Anita Tetslaff*
A matemática do voto de protesto nem sempre fecha a conta para o eleitor. Quando o eleitor deposita seu voto em um influenciador, humorista ou jogador de futebol, raramente imagina que está contribuindo para eleger outros candidatos do mesmo partido, sendo que muitos deles até com votação inexpressiva. Essa é a mecânica do sistema proporcional brasileiro, que soma os votos da legenda para distribuir cadeiras, transformando celebridades em “puxadores de votos”. O efeito prático disso é um voto de protesto ou de entretenimento que pode resultar na eleição de uma bancada inteira de políticos sem compromisso com as pautas que realmente afetam a vida do cidadão.
A tradição de candidatos folclóricos no Brasil é antiga e revela uma questão mais profunda do que as risadas que suas figuras provocam. Em 1988, o chimpanzé Tião, do zoológico do Rio de Janeiro, recebeu cerca de 400 mil votos para prefeito da capital fluminense em um manifesto de insatisfação popular que só foi possível graças à cédula de papel, na qual o eleitor podia escrever qualquer nome. O episódio, que se tornou um marco do voto de protesto, serviu até como argumento para a adoção da urna eletrônica.
Agora, em 2026, a lista de pré-candidatos inclui a musa fitness Gracyanne Barbosa (Republicanos-RJ), o cantor do hit “Caneta Azul” Manoel Gomes (Avante-SP), a apresentadora Silvia Abravanel (PSD-SP), o ex-jogador Luís Fabiano (MDB-SP) e a socialite Val Marchiori (Republicanos-SP). O fenômeno se repete a cada ciclo eleitoral em que nomes com forte presença nas redes sociais ou na TV são cobiçados pelos partidos para atuar como legítimos “puxadores de votos”.
O problema não está na fama, mas na arquitetura do sistema eleitoral. Nas eleições para deputados federais, estaduais e vereadores, o Brasil adota o sistema proporcional de lista aberta. Diferentemente do sistema majoritário, usado para presidente, governador e prefeito, aqui o que vale não é apenas o voto no candidato, mas a soma total de votos que o partido recebe.
O cálculo do quociente eleitoral é a primeira etapa do processo, e consiste em dividir o número de votos válidos pelo total de cadeiras em disputa. Apenas os partidos que alcançam esse quociente têm direito a vagas. Em seguida, aplica-se o quociente partidário, que define quantas cadeiras cada legenda terá. Por fim, as vagas são preenchidas pelos candidatos mais votados dentro de cada partido.
É nessa última etapa que mora o perigo. Quando um candidato famoso obtém uma votação muito alta, ele sozinho pode garantir que o partido conquiste mais cadeiras, “arrastando” consigo outros candidatos da legenda que tiveram poucos votos individuais. O nome técnico para esse efeito é “puxador de votos”, e ele já produziu casos emblemáticos.
Em 2002, o médico Enéas Carneiro obteve 1,5 milhão de votos em São Paulo e levou consigo cinco candidatos do PRONA, sendo que um deles com apenas 275 votos. Em 2010, o palhaço Tiririca bateu recorde com mais de 1,3 milhão de votos e, sozinho, garantiu a eleição de mais três parlamentares do seu partido à época, o PR. Em 2014, no Rio, o voto em Chico Alencar e Jean Wyllys ajudou a eleger o cabo Daciolo pelo PSOL, que acabou expulso do partido em menos de quatro meses.
Atualmente, existe uma trava para ocupar uma cadeira, em que o candidato precisa ter, no mínimo, 20% do quociente eleitoral (segundo algumas interpretações, 10% da legislação anterior). Ninguém mais entra com 275 votos. Mas a trava não eliminou o efeito puxador, apenas encareceu o ingresso.
O cientista político Roberto Beijato Júnior, da PUC-SP, explica a lógica dos partidos: “Como essas pessoas já chegam às campanhas com notoriedade, os partidos reduzem o esforço para torná-las conhecidas”. A conta é fria e o partido não busca o influenciador pela capacidade de legislar, mas pela audiência em que mais votos na legenda significam mais cadeiras, mais fundo partidário e mais poder de emenda. É a oportunidade perfeita para quem quer crescer sem compromisso programático.
O voto de protesto, longe de ser um fenômeno episódico, constitui um elemento estrutural da dinâmica eleitoral brasileira, capaz de influenciar a representação política e remodelar o sistema partidário. Um estudo da PUC-SP sobre o tema aponta que a descrença no sistema político e nos partidos é fator decisivo para que os eleitores optem por essas figuras, cujas propostas tendem a ser frágeis e pouco fundamentadas, com apelo popular.
O presidente da República, por mais poderoso que pareça, é apenas o “síndico do condomínio”. Quem realmente decide as leis, o orçamento e as políticas públicas são os deputados e senadores. Quando o eleitor deposita seu voto em um influenciador ou humorista como forma de protesto, não está apenas escolhendo um nome para uma cadeira, mas, está, sem saber, inflando a conta do partido e ajudando a eleger outros candidatos que podem não ter qualquer compromisso com as pautas que realmente importam.
A pergunta que fica, e que o eleitor deve fazer antes de ir às urnas, não é se o candidato é engraçado ou tem muitos seguidores, mas sim, quem entra junto com ele?
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
