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quarta-feira, agosto 26, 2026

O ‘espetáculo’ do dinheiro público com cachê artístico

No fim das contas, a pergunta que deveria acompanhar cada contrato milionário não é apenas “pode pagar?”, mas também “vale a pena pagar?”

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Uma fotografia da cantora sul-mato-grossense Ana Castela ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira, durante a Festa do Peão de Barretos, voltou a colocar a artista no centro de uma discussão que vai muito além da música sertaneja: até onde é razoável utilizar dinheiro público para financiar grandes cachês de artistas enquanto pequenos municípios convivem com carências básicas?

O caso de Nova Belém, em Minas Gerais, é emblemático. Com apenas 3.151 habitantes, o município contratou Ana Castela por R$ 900 mil para uma apresentação. O valor chama ainda mais atenção quando comparado aos recursos recebidos pelo município por meio do Fundo de Participação dos Municípios (FPM): R$ 10,34 milhões em 2026, segundo os dados disponíveis do Tesouro Transparente. Em outras palavras, o cachê corresponde a aproximadamente 8,7% de tudo o que a cidade recebeu do FPM no período considerado.

É importante deixar claro: a existência de um contrato legal não significa, automaticamente, que ele seja ilegítimo. Prefeituras podem promover festas, contratar artistas e investir em cultura e entretenimento. A questão mais incômoda é outra: qual deve ser a prioridade de um município pequeno quando cada real do orçamento pode fazer diferença na vida da população?

Levantamento divulgado pelo Site Metrópoles identificou 26 contratos de prefeituras com Ana Castela, totalizando R$ 22,68 milhões em cachês para apresentações previstas em 2026. Há ainda o caso de São Fidélis, no Rio de Janeiro, onde a cantora receberá R$ 850 mil em um show custeado com recursos de uma emenda parlamentar. E Ana Castela não é uma exceção. Outros artistas também aparecem em contratos milionários firmados por administrações municipais.

É aí que a discussão deixa de ser sobre uma cantora, um partido ou uma ideologia política e passa a ser sobre modelo de gestão pública. O dinheiro utilizado nesses eventos não nasce de uma fonte particular. É dinheiro que chega aos municípios por transferências constitucionais, emendas parlamentares ou outras receitas públicas. E, quando um município recebe uma verba extraordinária para realizar um grande espetáculo, surge uma pergunta inevitável: o que deixou de ser feito — ou poderia ter sido feito — com aquele recurso?

A controvérsia ganha dimensão ainda maior quando emendas parlamentares são utilizadas para financiar festas e shows de alto custo. O problema não está necessariamente na festa popular, que também pode movimentar a economia, gerar empregos temporários, atrair visitantes e oferecer lazer à população. O problema aparece quando o espetáculo se transforma em vitrine política e passa a disputar espaço com necessidades que não têm palco, iluminação nem grandes multidões.

Enquanto um cachê de centenas de milhares de reais rende fotografia, divulgação e aplausos, obras de saneamento, manutenção de estradas vicinais, equipamentos para unidades de saúde, melhorias nas escolas, medicamentos e atendimento social dificilmente produzem o mesmo impacto publicitário. São realizações menos fotogênicas, mas muitas vezes muito mais importantes para quem depende diariamente dos serviços públicos.

É justamente nesse ponto que ressurge uma expressão antiga, mas ainda bastante atual: “pão e circo”. A expressão nasceu em outro contexto histórico, mas continua sendo utilizada para descrever situações em que governos oferecem entretenimento e benefícios imediatos enquanto problemas estruturais permanecem sem solução. O risco, portanto, não está na festa em si, mas na inversão de prioridades.

Também é preciso evitar uma simplificação: não se trata de dizer que todo prefeito que contrata um artista caro está cometendo irregularidade, nem que toda emenda destinada a eventos é desperdício. A administração pública deve ser analisada à luz da legalidade, da transparência, da economicidade e, sobretudo, do interesse coletivo. Legalidade é o ponto de partida; não deveria ser o ponto final da discussão.

No fim das contas, a pergunta que deveria acompanhar cada contrato milionário não é apenas “pode pagar?”, mas também “vale a pena pagar?”. Em cidades pequenas, onde os recursos são escassos e as demandas são muitas, essa diferença é fundamental.

Porque o povo também gosta de festa. Gosta de música, de rodeio, de artistas famosos e de momentos de lazer. Mas o cidadão que dança na praça à noite é o mesmo que, no dia seguinte, precisa de uma estrada em condições, de atendimento médico, de escola funcionando e de serviços públicos que respondam às suas necessidades.

O debate, portanto, não é contra shows e outros eventos. É a favor da prioridade. E quando centenas de milhares de reais são destinados a poucos minutos de espetáculo, enquanto problemas essenciais continuam esperando, talvez seja hora de perguntar se o verdadeiro show está no palco — ou na maneira como o dinheiro público está sendo escolhido para chegar até ele.

Vivaldo Silva (Ézio Moreira) – pastor presbiteriano, jornalista, assessor e comunicador, natural de Dourados (MS) e residente na região noroeste de Mato Grosso.

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