Há uma pergunta da qual não consigo escapar há anos, principalmente quando uma eleição começa a se aproximar. Dificilmente encontro alguém que, depois do cumprimento de praxe, não queira saber: “E a política, como está?”. Às vezes nem espera a resposta e já vem a segunda: “Quem você acha que vai se eleger?”. Como se mais de meio século de jornalismo tivesse me dado, além de alguma experiência e muitos cabelos perdidos pelo caminho, acesso privilegiado à cabeça do eleitor. Não deu. Se existe uma coisa que aprendi acompanhando eleições durante esse tempo todo é justamente desconfiar de quem sabe o resultado antes da abertura das urnas.
Mas a pergunta continua chegando. No supermercado, no café, na rua, pelo telefone e, agora, pelo WhatsApp. Quem vai? Quem não vai? Fulano está eleito? Beltrano corre risco? E nesta eleição para a Assembleia Legislativa a resposta ficou ainda mais complicada porque, tirando meia dúzia de personagens que carregam nas costas décadas de mandato, estrutura política ou musculatura eleitoral suficiente para largar alguns corpos à frente, o resto virou aquilo que antigamente chamávamos, sem qualquer pretensão científica, de caminhão de japonês: todo mundo embolado e ninguém sabendo exatamente quem vai conseguir descer primeiro.
Talvez seja esta, portanto, a oportunidade de resolver dois problemas de uma vez. O primeiro é responder coletivamente à pergunta que me fazem individualmente. O segundo é tentar entender, sem bola de cristal e antes que as urnas nos desmintam, quem efetivamente está no jogo pelas 24 cadeiras da Assembleia. E para começar há alguns nomes que, por história, mandato ou circunstância política, precisam ser retirados desse caminhão antes de examinarmos o restante da carga.
Londres Machado é o primeiro deles. Aos 84 anos, o decano busca simplesmente o 14º mandato parlamentar. Sua primeira eleição aconteceu em 1970, ainda no Mato Grosso uno, e desde então gerações de políticos nasceram, cresceram, foram eleitas, derrotadas, aposentadas ou esquecidas enquanto Londres continuava encontrando uma cadeira para chamar de sua. É apontado como recordista brasileiro de legislaturas consecutivas e chega a mais uma eleição carregando uma espécie de patrimônio eleitoral que não se constrói em quatro anos, nem se mede apenas pelo número de seguidores nas redes sociais. É praticamente impossível falar em renovação da Assembleia sem olhar para Londres e perguntar: renovação de quê?
Logo depois vem “seo” Zé Teixeira, outro daqueles personagens que parecem fazer parte do mobiliário histórico da Casa. Eleito deputado estadual pela primeira vez em 1994, chega à disputa tentando renovar sucessivos mandatos construídos principalmente sobre uma base eleitoral interiorana e ligada ao agronegócio. Mudam os partidos, surgem novas estrelas, aparecem candidatos turbinados pelas redes sociais, passam governos e eleições, e lá está Zé Teixeira novamente na cédula — perdão, na urna — tentando provar que certas raízes eleitorais ainda resistem aos algoritmos.
Na mesma prateleira colocaria Zeca do PT, pelo tamanho político, pela condição de ex-governador e pela capacidade de mobilizar um eleitorado petista que conhece seu nome há décadas; Paulo Corrêa, outro veterano que conhece eleição estadual como poucos e atravessou diferentes composições políticas sem perder musculatura; e Gerson Claro, presidente da Assembleia e um dos nomes que chegam à campanha com estrutura política e desempenho nas pesquisas suficientes para serem observados de maneira diferente do pelotão.
E há, naturalmente, André Puccinelli. Depois de ser deputado estadual, federal, prefeito de Campo Grande, governador por dois mandatos, e personagem central da política sul-mato-grossense durante décadas, o italiano resolveu disputar uma cadeira de deputado estadual, de novo. Portanto, André está de volta à disputa proporcional. Retorno, ops! Melhor não explorar demasiadamente a palavra logo agora. Haverá campanha suficiente pela frente para isso.
Mas, já que comecei, quem imaginou que, com a perda do mandato e os problemas com a Justiça enfrentados por Neno Razuk, a chamada “bancada do bicho” corria risco de extinção na Assembleia pode ter se precipitado. Jamilson Name reviu os planos de disputar a Câmara Federal e resolveu tentar permanecer na Casa, enquanto seu tio Jerson Domingos está de volta às urnas depois de uma passagem pelo Tribunal de Contas do Estado. A política produz, assim, mais uma de suas ironias para a longa página do jogo do bicho em Mato Grosso do Sul: enquanto os Razuk agonizam politicamente, os Name podem ganhar sobrevida caso Jamilson e Jerson se deem bem nas urnas este ano.
