Valfrido Silva*
A atriz Regina Duarte entrou para a história da propaganda eleitoral brasileira quando, em 2002, apareceu na televisão dizendo que estava com medo. Não era o medo de uma personagem de novela, embora viesse da mulher que o país inteiro conhecia como a Namoradinha do Brasil. Era o receio declarado de uma possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre José Serra. Quase um quarto de século depois, com Lula novamente disputando a Presidência, agora contra Flávio Nantes Bolsonaro, o mundo artístico volta a ocupar os palanques. Mudaram os candidatos, as tecnologias, os meios de comunicação e parte do elenco. Permaneceu a velha tentativa de transformar a popularidade de quem aparece na televisão, canta nos estádios ou emociona nas telas em argumento para convencer o eleitor. A diferença é que, naquele tempo, uma única atriz conseguiu produzir uma repercussão nacional que hoje dezenas de celebridades disputam nas redes sociais.
Regina Duarte pagou um preço de imagem por aquele depoimento. A frase passou a acompanhá-la em entrevistas, reportagens e discussões políticas, embora jamais tenha apagado sua extensa trajetória artística. Mais tarde, sua passagem pela Secretaria Especial da Cultura no governo Jair Bolsonaro acrescentaria outro capítulo à associação entre sua carreira e suas posições políticas. O episódio de 2002 permanece emblemático não porque tenha inaugurado o apoio de artistas a candidatos, prática muito anterior, mas porque demonstrou a força de uma personalidade da televisão entrando diretamente na disputa presidencial. A atriz não estava representando uma personagem. Falava em nome próprio, assumindo os riscos de trocar a proteção da ficção pela exposição do palanque.
A reportagem publicada nesta quarta-feira pela Folha de S.Paulo mostra que o elenco de 2026 é numeroso e variado. Lula reúne manifestações de apoio de Chico Buarque, Caetano Veloso, Marieta Severo, Glória Pires, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Letícia Colin e outros nomes da televisão e da música. Nantes aparece associado a artistas e personalidades como Amado Batista, Gusttavo Lima, Maurício Mattar, Mario Gomes e Ratinho. Não se trata de dois grupos artisticamente homogêneos, muito menos de plateias que possam ser distribuídas automaticamente entre as urnas 13 e 22. Cada nome carrega uma história, um público e uma maneira própria de se relacionar com a política. É justamente nessa diferença que a simples relação de famosos começa a ganhar algum interesse jornalístico.
Chico Buarque, por exemplo, não precisa subir a um palanque para que sua obra seja lembrada nas discussões sobre autoritarismo, liberdade e desigualdade social. Sua produção musical e teatral atravessou a ditadura militar e continuou dialogando com a sociedade brasileira depois da redemocratização. Caetano Veloso também construiu uma trajetória em que experimentação artística, comportamento e debate público frequentemente se encontraram. Gilberto Gil acrescenta a essa história a experiência de quem, além de músico, exerceu o Ministério da Cultura. Os três pertencem a uma geração cuja relação com a política antecede em muitas décadas a atual disputa presidencial. Isso não significa que suas opiniões sejam obrigatoriamente corretas, mas ajuda a compreender por que seus pronunciamentos despertam interesse para além dos fãs de suas canções. A poesia deles já fazia parte da conversa nacional muito antes de qualquer campanha pedir um vídeo de apoio.
Na televisão, a comparação também exige alguma memória. Sônia Braga atravessou fronteiras com personagens que ajudaram a projetar a dramaturgia brasileira internacionalmente, especialmente Gabriela, de Jorge Amado. Sua presença em uma manifestação política tem um significado cultural diferente daquele de uma atriz que está atualmente no horário nobre. Letícia Colin, protagonista de Quem Ama Cuida, representa uma geração que mantém contato com o público por novelas, entrevistas e plataformas digitais. Renata Sorrah, Glória Pires e Taís Araújo, por sua vez, carregam trajetórias e públicos próprios. Colocar todos esses nomes numa fotografia de manifestação produz uma imagem de mobilização artística, mas não autoriza concluir que seus admiradores compartilhem as mesmas preferências eleitorais. O espectador pode amar uma personagem e discordar completamente da atriz quando ela abandona o roteiro.
