Quem viveu a emoção da Copa do Mundo de 1994 conhece a força desse grito. Galvão Bueno eternizou a celebração do tetracampeonato brasileiro nos Estados Unidos, numa transmissão que entrou para a memória afetiva do país. Trinta e dois anos depois, o bordão atravessa os gramados, veste outra camisa e desembarca no terreno da política. Luiz Inácio Lula da Silva está reeleito presidente do Brasil para um quarto mandato. Aos 80 anos, o pernambucano que conheceu o trabalho duro antes de conhecer os salões do poder acaba de protagonizar mais uma virada histórica.
A história de Lula não cabe numa fotografia oficial. Nascido em Garanhuns, no agreste pernambucano, migrou ainda criança com a família para São Paulo. Trabalhou como metalúrgico, tornou-se dirigente sindical e ganhou projeção nacional nas grandes mobilizações operárias do ABC paulista. Antes de chegar à Presidência, enfrentou três derrotas eleitorais consecutivas. Persistiu, disputou novamente e venceu em 2002.
Governou o país por dois mandatos, entre 2003 e 2010. Depois, enfrentou a tempestade política e judicial que culminou em sua prisão e no afastamento das disputas eleitorais. As condenações da Lava Jato foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, e Lula recuperou os direitos políticos. Em 2022, derrotou Jair Bolsonaro e voltou ao Planalto em 2023. Agora, vence novamente e conquista um quarto mandato presidencial, consolidando uma trajetória sem paralelo na história política brasileira recente.
Há quem o admire pela capacidade de mobilizar as camadas populares e pela associação de seus governos a políticas sociais. Há quem o conteste por suas escolhas políticas, por seu partido e pelos episódios controversos que marcaram sua trajetória. Mas a dimensão histórica de Lula está justamente em sua capacidade de permanecer no centro da vida nacional por décadas, atravessar crises e voltar às urnas com força suficiente para vencer.
Eis o Nove Dedos. O apelido, empregado tantas vezes como provocação por causa da perda de um dedo da mão esquerda num acidente de trabalho, acabou incorporado à narrativa pública do personagem. A ironia é daquelas que a história oferece de bandeja: o que alguns tentaram transformar em insulto também recorda a origem operária do homem que chegou à Presidência.
O Brasil, convenhamos, já produziu muita gente com dez dedos e poucas ideias. Lula chegou ao Planalto com nove e uma capacidade política que seus adversários, ao longo de décadas, não conseguiram neutralizar. A democracia não exige a contagem de falanges: exige a contagem dos votos.
E é aí que entra Nantes, o apelido que o ContrapontoMS adotou para Flávio Bolsonaro. Na campanha, a provocação sobre os nove dedos de Lula virou assunto e acabou rendendo mais um capítulo da disputa. Como registramos em A derrapada fatal de Nantes nos nove dedos de Lula, transformar uma característica física do adversário em munição política pode produzir o efeito contrário ao pretendido. O eleitor está interessado em muito mais do que uma provocação de debate: quer saber quem governará o país e em que direção.
A campanha teve frases de efeito, embates e tentativas de converter a disputa eleitoral em espetáculo. Mas a decisão final não coube aos marqueteiros, aos comentaristas nem aos estrategistas de ocasião. Coube ao eleitor brasileiro. E o resultado está dado: Lula venceu Flávio Bolsonaro e seguirá na Presidência da República por mais quatro anos.
A vitória também representa uma derrota para o projeto de continuidade familiar que pretendia prolongar o protagonismo de Jair Bolsonaro por meio da candidatura do filho. A Presidência não é patrimônio de família, não se transmite por escritura e não acompanha sobrenome como título de nobreza. Em uma democracia, a sucessão política depende do voto popular — e o eleitor tem sempre a palavra final.
Nantes entrou na disputa carregando o peso de um nome conhecido, a herança política do pai e a expectativa de quem apostava na continuidade do bolsonarismo no comando do país. Sai derrotado. O resultado mostra que o capital político herdado não substitui a necessidade de conquistar a confiança dos eleitores. Na política, como no futebol, camisa conhecida não garante vitória.
E Lula? O velho Lula, como o chamam os que acompanham sua longa caminhada, chega ao quarto mandato com uma biografia que atravessou gerações. Foi o operário que se tornou líder sindical, o candidato que perdeu antes de ganhar, o presidente que deixou o cargo depois de dois mandatos, o político que enfrentou a prisão e voltou às urnas, o adversário que derrotou Jair Bolsonaro e, agora, o presidente reeleito que venceu novamente seus concorrentes.
É uma trajetória feita de persistência, habilidade política, alianças, conflitos e reviravoltas. Nada disso transforma Lula em personagem acima de críticas ou da história. Mas tampouco permite ignorar o significado de sua vitória. Aos 80 anos, ele demonstrou novamente que continua a mobilizar uma parcela decisiva do eleitorado brasileiro e que sua presença política não pode ser explicada apenas pelos desejos de seus admiradores ou pela rejeição de seus adversários.
O quarto mandato abre um novo capítulo. Lula conhece os corredores do poder, as negociações do Congresso e as expectativas de milhões de brasileiros que depositaram nele seus votos. A eleição também confirma que o país continua plural, atravessado por diferenças profundas e por projetos políticos que disputam seu futuro. A vitória de um candidato não apaga a existência dos que votaram no outro. Mas é a escolha das urnas que determina quem governará.
Hoje é dia de registrar a dimensão do acontecimento. A história de um homem que saiu do agreste pernambucano, passou pelo chão de fábrica, chegou ao Palácio do Planalto, enfrentou quedas e voltou a conquistar a Presidência pela quarta vez merece ser contada com a força de um grande momento nacional.
Nantes terá de reorganizar seus planos e avaliar a campanha. Lula, por sua vez, prepara-se para mais um mandato. E o Brasil segue adiante, com a democracia decidindo o destino da faixa presidencial pelo voto.
O cronista, que gosta de misturar política, futebol e uma dose generosa de ironia, não poderia encerrar de outra maneira. Em 1994, o grito de Galvão anunciou o tetra da Seleção Brasileira. Em 2026, a política brasileira empresta a mesma exclamação para celebrar a quarta eleição presidencial vencida por Lula.
Desta vez, não há projeção a esperar nem placar a conferir. O resultado está posto, o presidente está reeleito e o bordão está liberado.
Que se abram os alfarrábios, que se prepare o brinde e que Nantes nos perdoe a irreverência: a história acaba de oferecer ao ContrapontoMS um título que praticamente se escreveu sozinho.
É TETRA! É TETRA! É TETRA!
Viva a democracia brasileira! Viva o Brasil!
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