E é aqui que estaciona o caminhão de japonês. Não significa que os demais sejam iguais, muito menos que não existam favoritos. Significa que há candidato demais com argumentos razoáveis para se considerar competitivo e poucas cadeiras para acomodar tanta certeza. Alguns chegam respaldados por mandato, outros por prefeituras que comandaram, bases regionais, estruturas partidárias, sobrenomes conhecidos ou pela exposição proporcionada pelas redes sociais. Há também aqueles que aparecem nas pesquisas e obrigam qualquer prognosticador minimamente prudente a manter o lápis e a borracha igualmente à mão.
Caravina, por exemplo, aparece entre os nomes bem lembrados nas sondagens espontâneas. Pedrossian Neto carrega sobrenome, mandato e uma atuação política que pretende transformar em voto. Renato Câmara possui experiência eleitoral e base consolidada na Grande Dourados. Coronel David, Pedro Kemp, Gleice Jane, Márcio Fernandes, Professor Rinaldo, Hélio Peluffo e outros chegam à largada com razões objetivas para acreditar que estarão na conversa quando a matemática começar a apertar. E haverá ainda quem hoje aparece discretamente e poderá emergir durante a campanha.
Em Dourados, um dos casos mais interessantes é Lia Nogueira. A menina pobre da Cabeceira Alegre que chegou à Assembleia rapidamente descobriu o poder de exposição proporcionado pelo mandato e passou praticamente quatro anos numa campanha permanente pela reeleição. Midiática como poucos, autoproclamou-se o “bichão do MS” e agora se apresenta também como provável herdeira de parte do eleitorado de Mara Caseiro, que deixou a disputa estadual para tentar chegar à Câmara Federal. Lia conseguiu enorme visibilidade e percorreu o Estado, mas justamente por ter construído tamanho personagem eleitoral carrega uma obrigação adicional: provar nas urnas que exposição produz voto na mesma proporção em que produz postagem.
E existe aí uma saborosa contradição política. O “bichão do MS”, depois de chegar à Assembleia com uma imagem independente e combativa, aproximou-se do governo e do grupo político comandado pelo ex-governador Reinaldo Azambuja. A parlamentar que chegou prometendo mostrar as garras acabou, aos olhos dos adversários, comportando-se muitas vezes como bichinho de estimação do poder. Nada disso significa que esteja fora do jogo — muito pelo contrário. Significa apenas que agora chegou a hora de conferir quanto vale eleitoralmente a personagem que Lia construiu durante quatro anos.

Dourados ainda espalhou outros candidatos competitivos por diferentes chapas. Gianni Nogueira tenta transformar a vice-prefeitura, a presença permanente ao lado do marido, deputado federal Rodolfo Nogueira, e a força do bolsonarismo numa cadeira estadual. Renato Câmara procura renovar o mandato apoiado numa base que há muito ultrapassou as divisas do município. Tiago Botelho tenta ocupar pela esquerda um espaço douradense que já disputou em outras eleições. E “seo” Zé Teixeira, naturalmente, continua ali, lembrando aos mais jovens que eleição não se ganha apenas com curtida, compartilhamento e vídeo de quinze segundos.
A essa altura, porém, começa a verdadeira perversidade — ou beleza, dependendo de quem termina sentado — da eleição proporcional. Não basta ter voto. É preciso estar na chapa certa, no momento certo e cercado pelas pessoas certas. O candidato pode fazer uma votação aparentemente suficiente e assistir à posse pela televisão, enquanto outro, com menos votos, entra favorecido pelo desempenho do partido ou da federação. É justamente aí que aparecem os puxadores, as escadinhas e a mais curiosa relação existente numa eleição proporcional: o companheiro de chapa de quem você precisa para somar votos é, muitas vezes, o mesmo sujeito que você gostaria de ver chegando atrás.
É por isso que aquelas fotografias de convenção, com todo mundo abraçado e sorridente, merecem ser observadas com certo espírito científico. Em algum lugar daquele abraço pode estar o cidadão que ajudará você a se eleger. Ou aquele que tomará sua cadeira.
É esse jogo que o contrapontoMS pretende escarafunchar a partir daqui. Em vez de despejar sobre o leitor centenas de nomes, vamos abrir partido por partido, federação por federação, examinando quem são os puxadores, quem parece largar dentro, quem está na beirada, quem corre por fora, quem pode servir de escadinha e, sobretudo, quem está carregando quem. Pesquisa entrará na conta, naturalmente, mas acompanhada de votação anterior, estrutura, reduto eleitoral, força da chapa e daquela variável que há décadas continua estragando as previsões dos especialistas: o eleitor.
Só depois dessa peregrinação cometeremos a imprudência maior. Perto da eleição, quando todas as gaiolas estiverem abertas e conhecermos melhor seus ocupantes, vamos tentar colocar antecipadamente 24 traseiros nas 24 cadeiras da Assembleia Legislativa.
Assim, talvez eu finalmente consiga resolver aquele problema do começo desta conversa. Da próxima vez que alguém me encontrar na rua e, antes mesmo de perguntar se estou passando bem, disparar o inevitável “e aí, quem vai se eleger?”, já terei uma resposta pronta:
Leia o contrapontoMS.
Se acertarmos, foi experiência.
Se errarmos, a culpa é do eleitor.
