Valfrido Silva
Mal havia esfriado a história da fotografia ching ling da recepção festiva a Reinaldo Azambuja em Maracaju quando o mesmo atento leitor/eleitor que descobriu aquela preciosidade voltou à carga. Desta vez não mandou fotografia, recorte ou documento. Bastou comentar a repercussão do episódio e, sem perceber, soltou uma pérola digna do açougueiro da Vila Vargas, Jefferson Bezerra, aquele candidato a governador já vai se popularizando por suas impagáveis pérolas, como as estranhas “crinicas”: “Isso não é nem gancho. É uma espetada.”
O homem matou a pau. Porque, pensando bem, espetada define melhor do que gancho aquilo que pretendemos fazer daqui até 4 de outubro. Não espetar Azambuja, sua assessoria ou qualquer candidato previamente escolhido para apanhar. Espetar quem der motivo. Quem põe a cara a tapa numa eleição oferece currículo, passado, promessas e contradições ao escrutínio público. Não pode esperar apenas release perfumado, fotografia escolhida a dedo, militância sorridente e manchete anunciando que foi “recebido com festa” até na cidade que governou duas vezes.
E esta é justamente a razão de ser do contrapontoMS. Enquanto a poderosa engrenagem da comunicação oficial e eleitoral distribui versões cuidadosamente embaladas — e há veículos muito mais confortáveis em reproduzi-las do que em escarafunchá-las —, vamos remando, devagar e sempre, tentando entregar ao leitor/eleitor aquilo que propaganda nenhuma tem obrigação de oferecer: o outro lado da fotografia. Contexto, memória, contradição e informação verdadeira. Inclusive as histórias pitorescas, porque candidato não nasce no dia da convenção. Tem biografia. Alguns têm uma capivara respeitável. Outros, como vimos esta semana, têm até sapatada no currículo.
Aliás, a sapatada rendeu uma segunda, agora verbal. Um personagem mencionado lateralmente em uma das tantas operações policiais que passaram pelos nossos alfarrábios resolveu sair em defesa justamente do cidadão que protagonizou aquele episódio no plenário e agora disputa uma cadeira na Assembleia. Indignado com nossa lembrança, saiu-se com esta: “Deixa o pobre coitado sonhar.”
Convenhamos: há defesas das quais o acusado pediria proteção. O amigo e colega de calvário uragânico queria ajudar, certamente. Só que chamar de “sonho” a candidatura de alguém em plena campanha pode ser uma espetada mais dolorida do que qualquer crítica adversária. Dependendo do ouvido, soa quase como: deixem o rapaz brincar, outubro cuida do resto. E o melhor — ou pior — é que a frase partiu de quem pretendia defendê-lo. Depois da sapatada na cara do eleitor descobrimos que certas campanhas talvez precisem criar uma nova função urgentemente: protetor do candidato contra o excesso de entusiasmo dos amigos.
É esse material que campanha nenhuma consegue controlar. Uma fotografia desmente involuntariamente o título do release; um apoiador tenta defender e produz a melhor ironia da semana; um detalhe esquecido reaparece anos depois para lembrar que eleitor também tem memória. Nosso trabalho não é fabricar essas situações. É não fingir que não as vimos.
Portanto, agradeço ao leitor pela contribuição involuntária ao nosso pequeno dicionário eleitoral. Daqui em diante haverá notícia, análise, memória, humor e, sempre que a realidade colaborar, espetada. Com uma condição, naturalmente. A régua precisa ter duas pontas. Senão não é contraponto. É torcida.
