A Agência Nacional de Aviação Civil marcou para 17 de dezembro o leilão que poderá entregar à iniciativa privada a administração do Aeroporto Regional Francisco de Matos Pereira. É uma notícia importante para Dourados, mas o anúncio burocrático conta apenas parte da história. A futura concessionária não receberá somente uma pista, um contrato e a obrigação de administrar um aeroporto regional. Encontrará voos comerciais em operação, demanda comprovada e um novo terminal de passageiros em construção, projetado para figurar entre os mais modernos aeroportos regionais do País.
Nada disso aconteceu por geração espontânea. A concessão ganhou consistência porque o prefeito Marçal Filho e o governador Eduardo Riedel fizeram o poder público começar a acompanhar o ritmo de uma cidade cuja economia avançou durante anos enquanto seu aeroporto permanecia parado.
Dourados ficou quase quatro anos fora da aviação comercial. O aeroporto fechou em maio de 2021 para obras e acumulou atrasos, exigências técnicas, problemas de homologação e uma sucessão de explicações que não colocava avião algum no ar. A situação chegou ao ponto de o Ministério Público Federal abrir investigação, no início de 2025, para apurar a demora na conclusão das intervenções e na retomada dos voos. Enquanto o agronegócio crescia, novas empresas chegavam, a rede de serviços se expandia e a Grande Dourados consolidava uma população superior a 1 milhão de habitantes, o segundo maior município de Mato Grosso do Sul continuava dependendo do aeroporto de Campo Grande.
Foi essa lógica que começou a ser invertida na atual gestão. Marçal assumiu a Prefeitura com o desafio imediato de resolver pendências, recuperar a classificação necessária para as operações comerciais e convencer uma companhia aérea de que Dourados não era apenas uma promessa de mercado. Em setembro de 2025, a Latam iniciou a ligação com Guarulhos. Um ano depois, já com voos diários, o aeroporto havia registrado 65.929 embarques e desembarques — demonstração concreta de que faltava estrutura pública, não passageiro.
Resolvida a primeira parte do problema, Marçal autorizou o Ministério dos Portos e Aeroportos a incluir o Francisco de Matos Pereira no pacote federal de concessões. A decisão retira da Prefeitura uma responsabilidade que consome recursos municipais e exige conhecimento técnico especializado. Em 2025, o município desembolsou R$ 3,9 milhões apenas com o contrato da Infraero, além dos gastos com servidores e outras despesas operacionais. Com a ampliação do número de voos, a conta projetada supera R$ 6 milhões por ano.
Esse dinheiro será, a partir daí, aplicado na saúde, na educação, na infraestrutura urbana e em tantas outras áreas cuja administração pertence efetivamente ao município. Aeroporto exige operação especializada, capacidade de investimento e articulação permanente com companhias aéreas. Não há razão para a Prefeitura continuar pagando essa fatura se uma concessionária pode assumir o serviço, investir na estrutura e explorar comercialmente uma operação cuja viabilidade já foi demonstrada pelos passageiros.
Mas a assinatura de Marçal, isoladamente, não explicaria a atratividade alcançada pelo aeroporto. A outra parte dessa construção está no alinhamento com Eduardo Riedel. Por meio da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística, o Governo do Estado assumiu a execução do novo terminal de passageiros, numa parceria financiada majoritariamente pelo Fundo Nacional de Aviação Civil e complementada pelo Estado.
O projeto prevê 2.655 metros quadrados para o novo terminal de embarque e desembarque, além de Central de Utilidades, depósito de resíduos, estação de telecomunicação aeronáutica e seção de combate a incêndio. Riedel também determinou a compra dos equipamentos e do mobiliário necessários ao funcionamento da estrutura, incluindo aparelhos de raio-X, esteiras de bagagem e instalações das áreas de espera e embarque.
A concessionária que assumir o aeroporto não precisará começar procurando paredes, equipamentos e condições mínimas de atendimento. Encontrará uma estrutura pública modernizada e uma operação comercial já testada. Em vez de entregar um problema à iniciativa privada, município, Estado e União estão preparando um ativo capaz de despertar interesse econômico.
O edital da Anac abrange o Aeroporto Internacional de Brasília e dez terminais regionais. Além de Dourados, fazem parte do pacote Bonito e Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul; Juína, Cáceres e Tangará da Serra, em Mato Grosso; Alto Paraíso e São Miguel do Araguaia, em Goiás; Ponta Grossa, no Paraná; e Barreiras, na Bahia. O vencedor terá de investir cerca de R$ 660 milhões no conjunto desses aeroportos regionais, além dos investimentos específicos previstos para Brasília.
A concessão, contudo, não colocará novos aviões no céu automaticamente. Companhias aéreas escolhem rotas de acordo com demanda, custos e estratégia comercial. Por isso, Marçal quer que a entrega do novo terminal seja acompanhada pela entrada de outras empresas e não apenas celebrada com discursos, placa inaugural e corte de fita. A Prefeitura conversa com Gol, que já operou em Dourados, e com a Azul, buscando ampliar destinos e reduzir a dependência da única ligação atualmente oferecida pela Latam com Guarulhos.
Essa deve ser a verdadeira medida do sucesso. Um terminal moderno sem companhias seria apenas uma bela sala de espera. Uma concessão sem novos voos serviria para aliviar o caixa municipal, mas ainda não realizaria todo o potencial econômico do aeroporto. A estrutura precisa produzir concorrência, destinos, horários e tarifas capazes de atender uma região que já provou ter passageiros.
Durante anos, repetiu-se em Dourados que o poder público não conseguia acompanhar a velocidade da iniciativa privada. No aeroporto, essa distância ganhou sua representação mais constrangedora: uma economia regional em expansão e uma cidade sem voos comerciais por quase quatro anos.
Marçal, ao destravar a operação e autorizar a concessão, e Riedel, ao conduzir a construção do novo terminal, começam a inverter essa lógica. Com o leilão de dezembro concluído, novas companhias devem entrar em em operação, a iniciativa privada assumirá um aeroporto que o poder público finalmente preparou para o futuro.
