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terça-feira, agosto 11, 2026

O conselho de Lúdio Coelho que ajuda a entender a saída de Nelsinho da disputa pelo Senado

Num tempo em que tecnologia promete resolver quase tudo e governos frequentemente conseguem complicar até o que já funcionava, uma velha conversa de Nelsinho Trad com Lúdio Coelho recupera uma regra de administração pública de desconcertante simplicidade: antes de querer mudar a vida das pessoas, trate de não atrapalhá-la.

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Valfrido Silva

Há momentos em que toda a inteligência artificial disponível no planeta, somada aos computadores mais poderosos, aos algoritmos capazes de antecipar comportamentos e aos milhares de doutores saídos das universidades, precisa humildemente abrir passagem para um velho de chapéu, poucas letras e uma sabedoria que parecia não caber dentro dele. Lúdio Coelho era assim. Um dos homens mais ricos da história de Mato Grosso do Sul, fazendeiro, banqueiro, prefeito de Campo Grande, senador da República e dono de uma obsessão política que carregou durante boa parte da vida: queria governar o Estado. Tentou chegar lá ainda no Mato Grosso uno, em 1965, quando perdeu a eleição para Pedro Pedrossian, e voltaria a disputar o governo já depois da divisão. Não conseguiu. Mas talvez tenha deixado, sem jamais escrever tratado algum, uma das mais simples e interessantes definições sobre aquilo que um governante deveria fazer depois de conseguir chegar ao poder.

Antes disso, porém, é preciso conhecer o personagem. Lúdio era daqueles homens que pareciam ter saído diretamente de um causo como os do Laquicho para entrar na vida pública. Seu jeito popular, direto e quase folclórico ficou registrado até nos perfis publicados depois de sua morte. Lembro-me, como se fosse hoje, dele num programa de entrevistas da recém-criada TV Morena, andando de um lado para outro no estúdio, ao vivo, enquanto Pedro Pedrossian já batia cabeça para encontrar dinheiro suficiente para administrar aquilo que ele próprio chamara de Grande Colosso, o imenso Mato Grosso ainda uno. Lúdio dizia que, se fosse ele o governador, o Estado não estaria naquela situação. E oferecia um argumento que hoje provavelmente provocaria síncope simultânea no Tribunal de Contas, no Ministério Público e em meia dúzia de professores de Direito Administrativo: se faltasse dinheiro para alguma emergência, ele colocaria do próprio bolso. Outros tempos. Outra cabeça. E, convenhamos, outro bolso.

Depois da criação de Mato Grosso do Sul, Lúdio acabaria prefeito de Campo Grande e senador da República. Sua passagem pela prefeitura começou por nomeação em 1983 e, mais tarde, ele voltaria pelo voto, eleito em 1988; no Senado permaneceria até 2003. Foi justamente no primeiro desses períodos como prefeito que nasceu um dos causos que ajudam a entender o personagem. Conta-se que, num fim de semana, Seo Lúdio pegou dona Nilda e saiu de Campo Grande rumo à fazenda da família em Rio Brilhante. Dirigia uma daquelas vans Besta, veículo tão emblemático dos anos seguintes que o próprio nome já parecia predisposto à confusão. Numa barreira da Polícia Rodoviária Federal, o patrulheiro aproximou-se da janela e, cumprindo o protocolo, pediu: “Boa tarde, prefeito. Os documentos da Besta, por favor.” Lúdio não pestanejou. Enfiou a mão no bolso, tirou a própria carteira de identidade e entregou ao policial. O patrulheiro, segurando o riso e tentando salvar a autoridade municipal do mal-entendido, resolveu trocar o substantivo: “Não, prefeito. Preciso dos documentos da perua.” Lúdio virou-se imediatamente para a primeira-dama e, com aquela tranquilidade dos homens que não desperdiçam tempo procurando duplo sentido onde ele já veio pronto, disparou: “Aí, Nirda… segura essa, que o negócio agora é com você.”

É causo daqueles que sobrevivem porque parecem resumir uma pessoa inteira. E talvez explique por que, muitos anos depois, quando Nelsinho Trad se elegeu prefeito de Campo Grande pela primeira vez, procurou justamente aquele velho bonachão para pedir conselho. Nelsinho chegava à prefeitura depois de passar pela Câmara Municipal e pela Assembleia Legislativa; seria eleito prefeito em 2004 e reeleito em 2008, antes de chegar ao Senado em 2018. Médico urologista, apresentador de televisão, integrante de uma família que praticamente nasceu discutindo política à mesa, poderia ter procurado algum especialista em gestão pública, encomendado um planejamento estratégico ou chamado uma consultoria para lhe entregar duzentas páginas em papel couché sobre os desafios da administração municipal. Preferiu perguntar a Seo Lúdio:

“Ganhei para prefeito. E agora, o que eu faço?”

A resposta voltou agora à tona numa conversa do senador com o contrapontoMS. Mesmo depois de retirar seu nome da disputa pela reeleição, Nelsinho não reduziu a marcha: intensificou atividades parlamentares, presença pública e prestação de contas do mandato como se a eleição tivesse simplesmente deixado de ser problema seu. Talvez tenha descoberto, nessa nova circunstância, que desistir de uma eleição não significa desistir do mandato. E foi justamente quando se falou dessa maneira civilizada de atravessar a política, sem transformar cada movimento numa guerra de extermínio, que ele puxou da memória o conselho recebido de Lúdio quando ainda estava chegando à Prefeitura.

