12.5 C
Dourados
terça-feira, maio 12, 2026

Bolsonaro tenta conter crise com migalhas do marketing de guerra

Pressionado pelo mega-aumento da gasolina, presidente faz jogada de imagem ao recepcionar resgatados da Ucrânia

- Publicidade -

Efeitos da guerra na Ucrânia tocaram o solo brasileiro num intervalo de poucas horas na quinta-feira (10). No meio da manhã, a Petrobras anunciou um mega-aumento no preço dos combustíveis, deflagrado pela disparada do petróleo no mercado internacional. Logo depois, o voo que resgatou brasileiros e estrangeiros que fugiam do conflito pousou em Brasília.

Atingido em cheio pelas repercussões do aumento da gasolina e do diesel, Jair Bolsonaro avisou preventivamente que não tinha o que fazer. “Eu não decido nada, não“, disse a apoiadores, no início do dia. Mais tarde, o presidente se revestiu de autoridade para receber as 68 pessoas que chegavam ao país num avião da FAB.

A reação pública de Bolsonaro aos dois casos mostra como ele costuma lidar com o desequilíbrio da balança política em momentos de crise.

Refém de posições erráticas diante do conflito ucraniano e pressionado por suas consequências econômicas, o presidente tenta catar migalhas do marketing da guerra. Bolsonaro levou oito ministros, a primeira-dama e aliados políticos até a Base Aérea de Brasília.

Embora a operação de retirada carregue um caráter humanitário e envolva uma complexidade logística, trata-se de um pequeno fragmento da agenda do governo no contexto da emergência que estourou há mais de duas semanas.

A comitiva presidencial cumprimentou os resgatados e posou para fotos ostentando bandeiras brasileiras. Em busca de um bônus de imagem, Bolsonaro tentou vincular sua figura diretamente a um esforço para amenizar os impactos da guerra –ainda que outros prejuízos se avizinhem.

Bolsonaro tenta conter crise com migalhas do marketing de guerra
O presidente Jair Bolsonaro recebe brasileiros que estavam na Ucrânia – Sérgio Lima/AFP

Um roteiro semelhante foi explorado pelo governo no início da crise da Covid. Enquanto Bolsonaro lançava um protocolo que minimizava os riscos do novo coronavírus, o governo tratou com pompa a operação para repatriar brasileiros vindos de Wuhan, epicentro inaugural da doença.

A partir daquele momento, o resgate se tornou uma espécie de rede de proteção para Bolsonaro diante da má administração da crise sanitária. Sem interesse em instalar um plano para conter o vírus, o presidente passou a apresentar a volta dos brasileiros como um ato bem-sucedido de sua gestão na pandemia.

A hesitação inicial do governo em relação aos dois voos reforça a convicção de que houve naquelas operações um interesse considerável em extrair ganhos políticos.

No fim de janeiro de 2020, Bolsonaro disse que não buscaria os brasileiros de Wuhan porque a viagem seria cara demais. Dias depois, a Força Aérea começou a divulgar informações sobre a preparação de aeronaves para a missão.

No caso da Ucrânia, o governo deixou de elaborar um plano de evacuação nos dias que antecederam a guerra.

Embora houvesse sinais de um avanço russo e recomendações de outros países para que seus cidadãos deixassem a região, o Brasil se manteve em silêncio para evitar constrangimentos com o recém-visitado Vladimir Putin.

Bolsonaro apostou num tipo de neutralidade pragmática diante da guerra, acreditando que contrariar os russos causaria prejuízos econômicos ao Brasil. Esse impacto veio mesmo assim.

A recepção oficial aos brasileiros e estrangeiros resgatados mostra que o presidente continua investindo em gestos simbólicos para contornar os efeitos da crise. Uma jogada de imagem é certamente mais simples do que a busca por uma solução para o complexo problema dos combustíveis. Bruno Boghossian/Folha de S. Paulo.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-