Anita Tetslaff*
O Brasil que emerge da narrativa oficial costuma ser um país de consensos fáceis e de um povo que assiste à história de camarote. Essa imagem, porém, não se sustenta diante dos registros históricos. Desde a chegada das caravelas em 1500, a trajetória das populações que não pertenciam às oligarquias foi marcada por enfrentamento, organização e resistência. O mito da passividade não é apenas uma imprecisão histórica: é uma ferramenta política que serve à manutenção de privilégios. Desmontá-lo é condição para compreender o Brasil real, das lutas, que festeja e se recusa a desaparecer.
A resistência começa antes mesmo de haver um “Brasil” formal. Povos originários enfrentaram a colonização com estratégias militares e diplomáticas próprias, e as populações africanas sequestradas e escravizadas jamais aceitaram a servidão de forma passiva; um exemplo disso são os quilombos, as revoltas e as sabotagens que atravessaram os séculos. A independência, celebrada oficialmente em 7 de setembro de 1822, não se resume ao gesto de D. Pedro às margens do Ipiranga. Na Bahia, a guerra pela expulsão dos portugueses se estendeu até 2 de julho de 1823, e nela teve papel central Maria Felipa de Oliveira, mulher negra, marisqueira e liderança quilombola em Itaparica. Relatos históricos apontam que ela liderou um grupo de mulheres que, com táticas de guerrilha e saberes locais, sabotou embarcações e enfrentou tropas portuguesas. A narrativa que reduz a independência a um grito oficial apaga essa luta e outras tantas que a tornaram possível.
O mesmo apagamento recai sobre os grandes conflitos sertanejos. A Guerra de Canudos (1896-1897) terminou com o arraial destruído e um saldo estimado entre 15 mil e 30 mil mortos, a maioria civis, entre ex-escravizados, indígenas e pequenos lavradores que resistiram à pressão do Estado e dos coronéis. Pouco depois, a Guerra do Contestado (1912-1916), no planalto entre Santa Catarina e Paraná, mobilizou metade do efetivo do Exército brasileiro e deixou mais de 10 mil mortos, em sua maioria camponeses pobres que reagiam ao deslocamento forçado e à concentração de terras. Esses episódios não foram surtos de violência isolada: foram expressões de um Brasil que, quando não encontrou canais institucionais de participação, lutou com os meios que tinha.
A luta pela democracia também desmente a fábula da docilidade. Durante a ditadura militar (1964-1985), o movimento estudantil consolidou-se como um dos principais núcleos de oposição ao regime, apesar da repressão que fechou a UNE, invadiu universidades e prendeu militantes. Em 26 de junho de 1968, a Passeata dos Cem Mil levou às ruas do Rio de Janeiro a maior manifestação popular desde o golpe, em repúdio à violência do Estado. O regime responderia com o AI-5 e com anos de chumbo, mas a resistência não cessou, reorganizou-se em sindicatos, na igreja, na imprensa alternativa e no movimento social que, mais tarde, empurrariam o país de volta à democracia.
Nas últimas décadas, essa energia se diversificou e se capilarizou. O movimento negro e o movimento de mulheres negras transformaram a pauta racial em questão central da democracia brasileira, denunciando a violência do Estado e pautando políticas de reparação. A luta feminista produziu conquistas legislativas concretas, como a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), resultado direto da pressão organizada do movimento de mulheres. O movimento LGBTQIA+ obteve, em 2011, o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal, equiparando direitos civis negados por décadas. O movimento indígena, por sua vez, segue resistindo à invasão de territórios e à tentativa de apagamento de suas culturas: o Censo de 2022 registrou 1,7 milhão de indígenas no país, um aumento de 88% em relação a 2010, impulsionado pela autodeclaração e pela luta política por reconhecimento. Comunidades quilombolas continuam enfrentando a morosidade na titulação de suas terras e a pressão de empreendimentos externos, mas permanecem organizadas na defesa de seus territórios e modos de vida.
Em junho de 2013, essa capacidade de mobilização voltou a surpreender o país. Em um único dia, mais de 1,25 milhão de pessoas foram às ruas em mais de 100 cidades brasileiras, no maior ciclo de protestos desde as manifestações pelo impeachment de Collor, em 1992. As pautas eram difusas, desde o preço das passagens do transporte público à qualidade dos serviços, mas o recado era inequívoco: a sociedade civil não havia se acomodado. Movimentos estudantis, coletivos periféricos, organizações ambientais e ativistas digitais seguiram-se multiplicando, ainda que muitas vezes fora do radar da grande imprensa.
A tese da passividade brasileira é confortável para quem sempre se beneficiou da apatia alheia. Se o povo “aceita tudo”, não é preciso prestar contas, ampliar direitos ou dividir poder. Mas a história desmente essa conveniência. O Brasil das festas populares, do Carnaval, do São João, do Círio de Nazaré, é o mesmo Brasil que ocupa as ruas quando a democracia está em risco. O Brasil institucional, que se imagina europeu e teme o povo, não é o país inteiro. O país real é aquele que, há mais de cinco séculos, luta para existir e para que o amanhã seja, de fato, outro dia. E é essa luta, e não a suposta docilidade, que mantém aberta a possibilidade de uma democracia em que caibam todos os Brasis.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
