Valfrido Silva
O evento que era para ser uma simples cerimônia de reabertura de uma biblioteca municipal acabou cercado de um simbolismo extraordinário e pode até se transformar na grande marca que o prefeito Marçal Filho ainda busca para seu primeiro mandato: a prioridade ao saber, à educação e ao jeito simples, prático e objetivo de fazer as coisas quando se quer realmente fazê-las. Tudo acabou resumido numa frase do próprio prefeito diante da Biblioteca Municipal Vicente de Carvalho, devolvida nesta quarta-feira à população depois de anos de abandono: “A situação desse espaço aqui era tão caótica que os administradores que me antecederam certamente passavam por aqui e preferiam fingir que nada disso existia, talvez pelo conceito que tinham da importância de um livro, principalmente para uma criança em idade escolar”. A frase seria suficientemente dura por si só. Tornou-se ainda mais eloquente porque continuavam frescas na memória as manchetes de pouco mais de um mês atrás sobre uma operação policial cujo nome não poderia produzir contraste mais incômodo com aquela cerimônia: Gutenberg.
Johannes Gutenberg entrou para a história ao aperfeiçoar e popularizar a impressão com tipos móveis na Europa, ajudando a transformar o livro num dos grandes instrumentos de disseminação do conhecimento. Mais de cinco séculos depois, seu nome foi parar nas páginas policiais de Mato Grosso do Sul por uma razão quase ofensiva à sua memória. A Operação Gutenberg, deflagrada pelo Gaeco, em julho, investiga uma organização criminosa suspeita de utilizar justamente livros paradidáticos para dar aparência de legalidade a contratos públicos supostamente fraudados, envolvendo mais de R$ 27 milhões e alcançando diversos municípios do Estado, entre eles Dourados. O próprio Ministério Público, ao explicar a escolha do nome, ressaltou a contradição: enquanto a missão de Gutenberg ampliou o acesso ao conhecimento, os livros investigados teriam servido como instrumento de um esquema criminoso.
Talvez ninguém tenha pensado nisso imediatamente quando estudantes da Escola Municipal Joaquim Murtinho cantavam e declamavam poesias diante da velha Vicente de Carvalho. Talvez nem fosse necessário verbalizar. Mas era impossível para quem acompanhou o noticiário recente não perceber a força da imagem: enquanto uma investigação ainda tenta esclarecer como livros puderam ser transformados em mercadoria de um balcão suspeito de negócios públicos, uma biblioteca que estava praticamente entregue à própria sorte voltava a abrir as portas para que crianças pudessem simplesmente ler.

Fundada em 1970 e instalada na Praça Mário Corrêa, ao lado do Terminal de Transbordo, a Biblioteca Vicente de Carvalho atravessou gerações como referência para estudantes douradenses. Chegou aos últimos anos, porém, em situação incompatível com essa história. Telhado danificado, infiltrações, mobiliário precário, ausência de climatização e um ambiente que progressivamente afastava justamente aqueles que deveriam ser atraídos para dentro dele. Não era preciso construir um prédio novo, lançar uma obra faraônica ou inventar alguma dessas soluções que costumam chegar acompanhadas de placas igualmente faraônicas. Era preciso fazer algo muito menos espetacular e, talvez por isso mesmo, mais difícil para determinadas administrações públicas: cuidar do que já existia.
Foi aí que entrou uma fórmula que a secretária municipal de Cultura, Gisella Mello, resolveu perseguir desde que encontrou a biblioteca naquele estado: juntar Prefeitura, outras secretarias e iniciativa privada para recuperar o espaço sem transformar a solução num parto burocrático interminável. Vieram parceiros, recuperaram-se telhado e forro, melhoraram-se instalações elétricas e iluminação, houve pintura, renovação do mobiliário, climatização e ampliação do acervo. O espaço está agora novamente aberto ao público, com cerca de 10 mil livros catalogados, seis computadores conectados à internet, espaço para pesquisa e estudo e, principalmente, condições para que a biblioteca volte a ser biblioteca.
A simplicidade da solução talvez explique a observação feita pela vereadora Ana Paula durante a solenidade. Ao defender a união entre poder público, empresas e sociedade, ela resumiu o método numa frase dirigida a Marçal: “Tem gente que dá desculpas para não fazer as coisas, mas no seu caso o senhor resolve, prefeito, sem inventar desculpas; o senhor vai lá e faz”. É evidentemente cedo para transformar uma biblioteca reformada em síntese de uma administração inteira. Governos são julgados por conjuntos de políticas públicas, não por solenidades. Mas símbolos também ajudam a revelar prioridades — e poucas imagens são tão poderosas quanto crianças entrando numa biblioteca que adultos haviam deixado deteriorar.
Há ainda outra dimensão nesse desagravo involuntário a Gutenberg. Dourados apareceu nas investigações envolvendo contratações milionárias de livros paradidáticos realizadas na administração anterior. Reportagens baseadas nos elementos da investigação apontam valores elevados pagos pelo município à editora investigada, embora até agora não haja informação oficial de que o ex-prefeito ou ex-gestores tenham sido denunciados por esses fatos. A atual administração informou que não realizou compras da empresa investigada e que vem fornecendo ao Gaeco a documentação solicitada. É uma distinção necessária, porque investigação não é condenação e livro algum deve carregar a culpa pelos usos que eventualmente tenham feito dele.
Aliás, talvez esteja justamente aí o maior simbolismo da manhã desta quarta-feira. Livro não é problema. Livro é solução. O problema aparece quando alguém consegue olhar para um instrumento criado para transmitir conhecimento e enxergar nele apenas cifra, contrato ou oportunidade de negócio. Na Vicente de Carvalho, o livro voltou ao lugar de onde nunca deveria ter saído: a mão do estudante, a mesa do pesquisador, a curiosidade da criança, a estante onde qualquer pessoa pode encontrá-lo sem precisar saber quem o vendeu ao poder público.
E a cerimônia poderia ter terminado aí, com fotografias, agradecimentos e a satisfação natural de quem entrega alguma coisa pronta. Gisella Mello, porém, tratou de estragar o conforto da missão cumprida. Chamou novamente a atenção dos presentes e apontou para a próxima empreitada: a outra biblioteca pública municipal, instalada na Praça do Cinquentenário, na Vila Ubiratan. Também ela está, para usar expressão antiga e perfeitamente compreensível, em petição de miséria. Se a estratégia funcionar novamente, a Secretaria de Cultura pretende repetir a parceria que devolveu a Vicente de Carvalho aos leitores.
Foi nesse momento, talvez mais do que na fita cortada ou no vídeo mostrando o antes e o depois, que a cerimônia revelou o que poderá deixar como mensagem para além de suas paredes recuperadas. Uma biblioteca pronta não serviu de desculpa para esquecer a outra que continua precisando de socorro. Terminada uma tarefa, aponta-se para a seguinte.
Num tempo em que Gutenberg virou nome de operação policial justamente porque livros teriam sido desvirtuados de sua finalidade mais nobre, Dourados produziu uma pequena ironia histórica. Marçal Filho não precisou fazer discurso sobre Johannes Gutenberg nem transformar a reinauguração numa resposta aos escândalos recentes. Bastou devolver uma biblioteca às crianças. O melhor desagravo que, sem querer, acabou fazendo a Gutenberg. Simplesmente colocando o livro de volta no lugar ao qual ele sempre pertenceu.
C/Assecom-PMD
