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domingo, maio 10, 2026

Novela do arcabouço fiscal mostra como os métodos de Lula vão definir os rumos do governo

Ministro Fernando Haddad costurou novo pacote com colegas da área econômica, com o BC e líderes partidários

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O desfecho da primeira temporada da série do arcabouço fiscal, que deixou ontem o Palácio do Planalto para ser apresentado ao Congresso, traz informações importantes para compreender o rumo do terceiro mandato de Lula — tanto sobre como ele manobrará as peças do governo como sobre o novo desenho geopolítico de Brasília. Acima de tudo, porém, ensina uma lição bem útil sobre como tratar as guerras internas do governo e os chamados que o presidente da República lança ao debate público.

A constatação mais óbvia é que Lula continua fiel ao velho método de deixar os subordinados se digladiarem para depois arbitrar a disputa, de preferência optando pelo pragmatismo. Foi assim no primeiro e no segundo mandato, e o resultado do embate fiscal sugere que será igual no terceiro.

Não quer dizer, claro, que a decisão será sempre a melhor para o país ou que não haverá escorregões. Mas serve de aviso aos navegantes do novo momento político: é bom tomar cuidado antes de aderir incondicionalmente aos “apitos de cachorro” do presidente da República para controlar a narrativa sobre seu próprio governo.

A guerra dos juros altos, por exemplo. Enquanto os auxiliares debatiam internamente as novas metas fiscais, Lula comprou uma briga pública feroz com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a quem já em fevereiro, na primeira alta dos juros sob seu governo, chamou de “aquele cidadão”, exigindo “explicações ao povo brasileiro”.

Desde então, vários interlocutores do presidente puderam conferir que a irritação é real, e ele de fato não engole Campos Neto. Mas quem conhece os mecanismos da política econômica sabe que, se Lula acreditasse mesmo no que dizia sobre os juros altos e quisesse de fato forçar a redução dos juros, poderia ter levado o Conselho Monetário Nacional, o CMN, a aumentar a meta de inflação. Se daria certo ninguém sabe, mas seria uma manifestação inequívoca de vontade política.

Lula, porém, não fez isso. Soltou os ministros — e os cachorros — para cima de Campos Neto, ao mesmo tempo que o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, reunia no Rio de Janeiro um grupo de economistas heterodoxos para falar… heterodoxias, criticando os juros altos e relativizando a necessidade de fazer superávit. Deu verniz à discussão o fato de nela haver um Nobel, Joseph Stiglitz.

Teria sido útil, porém, observar que o último discípulo de Stiglitz que comandou uma economia latino-americana — Martín Guzmán, na Argentina — previu derrubar a inflação, de 53,8% quando assumiu, em 5 pontos percentuais ao ano, mas deixou o cargo com a taxa em 71%. Quem achar que é um bom modelo, que compre a passagem só de ida para Buenos Aires.

Enquanto políticos interessados e acólitos distraídos se encantavam com o discurso “disruptivo” de Stiglitz e sua turma, Fernando Haddad buscava aliados para o arcabouço fiscal entre ministros da área econômica, além do próprio Campos Neto e do presidente da Câmara, Arthur Lira.

O desenho final ficou mais parecido com o que os “fiscalistas” pretendiam do que com o que sonhavam os heterodoxos. Em linhas gerais, o governo se propõe a zerar o déficit público já em 2024, chegando a 1% de superávit em 2026. Prevê, ainda, que as despesas — todas elas, mesmo com saúde e educação — só poderão crescer ao limite de 70% do aumento da receita.

Haddad, portanto, sai vitorioso, o que nunca teria acontecido se o Lula do mundo real seguisse o próprio apito de cachorro.

Com a experiência acumulada, Lula sabe que a sustentabilidade das contas públicas é o que lhe permitirá investir na área social e em infraestrutura, ao mesmo tempo que cria condições para a queda de juros. Tanto que disse à equipe econômica fazer questão de chegar ao final do governo com superávit.

O arcabouço ainda precisa ser destrinchado para que se saiba se tem consistência ou se carrega truques para sustentar responsabilidade fiscal de fachada. Para o momento, contudo, basta dizer que nem Paulo Guedes, que tocava afinado com a Faria Lima, respeitou o teto de gastos em sua gestão.

Se contribuir para criar alguma confiança de que os comandantes da economia têm juízo, já terá cumprido uma função. Manejar a economia é também gerir expectativas, e Lula está cansado de saber disso. Ao fazer um discurso raivoso e depois desmenti-lo na prática, o presidente “está na dele”, como diz o povo.

Quem estiver a fim de segui-lo deve saber que corre o risco de ficar falando sozinho — ou de ser obrigado a recuar quando Lula recolher o apito.

Malu Gaspar/O Globo

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