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terça-feira, maio 12, 2026

Números inflados, cenários seletivos e dados falsos: ano eleitoral expõe boom de distorção de pesquisas eleitorais

Circulação de fake news sobre intenções de voto e divulgação de enquetes sem valor estatístico estão entre os expedientes usados para favorecer pré-candidatos de forma enganosa

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Pesquisas eleitorais e empresas do setor se tornaram alvos preferenciais nas redes sociais da base do presidente Jair Bolsonaro (PL), pré-candidato à reeleição. A tática, que ganha força à medida que o pleito se aproxima, passa pela circulação de dados falsos sobre intenções de voto, ataques diretos à credibilidade dos institutos e pela divulgação de enquetes sem valor estatístico e fotos de multidões como forma de medir a popularidade do presidente. Em paralelo, em menor número, políticos de diferentes partidos já começam a exibir resultados distorcidos para favorecer aliados e suas pré-candidaturas.

Um caso recente é o de uma pesquisa falsa atribuída ao Paraná Pesquisas apontando Bolsonaro com mais de 70% das intenções de votos em oito dos 27 estados — os resultados foram desmentidos pelo próprio instituto. A publicação, que se espalhou em aplicativos de mensagem, afirma que Bolsonaro venceria no primeiro turno.

Um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV) aponta que, entre 1º de junho e 5 de julho, a mensagem apareceu 35 vezes em 25 grupos de WhatsApp, em um universo de 172 grupos públicos monitorados. Além disso, 91,4% das aparições ocorreram nas duas últimas semanas de análise.

Diretor de análises públicas da FGV, Marco Aurélio Ruediger alerta para o componente emocional da distorção de dados:

— Os números não estão ali para serem precisos ou exatos, estão ali para mexerem com a emoção das pessoas. Essa distorção visa o componente emocional. Não é para fazer o eleitor pensar, é para que ele pegue essa informação falsa, acredite nela e compartilhe com os amigos.

Em outro episódio, o Datafolha apareceu como fonte em uma postagem falsa no WhatsApp que apontava Lula atrás de Bolsonaro no Rio, o oposto do dado oficial. No mês passado, também circularam mensagens enganosas sobre um áudio atribuído a Mauro Paulino, ex-diretor do instituto, no qual ele confessaria um plano para fraudar as urnas eletrônicas. O áudio, na verdade, foi gravado por um canal humorístico. O instituto terá um espaço no próprio site para desmentir casos de desinformação.

Dados da DAPP/FGV revelam também que há alta circulação no Facebook de posts com links de enquetes enviesadas sobre a disputa presidencial. Embora não tenham a proposta de se equiparar a uma pesquisa eleitoral e façam esse alerta em suas páginas, os levantamentos online têm sido divulgados como forma de contestar os institutos. Uma delas, a do site Eleições ao Vivo, já gerou mais de 1 milhão de curtidas, compartilhamentos e comentários desde que foi lançada, em 2020. O resultado da enquete, atualizada em tempo real e compartilhada majoritariamente por apoiadores do presidente, aponta Bolsonaro com 70% dos votos. O Datafolha mais recente mostrou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 47% das intenções de voto, contra 28% de Bolsonaro.

Ferramentas para identificar o registro do domínio apontam que o responsável pela enquete é Rafael Gustavo Neves. Em 2012, uma reportagem do jornal O Globo mostrou que Neves também era administrador da página G17 — conhecida por publicar notícias falsas em tom de humor e vivia no Agreste do Rio Grande do Norte. Ele também aparece como responsável por outros três sites de enquetes: “Enquete ao Vivo”,”Rank BR” e “Enquete Eleições”.

Com mais de 98 mil inscritos em seu canal no YouTube e 81 mil seguidores no Facebook, o bolsonarista Adonias Soares foi um dos que mais difundiram a enquete. Em uma transmissão ao vivo no dia 4 de julho, ele lançou dúvidas sobre o resultado de um levantamento do Paraná Pesquisas em São Paulo, que mostrou percentual próximo de intenções de voto entre Bolsonaro e Lula, ao mesmo tempo que indicou o Eleições ao Vivo a seus seguidores, ressaltando a dianteira do presidente. A postagem teve 160 mil visualizações só no Facebook.

