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quarta-feira, abril 29, 2026

A inquietação dos fenômenos eleitorais

Quando o eleitor se cansa, surgem personagens que prometem varrer, provocar ou simplesmente aparecer

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Valfrido Silva

— Você me chamou de fenômeno, me comparou ao Artuzi!

Isa Marcondes não esperou que eu terminasse de escolher o pão francês na padaria do fuxico. Veio de dedo em riste, mistura de cobrança e curiosidade. Não era ataque. Era inquietação. Expliquei que fenômeno não é elogio nem ofensa. É categoria política. Ela retrucou, direta: “O Artuzi roubava, eu não”. Tentei ponderar que fenômeno é diagnóstico eleitoral, não sentença judicial. Ela não se convenceu totalmente. Marcou outro encontro. Quer entender o que escrevo. Eu, confesso, também tento entender o que o eleitor está achando de todo esse circo em que se transformou a política da terra de seu Marcelino nesses últimos tempos.

Porque, antes das pesquisas, antes das convenções, antes dos marqueteiros, há um ruído fino no ar. Um desconforto coletivo que começa a mexer com quem vive de voto. Fenômenos eleitorais são criaturas sensíveis ao barulho do calendário. E quando o tempo “ruge”, como dizia o bicheiro Giovanni Improtta, interpretado por José Wilker na novela Senhora do Destino, eles se inquietam.

Campo Grande já produziu um fenômeno original, daqueles que viram capítulo obrigatório nos livros de História: Jânio da Silva Quadros. O menino de família humilde que saiu daqui para estudar em Curitiba, virou vereador, deputado, prefeito, governador de São Paulo e presidente da República carregando uma vassoura como símbolo e um discurso moralista como bandeira. “Varre, varre, vassourinha… toda essa bandalheira…”, cantava o Brasil.

Jânio compreendeu cedo que o eleitor, quando cansa, procura alguém que prometa limpar o que parece sujo demais. Transformou combate à corrupção em espetáculo, moralismo em marketing e teatralidade em método. Subiu rápido. Renunciou mais rápido ainda. Foi fenômeno de ascensão meteórica e de implosão dramática. Mas deixou uma lição: fenômenos, que vivem de palco, nascem do cansaço coletivo.

Décadas depois, os ruídos voltam a ecoar.

Isa não gosta de ser chamada de fenômeno. Prefere rótulos mais convencionais. Mas fenômeno é quando alguém rompe o roteiro tradicional, sai da margem e ocupa o centro do debate. Isa entendeu que, para sobreviver, precisava sair da tal base que garante governabilidade. Precisava ser antagonista. E, assim, elegeu o prefeito Marçal Filho como contraponto permanente. Fenômeno precisa de tensão. Precisa de conflito. Precisa de luz.

Antes dela, Dourados já havia experimentado sua própria versão de fenômeno: Ari Artuzi. Votação expressiva, discurso direto, promessa de ruptura com o establishment. O eleitor, quando cansa, vota contra o sistema, não necessariamente a favor de alguém. O fenômeno cresce na brecha da descrença. Depois, a realidade cobra a conta. Artuzi virou capítulo judicial e político conhecido, mas sua eleição foi sintoma claro de que o eleitorado gosta de personagens que parecem desafiar a engrenagem.

E agora, Marçal?

O prefeito parece ter entendido que o tempo também “ruge” mais alto para quem governa. Enquanto Isa provoca e tensiona, ele aposta na política da presença visível: praça roçada, muro pintado, bordão — “alô você” — repetido, marca mantida. Administração como ocupação contínua de espaço. Porque desaparecer é o maior risco. O eleitor pode até tolerar erro. Não tolera ausência.

Giovanni Improtta dizia que “o tempo ruge e a Sapucaí é grande”. Na política, a Sapucaí é o calendário eleitoral. Grande demais para quem acha que pode esperar. Pequena demais para quem demora a reagir.

Jânio levantava poeira com a vassoura. Artuzi surfava na tempestade do descontentamento. Isa levanta com o discurso. Marçal tenta evitar que a poeira cubra sua gestão. Todos, cada um ao seu tempo e à sua maneira, filhos do mesmo fenômeno maior: o cansaço cíclico do eleitor.

Fenômenos não nascem do nada. Nascem da inquietação. Nascem quando o eleitor começa a olhar para o lado e perguntar se não está na hora de varrer de novo. Às vezes a vassoura resolve. Às vezes só levanta mais poeira.

O tempo urge. E os fenômenos, atentos, já começaram a se mexer.

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