23/05/2017 – 07h45
Em entrevista ao premiado ’60 minutes’, da CBS, juiz da Lava Jato destaca momento em que ex-diretor da Petrobrás começou a delatar, o que o fez lembrar do filme em que Sean Connery diz ao famoso agente do FBI que ‘não haveria mais volta’
O juiz federal Sérgio Moro afirmou em entrevista ao prestigiado programa 60 Minutes, da CBS, que se sentiu como Elliot Ness, o célebre agente do FBI na Chicago dos anos 1930, quando o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa (Abastecimento) começou a delatar o que sabia do esquema de corrupção na Petrobrás.
“Esse foi o ponto em que não havia mais volta, como no filme Os Intocáveis” Moro se referia à cena em que Sean Connery diz a Ness (interpretado por Kevin Costner) que se ele estava entrando em um mundo conturbado e que se ele enveredasse por ali não haveria mais volta.
Anderson Cooper, do 60’ Minutes, então pergunta a Moro se ele havia assistido ao filme. “Sim, é um grande filme.”
Cooper prossegue em sua narrativa sobre a Operação Lava Jato afirmando que Moro se tornou uma espécie de herói popular. “Os brasileiros conviveram com a corrupção por décadas até que o juiz Moro e os procuradores começaram a mostrar a alcance da corrupção às claras”, disse Cooper.
Moro defendeu que o sucesso da Lava Jato se deve em parte à aplicação de métodos de barganha judicial – no estilo americano – para fazer com que os acusados cooperem. “Moro e os procuradores também estão usando táticas controversas para lutar contra os crimes financeiros”, afirma Copper no programa, que descreve os longos períodos de prisões preventivas a que foram submetidos executivos de empresas envolvidos no escândalo.
“Eu entendo que nós estamos vivendo em circunstâncias excepcionais porque a corrupção era muito generalizada. E você precisa fazer alguma coisa forte para pará-la”, afirmou Moro.
“Isso nunca aconteceu no Brasil”, afirmou o procurador da República Paulo Galvão, que integra a força-tarefa da Lava Jato.
As prisões, segundo ele, foram o ponto de inflexão. “Essas pessoas (executivos e políticos) eram uma gente que nunca teve medo da lei no Brasil. Esse foi o momento (as prisões) em que essa gente começou a perceber que estava sendo atingida pela Lava Jato.”
Assim, diz o programa, os procuradores foram recebendo ofertas de executivos e políticos ameaçados pela operação dispostos a cooperar e devolver dinheiro desviado a fim de evitar o cumprimento de longas condenações.
Apresentados como ‘jovens e idealistas’, os integrantes do Ministério Público Federal da Lava Jato disseram a Cooper que o pagamento de propina era a regra do jogo no País. “Era a forma como os políticos se financiavam no Brasil”, afirmou o procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima.
Por fim, Cooper pergunta a Moro se ele tinha consciência do que há ‘interesses poderosos que gostariam de acabar com todo o trabalho da Lava Jato’.
“Sim”, responde o juiz. “Mas é nossa responsabilidade não permitir que façam isso. Nós temos que encarar o problema e, ao enfrentá-lo, penso que teremos um País melhor.”