Seo Lúdio não falou em governança. Não recomendou indicadores de desempenho. Não mencionou metas transversais, compliance, inteligência de dados, transformação digital, cidades inteligentes, planejamento disruptivo nem qualquer dessas expressões que hoje caberiam numa apresentação de PowerPoint suficientemente cara. Deu quatro conselhos.

Primeiro: não deixe acontecer greve de professores. Segundo: não deixe acontecer greve de médicos. Terceiro: jamais deixe acontecer greve dos coletores de lixo da cidade. E o mais importante, meu filho: NÃO ATRAPALHE O POVO.

Pode ser que, naquela simplicidade quase desconcertante, estivesse escondido um curso inteiro de administração pública. Os três primeiros conselhos cuidavam daquilo que o cidadão percebe imediatamente quando deixa de funcionar. Professor parado, criança sem aula. Médico parado, doente sem atendimento. Coletor parado, lixo na calçada. Lúdio não precisava de painel eletrônico para descobrir quais serviços públicos atravessavam a porta da casa das pessoas. Sabia pela experiência. E sabia também que o governante costuma ser avaliado menos pelos discursos que faz do que pelo transtorno que provoca quando aquilo que deveria funcionar deixa de funcionar.

Mas é o quarto conselho que atravessa o tempo.

Não atrapalhar o povo.

Num século em que governos dispõem de uma capacidade tecnológica que Lúdio jamais poderia imaginar, a frase parece quase subversiva. Hoje é possível cruzar bancos de dados em segundos, acompanhar serviços por satélite, colocar inteligência artificial dentro de repartições, digitalizar documentos, eliminar filas, prever demandas e resolver pelo telefone aquilo que antigamente obrigava o cidadão a peregrinar por cinco guichês carregando cópia autenticada até da certidão de batismo do avô. E, mesmo assim, continuamos demonstrando uma extraordinária capacidade de usar ferramentas cada vez mais sofisticadas para criar dificuldades cada vez mais sofisticadas.

Talvez porque governantes tenham desenvolvido a crença de que administrar significa necessariamente fazer alguma coisa com a vida do cidadão. Criar uma regra. Inventar uma exigência. Pedir outro documento. Mudar um procedimento. Construir uma plataforma. Exigir um cadastro para acessar o cadastro que permitirá solicitar uma senha para entrar no sistema onde finalmente será informado que o serviço está temporariamente indisponível. O sujeito só queria abrir uma empresa, conseguir uma licença, marcar uma consulta, regularizar um imóvel ou descobrir por que apareceu uma cobrança que ninguém sabe explicar. Depois de algumas horas diante da burocracia digital, começa a sentir saudade da fila.

Lúdio talvez não soubesse explicar transformação digital. Mas conhecia profundamente uma tecnologia que ainda não foi superada: bom senso.

Não atrapalhar o povo não significa ausência de governo. É justamente o contrário. Significa fazer o Estado funcionar tão bem que o cidadão não precise passar o dia pensando nele. A rua está transitável, o lixo desaparece da calçada, a criança tem aula, o posto atende, a lâmpada acende, o ônibus passa, o alvará sai e a repartição resolve. O cidadão não acorda pela manhã desejando contemplar a grandeza administrativa do prefeito, do governador ou do presidente da República. Quer trabalhar, produzir, estudar, criar os filhos, pagar as contas e, sobrando algum dinheiro e tempo, tomar uma cerveja sem que o Poder Público apareça para pedir uma certidão negativa da espuma.

Talvez esteja aí também uma explicação para a lembrança de Nelsinho. Há uma elegância rara na política de quem consegue perder uma disputa — ou simplesmente sair dela — sem considerar necessário incendiar a ponte pela qual acabou de atravessar. Política não deveria ser atividade em que cada derrota transforma o adversário em inimigo e cada frustração exige vingança pública. Lúdio conheceu derrotas importantes, inclusive para o governo do Estado, e nem por isso desapareceu da vida pública. Foi prefeito, voltou a disputar eleições, chegou ao Senado e construiu uma reputação que, na lembrança de contemporâneos, ficou associada à simplicidade, à tolerância e à capacidade de compreender o sentimento das pessoas. Nelsinho, décadas depois, parece ter guardado mais que a anedota. Guardou o conselho.

E talvez por isso a história tenha voltado justamente agora. Em tempos de tanta tecnologia e tão pouca sabedoria, estamos cercados por gente oferecendo soluções complicadíssimas para problemas que às vezes começariam a ser resolvidos com uma pergunta elementar: isso facilita ou atrapalha a vida de quem está lá fora?

A resposta não cabe em algoritmo. Cabe numa frase de Seo Lúdio. Nelsinho perguntou como administrar uma cidade e recebeu quatro conselhos. Os três primeiros ensinavam o que um prefeito deveria impedir que parasse. O último ensinava onde o poder deveria saber parar. Não atrapalhar o povo.

Talvez esteja justamente aí a razão de, tantos anos depois, Seo Lúdio continuar fazendo falta. Não apenas pela simplicidade, pela sabedoria ou pelos causos que deixou espalhados pela memória de Mato Grosso do Sul. Mas por uma qualidade que deveria ser banal na vida pública e que o tempo tratou de transformar quase em distinção.

Lúdio Coelho foi um prefeito de mãos limpas. Por ele eu poria, de novo, a mão no fogo.

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