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quarta-feira, agosto 12, 2026

O Pantanal pode morrer antes de desaparecer do mapa

Em artigo publicado pela folha de dourados, o geógrafo e ex-prefeito Laerte Tetila faz uma advertência perturbadora: a devastação do Cerrado nos planaltos que circundam a planície acelera a erosão e o assoreamento dos rios e pode empurrar um dos maiores patrimônios ambientais do planeta para aquilo que ele define como um imenso “deserto úmido”

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Há textos que chegam à redação pedindo opinião. Outros pedem contestação, contraponto, contextualização, uma boa lupa sobre números ou mesmo aquela velha desconfiança que deveria acompanhar o jornalista até diante da previsão do tempo. E há textos que, antes de qualquer coisa, recomendam silêncio e leitura. É o caso do artigo publicado nesta quarta-feira pela folha de dourados e assinado pelo professor e geógrafo Laerte Tetila, ex-vereador, ex-deputado estadual e prefeito de Dourados por dois mandatos. Não é propriamente um recém-chegado à discussão ambiental nem alguém que tenha descoberto o Pantanal depois que o bioma passou a produzir belas imagens para campanhas publicitárias, documentários e discursos de autoridades. Tetila é mestre em Geografia Física pela USP, teve José Roberto Tarifa como orientador, conviveu academicamente com Aziz Ab’Saber e participou de pesquisa no Pantanal numa parceria USP/UNESCO. Sua relação intelectual e afetiva com a questão ambiental atravessa décadas. Em 2012, quando ainda exercia mandato de deputado estadual, já fazia da tribuna da Assembleia Legislativa praticamente a mesma advertência: o assoreamento atingia os rios pantaneiros, o Taquari representava o caso mais grave e milhões de toneladas de areia eram transportadas dos planaltos para a planície.

Talvez seja justamente esse detalhe que torne o texto atual mais inquietante. Tetila não está descobrindo agora o problema. Está dizendo que o problema sobre o qual advertia há mais de uma década continua diante de nós. Em artigo publicado em setembro de 2012, ele já relacionava a vulnerabilidade da planície ao desmatamento do arco de planaltos que circunda o Pantanal e apontava o assoreamento como uma das consequências mais graves dessa pressão ambiental. Passaram-se quase 14 anos. Governos passaram, mandatos terminaram, outros começaram, multiplicaram-se conferências, planos, programas, seminários, compromissos ambientais e discursos sobre sustentabilidade. O rio, porém, não lê release. A areia tampouco se impressiona com solenidade. Quando a vegetação protetora desaparece e a chuva encontra solo vulnerável, a natureza segue obedecendo às suas próprias leis, indiferente às nossas conveniências políticas e econômicas.

É aqui que a advertência de Tetila deixa de ser uma discussão reservada a geógrafos, ambientalistas, produtores rurais ou habitantes do Pantanal. O que ele descreve é uma cadeia. O Pantanal é uma planície e não pode ser compreendido isoladamente das áreas mais altas que o circundam. Os rios que chegam à planície carregam consigo a história do território por onde passaram. Quando a cobertura vegetal dos planaltos é removida, sobretudo em solos suscetíveis à erosão, chuva e enxurrada começam a transportar sedimentos. Esses materiais chegam aos cursos d’água, depositam-se nos leitos, diminuem sua profundidade e alteram sua dinâmica. É o assoreamento, palavra relativamente comportada para descrever um processo capaz de produzir consequências nada comportadas. O próprio histórico do Taquari mostra por que Tetila insiste no assunto há tanto tempo.

No artigo uma expressão que deveria provocar algum desconforto até em quem normalmente passa correndo pelas pautas ambientais: “deserto úmido”. À primeira vista parece contradição. Como poderia o Pantanal, justamente o Pantanal, transformar-se num deserto sem necessariamente ficar seco? A resposta está no sentido em que Tetila emprega a imagem. Não se trata de imaginar dunas substituindo cinematograficamente as águas da planície, mas um ambiente profundamente degradado pelo acúmulo de sedimentos, com rios progressivamente assoreados, dinâmica hídrica alterada e perda da extraordinária capacidade de sustentar a vida que fez daquele território um dos grandes santuários ecológicos do planeta. O Pantanal poderia, portanto, continuar no mapa, continuar recebendo água, continuar sendo chamado de Pantanal e, ainda assim, deixar progressivamente de ser aquilo que conhecemos como Pantanal. Essa talvez seja a parte mais assustadora da advertência.

Há ainda uma dimensão especialmente incômoda no artigo. Tetila não demoniza simplesmente agricultura, pecuária ou silvicultura, atividades fundamentais à economia de Mato Grosso do Sul. O que coloca em discussão é algo mais difícil e, por isso mesmo, muito mais sério: até onde pode avançar a exploração econômica de um território sem comprometer os sistemas naturais dos quais a própria economia depende? O imediatismo costuma produzir respostas fáceis. Derruba-se hoje, planta-se hoje, produz-se hoje, exporta-se hoje, contabiliza-se hoje. E os efeitos cumulativos sobre solo, rios e planície são lançados para uma espécie de contabilidade ambiental futura, como se a natureza aceitasse precatório. Não aceita. Uma tonelada de solo que deixou o planalto e foi parar no fundo de um rio não retorna à origem porque algum governo futuro criou uma comissão para estudar o assunto.

Não que todas as projeções apresentadas por Tetila devam ser recebidas como sentença inevitável — ciência séria não funciona como profecia —, mas a advertência vem de quem acumulou formação e experiência suficientes para merecer ser ouvido. E porque existe uma diferença monumental entre alarmismo e alarme. Alarmismo é fabricar perigo onde ele não existe. Alarme é tocar a campainha quando há sinais suficientes para que ninguém alegue depois que não foi avisado. Tetila vem tocando essa campainha há muito tempo.

Talvez por isso a melhor maneira de entender o artigo de Laerte Tetila seja resistir à tentação de acrescentar-lhe dramatização. O drama já está escrito na geografia. Se estiver certo — e sua advertência vem sendo repetida há tempo suficiente para que ao menos tenhamos a obrigação de levá-la a sério —, não estaremos discutindo apenas a preservação de uma bela paisagem de Mato Grosso do Sul. Estaremos discutindo a possibilidade de nossos filhos e netos herdarem um lugar ainda chamado Pantanal, fotografado como Pantanal, anunciado turisticamente como Pantanal, talvez até protegido por placas dizendo Pantanal, mas ecologicamente cada vez menos Pantanal.

contrapontoMS

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