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segunda-feira, agosto 24, 2026

Do Morenão ao Douradão, a lição de Pedrossian que fica para Riedel e Azambuja

A visita do governador ao estádio de Campo Grande ressuscita uma história de 1983 e o ensinamento de Pedro Pedrossian sobre a arte de administrar divergências

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Valfrido Silva

“Durante muito tempo, olhar para o Morenão era também olhar para uma lembrança”. Que me perdoem os colegas da comunicação do governador Eduardo Riedel, mas vou me apropriar desta primeira linha de um daqueles releases quilométricos — embora muito bem fundamentados — para dizer que, mudando apenas o tempo verbal, olhar para o Douradão também é olhar para uma lembrança. O texto da campanha do candidato à reeleição trata da recuperação do Morenão, com investimentos estimados em R$ 17 milhões, dentro da política esportiva do governo. Mas bastou olhar a fotografia de Riedel percorrendo as arquibancadas do velho estádio para este insubordinado voltar mais de quatro décadas no tempo e reencontrar outro governador, outro estádio e uma lição política que talvez seja mais atual em 2026 do que era quando a ouvi.

Em comum entre o Morenão e o Douradão tinha que estar ele: Pedro Pedrossian. O estádio de Campo Grande leva seu nome. Em Dourados, o Estádio Frédis Saldivar também nasceu pelas mãos de seu governo, embora aqui seja necessário fazer justiça à história: Pedrossian lançou a obra e levantou seus alicerces, depois voltou, noutro governo, para sua inauguração, mas quem efetivamente a concretizou, ou concretou, foi o governador Wilson Barbosa Martins. Mas não é propriamente de futebol que trata esta crônica. É de política. E, principalmente, da diferença entre administrar divergências e tentar eliminá-las.

Na eleição de 1982, a primeira depois da reabertura democrática, Pedro Pedrossian tinha uma situação curiosa em Dourados. Dentro do PDS havia dois candidatos a prefeito ligados ao mesmo grupo. Braz Melo era o candidato do coração do governador. Luiz Antônio Álvares Gonçalves, o candidato apoiado por José Elias Moreira, que disputava o governo do Estado e era também candidato do próprio Pedrossian. Luiz Antônio acabou eleito prefeito, derrotando não apenas Braz, mas também o peso pesado da política douradense, João Totó Câmara e seu coadjuvante Sultan Rasslan, ambos pelo PMDB. Zé Elias, entretanto, perdeu a disputa estadual.

É aqui que a fotografia de Riedel no Morenão encontra a minha lembrança do Douradão.

Este insubordinado do jornalismo havia sido um dos coordenadores das campanhas de Zé Elias ao governo e, nos últimos dias, também de Luiz Antônio à prefeitura e, como prêmio — ou castigo, dependendo do ponto de vista —, assumira a assessoria de imprensa do prefeito recém-empossado. Como naquele calendário a posse do prefeito ocorria em janeiro e a do novo governador somente em março, Pedrossian ainda comandava o Estado quando veio a Dourados, já nos estertores do mandato. Fez a visita protocolar ao novo prefeito e, depois, os dois foram vistoriar as obras recém-iniciadas do Douradão.

Foi ali, diante daqueles alicerces, numa cena que a fotografia de Riedel agora me devolveu inteira à memória, que Doutor Pedro comentou comigo:

— Vocês não entenderam minha política de administrar divergências. Se eu não tivesse apoiado o Braz, o Luiz Antônio não era prefeito hoje.

Era uma meia-verdade, naturalmente, já que Luiz Antônio tivera mais votos que Braz Melo e também vencera Totó Câmara e Sultan Rasslan, não necessitando dos votos da sublegenda para se eleger. Mas a frase revelava muito sobre a maneira como Pedrossian enxergava o poder. Ele não imaginava que liderança significasse necessariamente acabar com as divergências dentro do próprio grupo. Preferia administrá-las.

Passados 44 anos, talvez Eduardo Riedel devesse guardar essa frase junto com as fotografias de sua visita ao Morenão. E talvez Reinaldo Azambuja devesse refletir ainda mais sobre ela.

Porque a pergunta que começa a rondar esta eleição é inevitável: o azambujismo está administrando divergências ou tentando, na marra, suprimi-las? Quando um grupo político passa a definir com mão de ferro as coligações, decidir quem deve ou não disputar determinados cargos, interferir nas candidaturas majoritárias, nas chapas para a Câmara Federal e até na composição das forças que concorrem à Assembleia Legislativa, existe sempre o risco de confundir liderança com coronelismo. E o afastamento de Nelsinho Trad da campanha é apenas o exemplo mais visível de uma engrenagem que vem funcionando há bastante tempo.

A história oferece uma ironia que Azambuja, justamente por conhecer tão bem a política sul-mato-grossense, não deveria desprezar. A estratégia de Pedrossian pode ter ajudado a preservar a vitória do seu grupo na Prefeitura de Dourados, com Luiz Antônio, mas Dourados perdeu naquela eleição sua primeira grande — e talvez única — oportunidade de eleger um governador, com José Elias Moreira. E aqueles conflitos, acomodações e ressentimentos que pareciam perfeitamente administráveis dentro de uma estrutura política quase inexpugnável ajudariam, com o passar do tempo, a construir o ambiente da derrocada eleitoral do maior líder que Mato Grosso do Sul já teve.

Pedrossian parecia invencível. Até deixar de ser. É por isso que a fotografia de Eduardo Riedel no Morenão não me trouxe apenas lembranças de estádio. Trouxe de volta Doutor Pedro caminhando pelas obras do Douradão e aquela frase que ficou guardada durante mais de quatro décadas na memória deste repórter.

Administrar divergências não é a mesma coisa que eliminá-las. Talvez seja esta a diferença que separa um líder de um coronel. E, em ano eleitoral, convém lembrar outra coisa que o próprio Pedrossian acabaria aprendendo, depois de perder o governo para Zeca do PT e uma reeleição para o Senado, para Rachid Saldanha Derzi: por mais poderoso que seja o comandante, e ele era muito mais que Azambuja, quem dá a última ordem continua sendo o eleitor.

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