No último bordejo pela Marcelino Pires às vésperas da eleição de domingo fui abordado leitor Roberto Braga, o Braguinha, filho do velho amigo e bolsonarista empedernido, o farmacêutico e advogado José Braga. A bronca dele, o meu sumiço. Lembrou-me até a data da última coluna “Bastidores” aqui publicada. No dia seguinte, na fila de votação, no meu velho colégio Presidente Vargas, o mesmo tipo de cobrança – “você anda sumido!” –, de outra amiga querida e também assídua leitora, Elizabeth Salomão, filha do saudoso radialista e ex-prefeito, amigo mais velho ainda, Jorge Antônio Salomão, que, se entre nós ainda estivesse, como udenista de quatro costados, também estaria na linha frente dos bolsonaristas da terra de seu Marcelino.
Antes que o leitor menos avisado comece a elucubrar sobre as causas desse “sumiço”, pelo meu histórico, lá atrás, de empreitadas em campanhas eleitorais, a justificativa de que desta vez tudo se deu pelos tais “motivos de força maior”. Doença, mesmo, aí incluídas duas cirurgias, uma de longo período de recuperação e, no meio disso tudo, um mês dedicado exclusivamente à minha filha que veio dos Estados Unidos para me visitar. Por coincidência, num dos períodos mais produtivos, tanto num site que se propõe eminentemente político quanto pela oportunidade de ganhar uma graninha extra como marqueteiro ou coordenador de algum programa eleitoral. Convites, aliás, não faltaram, como o que muito me honrou, para fazer parte do estafe da campanha de Marquinhos Trad, candidato a governador que me deu a honra de sua visita, em meu cafofo, e de vários candidatos às eleições proporcionais, entre os quais o deputado Barbosinha, quando ainda era candidato a reeleição; da amiga e, como eu, insubordinada do jornalismo, a combativa vereadora Lia Nogueira, e até um aceno do também amigo vice-governador Murilo Zauith, que prometeu “me colocar” com Rose Modesto, o que não aconteceu porque ele acabou não apitando nada na campanha da professora que sonhava ser a primeira governadora do estado. Faltando uns quinze dias para a eleição, achando que ainda poderia dar uns pitacos, pelo menos, uma infecção, consequência da rejeição de um enxerto ósseo para um implante dentário, o que me impedia de falar e me obrigou a ir votar com a boca ainda cheia de pontos.
Mas, cá estou, antes de falar do segundo turno, para uma tentativa de rescaldo, pelo menos, da mais renhida de todas as campanhas eleitorais, tanto no estado como no país. Com as urnas abertas, não tendo como não lembrar de uma conversa com o ex-presidente da Câmara Municipal de Dourados, Júnior Teixeira, no dia 20 de agosto, ali pelas 10h da manhã, na tradicionalíssima Água Rica, ponto de parada obrigatória para quem faz o trecho entre Dourados e Campo Grande. Perguntado sobre o que achava da eleição, respondi, peremptoriamente: Contar! Capitão Contar, claro, no segundo turno. Até ali, ao que tudo indicava, com André Puccinelli.
Nada esnobação. Já errei, e errei feio, como, por exemplo, quando apostei todas as minhas fichas em Pedro Pedrossian. Para governador e para senador. Mas, desta vez, era o óbvio da coisa. Fatal o “capitão lá, capitão cá”, apesar dos míseros segundos de TV do candidato bolsonarista na propaganda de rádio e TV. Ah, mas o Riedel também era bolsonarista. Era, tanto que, também por isso, está no segundo turno, mas antes de mais nada porque nunca antes na história das eleições de Mato Grosso do Sul apareceu um candidato tão bem preparado, tão determinado, com tanta convicção de vitória e com uma equipe tão competente como Eduardo Riedel. Sem contar o governo Azambuja que, encrencas judiciais à parte, é, indiscutivelmente, um dos mais bem sucedidos da história.
No mais, o que se viu foi um André Puccinelli cansado – literalmente – e velho de guerra. Monocórdio, ao tentar fugir dos questionamentos que o nivelavam a Lula da Silva nas questões relacionadas à memórias do cárcere, repetindo como um robô os números já não tão convincentes de suas administrações tanto na prefeitura de Campo Grande como no governo do estado; uma Rose Modesto sonhadora e ingênua, jogando tudo para a Providência Divina, excedendo-se na história de sua origem humilde, mas esquecendo-se de “pequenos” detalhes como o de seu principal cabo eleitoral, o vice-governador Murilo Zauith, e um Marquinhos Trad, no melhor estilo cavalo paraguaio, envolto numa das mais infames ondas de denuncismo já vistas em campanhas eleitorais. Os demais, para cumprir tabela, como a petista Giselle Marques, tendo que se contentar em ver a estrela maior do partido, Zeca do PT, cabalando votos para Eduardo Riedel, o tal do Adonis Marcos, numa arrogância descomunal, apesar de sua baixa estatura como candidato e – quem foi que disse que Dourados não teria um candidato a governador? – o hilário Magno de Souza, valoroso representante do Jaguapiru, cuja campanha foi pautada pela eterna luta pela demarcação e contra as invasões de terras indígenas, além, claro, de fatores “tão preponderantes” para uma campanha governamental, como a caixa d’água vazia de sua oca e a repetida história do feijão com caruncho, segundo ele, distribuído nas aldeias durante o governo André Puccinelli.
Quem leva no segundo turno? Elementar, meu caro Watson, diria o notável detetive Sherlock Holmes. Pela onda bolsonarista, o Capitão Contar, mas prevalecendo a coerência e o tão decantado anseio do eleitor pelo novo, “Ridél”, menos pela pronúncia do mesmo Magno de Souza, mais pelo prenúncio do primeiro turno. Nunca antes na história uma máquina tão bem azeitada fez tanta diferença. Além do tão propalado apoio de setenta dos setenta e nove prefeitos que tocaram a campanha, quem sabe agora, com a unanimidade (a da capital, inclusive) deles? Lembrando aqui a profecia do governador Reinaldo Azambuja quando do lançamento de seu ungido, diante desses mesmos tão ilustres cabos eleitorais: “quem tem o apoio de um time como esse não tem como perder eleição”.
A favor de Riedel, ainda, o fator Tereza Cristina. Agora senadora eleita, não recebe mais ordens de Jair Bolsonaro, e como aliada de primeira hora do tucano, certamente que terá motivos de sobra e autoridade para dar um chega pra lá no presidente, no mínimo, “sugerindo” a ele para que se mantenha neutro no segundo turno. Fora isso, nada que não se resolva com a “raspa do tacho” dos agora liberados eleitores de André Puccinelli, Rose Modesto e Giselle Marques; alguns, até, de Marquinhos Trad, por razões óbvias, mas, com certeza, todos os dos “esquerdistas” Adonis Marcos e Magno de Souza.