“Vou garantir para você que está aí do outro lado da tela sendo de São Paulo ou demais estados brasileiros, eu vou garantir que, em São Paulo, Bolsonaro lidera com, no mínimo, 70%. Eu vou pedir para você acompanhar uma enquete que está acontecendo online através do site “Eleições Ao vivo”. O que você está vendo é em São Paulo. Bolsonaro com 59,9%, enquanto Lula com 33,2%. A direita precisa participar dessa enquete”, diz Soares.

Outro site de enquete é o Realidade do Povo, que somou 480 mil interações nos últimos dois meses, segundo a DAPP/FGV. Administrador da plataforma, Márcio Santine diz que não é responsável pela circulação tendenciosa nas redes.

— Está bem claro no título que são enquetes, até porque sabemos que a pesquisa eleitoral tem todo um estudo científico e precisa ser registrada. Infelizmente, não tem como controlar isso (o compartilhamento como se fosse pesquisa), são pessoas do Brasil todo votando.

Outro caso é o da enquete da Jovem Pan, citada em 1.784 posts com 156.030 interações. Pré-candidato a deputado estadual do Rio e irmão do deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ). Renan Jordy compartilhou o resultado da enquete que mostrava na época Bolsonaro com 66% dos votos, em fevereiro, com a legenda “Alô DataFolha, vê se aprende!!”.

Presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), Duilio Novaes diz que a pesquisa é a “bola da vez” entre as redes de fake news, como foi a desinformação de mensagens falsas sobre Covid-19 durante a pandemia. Ele explica que, no caso das enquetes, não há preocupação com a representatividade da amostra, ou seja, sobre o perfil de quem responde à consulta online, e por isso ela não tem validade estatística:

— Para a gente avaliar a pesquisa, é preciso olhar a descrição da metodologia, como foi feita, como se selecionou a amostra, onde foi aplicado o questionário. Tudo isso tem que ser apresentado na descrição do método. Não há problema em fazer enquete, mas ela não tem validade estatística.

O uso de imagens também faz parte da narrativa de desconstrução dos levantamentos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, comparou fotos de atos a favor do presidente e de Lula, reproduzindo ironicamente os percentuais da última pesquisa do instituto. “Datafolha? Pode confiar!”, escreveu.

Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) fez há duas semanas uma live na qual mirou a pesquisa Genial/Quaest. Na publicação, ele faz críticas sem fundamentos à metodologia da empresa, citando que a Quaest escolheu municípios do Maranhão em que Bolsonaro não venceu nas eleições de 2018 para fazer suas entrevistas. Os dados sobre a amostra da pesquisa, no entanto, revelam que as votações no conjunto de municípios escolhidos para o levantamento refletem os resultados da eleição passada: em 70% das cidades visitadas pela Quaest, Bolsonaro venceu em 2018.

Outra forma recorrente de desacreditar os institutos é o uso da expressão “DataPovo”. Ainda segundo a DAPP/FGV, já foram feitas mais de 54 mil menções ao termo no Twitter e mais de 10 mil posts sobre o tema no Facebook nos primeiros 13 dias de julho. “O DataPovo” começou a ser usado por bolsonaristas para atacar os institutos de pesquisa, mas também foi apropriada de forma irônica pela esquerda.

“Mentirada danada”

Um caso que chama a atenção é o do ex-ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio, nome do presidente ao Senado em Minas. Ele patrocinou em 12 de julho três postagens no Facebook, com gastos entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil, segundo a biblioteca de anúncios da plataforma, dizendo “que pesquisa é uma mentirada danada”, em referência ao levantamento da Genial/Quaest em que aparece atrás do candidato apoiado por Lula. O anúncio foi exposto até 60 mil vezes na rede social.

Na oposição, também há registro de distorções na divulgação de resultados de pesquisa, embora não haja ataques aos institutos e empresas do setor, como no campo bolsonarista. O senador Humberto Costa (PT) e o ex-deputado federal Marco Maia (PT) compartilharam uma pesquisa Genial/Quaest com a afirmação de que Lula “disparou” e “cresceu” em Minas Gerais ao marcar 46% de intenções de votos. Os dados do levantamento, no entanto, mostram que não houve variação fora da margem de erro entre as últimas pesquisas.

Outro caso é do governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB). Em um post que chegou a ser patrocinado no Facebook, ele compara resultados de cenários diferentes do Datafolha, com e sem Márcio França (PSB), para dar impressão de que suas intenções de voto dobraram. Em nota, Garcia afirmou que os números divulgados “retratam a verdade em dois momentos”. Humberto Costa não respondeu. (Marlen Couto e Jéssica Marques/O Globo).

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