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sexta-feira, outubro 16, 2026

Nantes promete padrão Einstein ao SUS e põe o detector de mentiras em risco

Depois de Lula vender seu Brasil na Globo, chegou a vez de o adversário explicar como pretende transportar a excelência hospitalar do discurso para a fila do posto

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Valfrido Silva*

O candidato Flávio Nantes Bolsonaro vem apresentando uma proposta que deveria vir acompanhada de receita, posologia e identificação das contraindicações: levar o “padrão Einstein” ao Sistema Único de Saúde. A promessa é bonita, sonora, dessas que atravessam o horário eleitoral sem precisar enfrentar a recepcionista do posto. O problema começa quando o eleitor desliga a televisão e tenta marcar uma consulta. Entre o hospital da propaganda e o atendimento disponível existe uma distância que nem sempre se percorre de ambulância. Às vezes, passa-se uma eleição inteira esperando a autorização.

A Justiça Eleitoral poderia estudar, para as próximas campanhas, a instalação de um detector de mentiras ao lado dos microfones. Um aparelho imaginário, evidentemente, mas com utilidade pública bastante concreta. Além do árbitro de vídeo, o famoso VAR, teríamos um fiscal das maravilhas anunciadas em palanques, estúdios e nos famigerados quebra-queixos, quando os repórteres cercam o candidato e a resposta precisa chegar antes da assessoria. Ali, ainda se pode atribuir uma barbaridade ao improviso. No programa gravado, com roteiro, ensaio e oportunidade de repetir a cena, a promessa já sai revisada. Os produtores capricham tanto na maquiagem que o sujeito promete o paraíso hospitalar e nem fica vermelho.

O presidente Lula saiu-se bem na entrevista conduzida pela experiente Renata Lo Prete, na noite desta quinta-feira, depois do Jornal Nacional. Vendeu seu Brasil nota dez, aparou perguntas e defendeu a capacidade de construir sustentação no Congresso. Bom vendedor de sua própria administração, procurou apresentar soluções onde o eleitor costuma enxergar dificuldades. A desenvoltura merece registro; o produto continua sujeito à conferência. O detector teria de funcionar para os dois lados, sem reconhecer partido, idade ou número de mandatos. A entrevista de Nantes está prevista para esta sexta-feira, também com Lo Prete. Seria uma excelente oportunidade para colocar o “padrão Einstein” na mesa de exames.

Para os comuns mortais, convém explicar o que está sendo oferecido. O Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, é uma referência de atendimento de alta complexidade, qualidade e segurança assistencial. Seu padrão envolve equipes qualificadas, organização dos serviços, tecnologia, protocolos e acompanhamento dos resultados. A instituição recebeu, em 1999, a acreditação internacional da Joint Commission, voltada à qualidade e à segurança hospitalar. Traduzindo: excelência não é apenas aparelho moderno aparecendo no comercial. É fazer o serviço funcionar, com gente preparada e processos que protejam o paciente. Dá bastante mais trabalho do que trocar a placa da fachada.

Agora, coloquemos o tamanho da promessa diante do tamanho da tarefa. Segundo o Ministério da Saúde, o SUS realizou 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025. Somente no primeiro semestre de 2026, foram aproximadamente 7,55 milhões. São procedimentos programados, que não se confundem com toda a assistência prestada pelo sistema. O SUS também vacina, atende emergências, acompanha doenças crônicas, realiza transplantes e mantém serviços que alcançam inclusive quem possui plano privado. Comparar uma instituição de excelência a uma rede nacional exige explicar como suas boas práticas serão ampliadas, financiadas e sustentadas. O Brasil não cabe inteiro na sala de espera do Morumbi.

Há, ainda, um detalhe que o comercial deveria contar: o Einstein já atua no sistema público. A própria instituição informa que administra hospitais municipais, entre eles o M’Boi Mirim e o Vila Santa Catarina, em São Paulo, e desenvolve projetos de apoio ao SUS. Portanto, aproveitar sua experiência é perfeitamente discutível e desejável. Não se trata de descobrir uma porta secreta que os demais governantes desconheciam. Trata-se de explicar como ampliar resultados numa rede imensa, com desigualdades regionais, responsabilidades compartilhadas e necessidades permanentes de financiamento. O nome do hospital ajuda a anunciar; sozinho, não contrata uma equipe.

Nantes vinculou a promessa à escolha do médico Cláudio Lottenberg para comandar a Saúde, caso vença. Ótimo: apresente o método, as metas, o custo, a fonte dos recursos e o prazo. Quanto tempo para a consulta? Quantos profissionais? Quais serviços primeiro? Como combinar a execução com estados e municípios? Desejar atendimento de excelência para todos é uma obrigação política. Anunciá-lo sem tornar verificável o caminho deixa o eleitor com uma marca famosa na cabeça e a mesma senha na mão.

Talvez o nosso detector nem precisasse apitar diante de cada promessa. Bastaria interromper a gravação e perguntar: “Como?”. Se viesse outra frase de efeito, repetiria: “Com quanto?”. Na terceira tentativa, exigiria uma data. Seria um avanço extraordinário na medicina eleitoral: diagnosticar a enrolação antes da posse. Porque, no horário gratuito, o padrão pode ser Einstein. Quem continua pagando pela espera é o paciente.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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