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sábado, maio 2, 2026

Tá russo, mas vai melhorar

Numa despedida que mistura crônica de boteco com geopolítica global, a ausência de Russo escancara a insanidade de um mundo onde até a Rússia perdeu o humor

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Ele partiu. E com ele se foi uma das últimas reservas românticas do jornalismo de bar, de balcão e de coragem. Waldemar Gonçalves, o Russo, nos deixou sem a menor cerimônia. Logo ele, que era presença garantida em todo velório, e que vivia prometendo enterrar todos os colegas antes de ir embora. Fez a maior das sacanagens: morreu primeiro.

A notícia não chegou por manchete nem por plantão da Globo. Foi sussurrada no sábado frio, como quem pede desculpa pela ausência. Morreu sozinho, numa quitinete desprovida de glamour — não num boteco, como seria poeticamente justo. Vítima de um combo letal: álcool, cigarro e o abandono que a vida moderna reserva aos que não cabem nos moldes.

Russo morreu frustrado, não apenas com seu “Curíntia”, que custa pegar na manivela de Dorival Júnior, mas porque nem no “bicho” do amigo “seu” Roberto ele vinha conseguindo acertar, para repetir um costelão com o da foto que ilustra este texto.

E o mais curioso: o Russo morreu justo quando o mundo está mais russo do que nunca.

É como se o universo, num gesto simbólico, recolhesse o Waldemar para tentar conter o Vladimir. Como se dissesse: chega de “russices”. Já basta um espalhando insanidade com bombas, drones e ameaças nucleares. O nosso Russo era do tipo que desarmava conflitos com piada, não com míssil hipersônico. Que invadia os espaços com alegria, não com tanques.

Se Putin representa hoje a sombra grotesca da Rússia real, Waldemar Gonçalves foi, até seu último trago, a caricatura luminosa da nossa russeidade tropical: imprevisível, debochada, excêntrica, e ainda assim profundamente humana.

Talvez por isso sua morte nos doa tanto. Porque é mais uma trincheira que se desfaz, mais uma gargalhada que se cala, mais uma figura que não cabia em partido, igreja ou planilha de Excel.

Waldemar foi pintor, baterista, repórter policial, colunista esportivo, conselheiro político de ocasião, e candidato improvável a vereador com o mais sincero dos slogans: “Tá russo, mas vai melhorar”.

Melhorar, mesmo, não melhorou. Nem a cidade, nem o país, nem o planeta. Mas ele fez a parte dele — do seu jeito torto, honesto e genial.

E agora, cá entre nós: se um dia o planeta resolver parar de girar nesse eixo de loucura, talvez seja por influência dele, lá do alto, dando um esporro bem-humorado em Putin:

— Ô, meu chapa… desce daí, vem pro boteco. Aqui é Russo de verdade.

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