia de uma coisa que antecede todas essas teorias: gente. Sabia que professor parado aparece dentro da casa de quem tem filho; médico parado aparece na dor de quem precisa de atendimento; lixo parado aparece na calçada; e governo atrapalhando aparece em todo lugar.
Ontem escrevemos milhares de palavras sobre como administrar Campo Grande. Curiosamente, não foi necessário citar quem administra Campo Grande.
