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domingo, agosto 30, 2026

Fachin no Jaguapiru, numa reverência aos povos originários

Visita do presidente do STF à Reserva de Dourados ajuda a iluminar uma história quase centenária, marcada por controvérsias, mas também por pioneiros que levaram saúde e educação aos indígenas quando quase ninguém chegava até eles

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Valfrido Silva

Nasci e cresci ali. Portanto, talvez seja suspeito para escrever sobre a Missão Evangélica Caiuá. Mas suspeição, neste caso, pode ser também testemunho. Antes de aprender nos livros que havia uma “questão indígena” no Brasil, eu convivia com ela. Antes de descobrir que antropólogos, políticos, jornalistas, religiosos e ideólogos seriam capazes de travar intermináveis batalhas em nome dos índios, conheci alguns deles pelo nome. E tive o privilégio de conviver com um que o Brasil inteiro conheceria depois: Marçal de Souza, o Tupã’Y uma das mais extraordinárias lideranças indígenas que este país produziu.

Lembrei de tudo isso neste sábado, quando o presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Edson Fachin, esteve na Reserva Indígena de Dourados para inaugurar o Ponto de Inclusão Digital Indígena – Justiça, Cidadania e Segurança. Instalado na Escola Estadual Indígena Intercultural Guateka – Marçal de Souza, na Jaguapiru, o equipamento permitirá à comunidade acessar serviços públicos e judiciais, participar de audiências virtuais e buscar direitos sem precisar vencer primeiro a distância física que tantas vezes separa o cidadão do Estado. Fachin esteve acompanhado do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena.

É uma iniciativa importante. Mas a presença do presidente do STF naquele pedaço de Dourados acabou iluminando, talvez involuntariamente, uma história muito maior.

O Estado brasileiro está chegando com computadores, internet e acesso digital a um lugar onde missionários chegaram há quase um século levando aquilo que tinham: professor, médico, remédio, escola, enxada, Bíblia e disposição para ficar.

A Missão Evangélica Caiuá foi criada em 28 de agosto de 1928, inicialmente com o nome de Associação Evangélica de Catequese dos Índios. A primeira equipe partiu de São Paulo em março de 1929 para trabalhar entre os indígenas da região de Dourados. Havia nela pastor, médico, professor e agrônomo. Os documentos históricos mostram que a proposta reunia evangelização e assistência física, intelectual e social. Não é preciso esconder a primeira palavra para reconhecer a importância das demais. Aliás, a coincidência é quase um presente para este texto: a Missão completou 98 anos na sexta-feira, véspera da visita de Fachin.

É impossível contar essa trajetória sem enfrentar a controvérsia. A Missão Caiuá nasceu para evangelizar indígenas. Houve catequese, interferência religiosa e mudança de hábitos culturais. Pesquisadores e lideranças indígenas fazem críticas legítimas a esse processo. Edna Souza, filha de Marçal, por exemplo, reconhece a importância do hospital e da escola, mas entende que a atuação missionária também produziu aculturação. A própria história da instituição registra orfanato, ensino religioso e formação de evangelistas indígenas.

Só que história não se escreve arrancando metade da página. Quando aquela primeira equipe chegou à região, praticamente inexistia a rede de assistência que hoje consideramos obrigação elementar do poder público. Décadas depois, ainda eram a escola e o hospital da Missão algumas das raríssimas referências de educação e saúde disponíveis à população indígena local. Há anos a própria Igreja Presbiteriana apresenta o Hospital Indígena Porta da Esperança como referência nacional em saúde indígena e mantém na área escola, instituto bíblico e estruturas de atendimento.

E aí entram dois personagens que conheci não pelos livros, mas pela vida daquela comunidade: reverendo Orlando Andrade e dona Loide Bonfim Andrade.

Eles não fundaram a Missão, como às vezes a memória douradense simplifica. A instituição nasceu do trabalho iniciado pelo reverendo norte-americano Albert Maxwell e outros religiosos. Orlando e Loide pertencem à geração que assumiu aquela obra e ajudou a transformá-la numa instituição duradoura. Dona Loide chegou à Missão em 1938. Havia sido professora, depois estudaria enfermagem e, já nos anos 1970, ainda cursaria Direito. Quando Maxwell deixou o Brasil por problemas de saúde, Orlando assumiu a direção da Missão e Loide tornou-se vice-diretora, administradora e chefe do hospital.