Do outro lado, a presença de Ratinho, Amado Batista e Gusttavo Lima ajuda a compreender outra forma de influência. Ratinho construiu sua carreira numa televisão popular, marcada pelo entretenimento de auditório, pela comunicação direta e por um estilo frequentemente controverso. Amado Batista tem uma história de décadas de identificação com públicos que nem sempre recebem a mesma atenção dos grandes centros culturais. Gusttavo Lima representa a dimensão empresarial e espetacular do sertanejo contemporâneo, com apresentações de grande alcance e forte presença digital. Seria um equívoco desprezar essas audiências apenas porque seus ídolos escolheram determinado candidato, assim como seria ingenuidade imaginar que cada ingresso vendido ou ponto de audiência corresponda a um voto. Popularidade é uma coisa; adesão política é outra. Entre o refrão cantado em coro e a escolha feita diante da urna existe um eleitor com opiniões próprias.
A movimentação dos sertanejos também revela como as campanhas procuram estabelecer pontes com segmentos específicos da sociedade. Nantes esteve em Goiás para gravar material com artistas do gênero, enquanto Lula recebeu manifestações públicas de músicos ligados a diferentes gerações e estilos. Há estratégias distintas de aproximação com o eleitorado, mas nenhuma delas oferece uma fórmula segura de conversão eleitoral. O fã pode aplaudir o cantor, comprar seus discos, acompanhar suas entrevistas e, ainda assim, votar no adversário do candidato que ele apoia. O mesmo vale para quem admira Chico Buarque, acompanha as novelas de Sônia Braga ou se emociona com uma apresentação de Caetano. A liberdade de gostar não obriga ninguém a obedecer.
Talvez o aspecto mais revelador dessa história esteja no risco assumido por quem decide tornar pública sua preferência. A celebridade deixa de ser observada apenas por sua atividade profissional e passa a ser cobrada também por suas escolhas cívicas. Ganha aplausos de uns, críticas de outros e, em determinados ambientes, pode acabar reduzida à posição política que assumiu. Regina Duarte conhece essa experiência desde 2002. Outros artistas, de diferentes tendências, também enfrentam reações semelhantes. A discordância faz parte da democracia; a tentativa de apagar uma carreira inteira por causa de uma declaração eleitoral já pertence a outro terreno, onde a intolerância costuma se apresentar fantasiada de convicção.
No fim das contas, o que a eleição de 2026 oferece é mais uma demonstração da antiga relação entre fama e poder. O artista empresta ao candidato uma parcela de sua visibilidade, enquanto a campanha oferece ao artista um palco diferente daquele em que construiu sua carreira. Ambos podem sair ganhando ou perdendo em imagem. O que não existe é transferência automática de consciência. Uma canção pode atravessar gerações, uma novela pode entrar para a memória afetiva de milhões de brasileiros e um apresentador pode passar décadas frequentando a sala de estar das famílias. Nada disso transforma o público em propriedade política de quem aparece na tela.
Regina Duarte tinha medo em 2002. Chico, Caetano, Gil, Sônia Braga, Ratinho e tantos outros têm suas convicções em 2026. O eleitor, felizmente, não precisa herdar nenhuma delas. Pode admirar a obra e questionar o autor, gostar da música e discordar do cantor, acompanhar o programa e rejeitar a opinião do apresentador. No espetáculo eleitoral, cada celebridade pode escolher seu papel, sua fala e até o lado do palco. Mas, quando as cortinas se fecham e chega a hora do voto, o cidadão continua sendo o único protagonista de uma cena em que não há diretor, ponto eletrônico nem aplauso obrigatório.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