É preciso imaginar o cenário para compreender o tamanho disso. Em 1943, segundo registros históricos, havia na sede da Missão seis missionários, um ambulatório junto à casa do médico Nelson de Araújo, um orfanato, uma horta e um prédio de madeira que servia simultaneamente para cultos e aulas. Vinte anos depois, em 1963, seria inaugurado o Hospital e Maternidade Porta da Esperança, então com 38 leitos, resultado de anos de mobilização, doações e trabalho missionário.

Pode-se discutir — e devemos discutir — o impacto religioso e cultural desse trabalho. Mas é difícil discutir a existência dele. E talvez nenhuma biografia expresse melhor as contradições e a grandeza dessa história do que justamente a de Marçal de Souza.

Marçal nasceu em 1920 e chegou ainda criança à região da Missão. Órfão aos sete anos, foi acolhido pela instituição. Cresceu naquele ambiente, trabalhou como professor, intérprete e missionário presbiteriano. Na década de 1940, aproximou-se de estudiosos como Egon Schaden e Darcy Ribeiro, servindo como intérprete da língua e da cultura Guarani. Darcy, que certamente não pode ser acusado de desconhecer a questão indígena, definiria Marçal como a mais eloquente voz em defesa da causa indígena que conhecera.

Depois, Tupã’Y construiria sua própria caminhada. Contestaria governos, fazendeiros, estruturas de poder e também aspectos do processo de integração imposto aos povos indígenas. Sua voz ultrapassaria Dourados e Mato Grosso do Sul. Em 1980, receberia o papa João Paulo II em Manaus e faria diante dele uma denúncia contundente da situação dos povos originários. Três anos depois, seria assassinado.

Por isso existe uma beleza histórica difícil de ignorar na cerimônia deste sábado. Fachin inaugurou uma porta do Judiciário dentro de uma escola que leva o nome de um menino indígena acolhido pela Missão Caiuá quase um século atrás.

Não significa que a Missão tenha produzido Marçal. Seria uma apropriação tão simplista quanto apagá-la de sua formação. Marçal pertence ao seu povo, à própria história e às escolhas que fez. Mas também não se pode compreender completamente sua trajetória apagando o lugar onde foi acolhido, estudou, trabalhou e começou a formar parte das ferramentas que depois utilizaria para enfrentar o próprio mundo que o cercava.

Talvez seja essa complexidade que esteja faltando quando discutimos hoje a atuação histórica das missões religiosas entre os indígenas.

É confortável julgar 1929 com o vocabulário de 2026. Muito mais difícil é voltar mentalmente àquele sertão, perguntar onde estavam hospitais, escolas, médicos, enfermeiros, professores e autoridades públicas e descobrir quem efetivamente permanecia ali quando os discursos terminavam. Isso não absolve erros. Contextualiza a história.

E contextualizar não significa transformar Orlando e Loide em santos, nem a Missão Caiuá numa instituição acima de qualquer crítica. Significa apenas reconhecer que pessoas podem carregar convicções religiosas que hoje provocam controvérsia e, simultaneamente, dedicar uma vida inteira a cuidar de seres humanos abandonados pelo Estado. Uma coisa não apaga automaticamente a outra.

Quase um século depois, muita coisa mudou. A Reserva Indígena de Dourados abriga hoje milhares de pessoas dos povos Guarani-Kaiowá, Guarani-Ñandeva e Terena. A população cresceu enormemente enquanto o território permaneceu comprimido, acumulando problemas de água, segurança, infraestrutura, saúde e violência. Segundo o Censo de 2022 citado em levantamento recente, eram 13.673 moradores, 98,54% deles indígenas.

Neste sábado, o presidente do Supremo esteve lá dizendo que o Estado precisa incluir em vez de excluir. Está certo. E tomara que o computador inaugurado funcione. Que a internet não caia. Que os serviços cheguem. Que mulheres ameaçadas consigam pedir socorro. Que indígenas possam acessar a Justiça sem peregrinar pela cidade. E, sobretudo, que a presença do Estado não termine quando as autoridades entrarem nos carros oficiais e deixarem a aldeia. Porque essa talvez seja a principal lição deixada pelos pioneiros da velha Missão Caiuá, concordemos ou não com tudo aquilo em que acreditavam.

Chegar é importante. Difícil é ficar. E Orlando, Loide e tantos outros ficaram. Por quase um século, a Missão Caiuá também ficou.

Talvez por isso, quando o presidente do Supremo chega à Jaguapiru trazendo uma nova porta de acesso à cidadania, seja justo lembrar daqueles que chegaram muito antes, quando por ali ainda não havia computador, internet, ministro, câmera de televisão ou solenidade.

Havia índios. E eles já estavam lá.

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