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terça-feira, fevereiro 24, 2026

Cavala: tentativa de freio político ou largada antecipada para 2026?

Por falta de uma, plenário da Câmara Municipal aceitou duas denúncias contra a vereadora Isa Marcondes

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Valfrido Silva

Que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde, ninguém duvidava. Quem acompanhou a série Uragano, o retorno percebeu que o clima já não era de tempestade passageira, mas de frente fria organizada. A própria Cavala, apesar do discurso destemido, sabia que o terreno estava sendo preparado. Política não é haras de passeio — é corrida com cerca elétrica. E a pergunta nunca foi “se”. A pergunta agora é: quem puxou a porteira e por quê agora?

Porque, sejamos honestos, poucos pré-candidatos à Assembleia Legislativa gostariam de dividir a mesma pista com Isa Marcondes em 2026. Ela é barulhenta, tem base popular consolidada e opera bem no discurso de enfrentamento. É o tipo de candidata que, em disputa proporcional, desorganiza cálculos internos de qualquer legenda.

Talvez apenas o governador Eduardo Riedel, no momento, esteja relativamente confortável, não por afinidade, mas por altitude institucional. No mais, a movimentação interessa a muita gente.

Pois bem, nesta segunda-feira (23), a Câmara Municipal de Dourados aceitou duas denúncias formais contra a vereadora.

A primeira, mais sensível do ponto de vista jurídico-político, trata de suposto uso irregular da Ceap (Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar). A representação, apresentada pelo advogado Wagner Batista da Silva, aponta “padrão reiterado de abastecimentos” com recursos públicos em datas próximas a viagens divulgadas pela parlamentar.

Entre junho e novembro de 2025, foram ressarcidos R$ 33.812,36. O plenário aceitou a admissibilidade por 17 votos a 2 e instaurou comissão processante com prazo de 90 dias. Não houve afastamento. Ela permanece no mandato.

Tecnicamente, o que está em jogo não é apenas combustível — é o nexo entre despesa pública e finalidade institucional. A denúncia questiona se havia designação formal da Câmara que caracterizasse os deslocamentos como missão parlamentar. Parte das agendas teria ocorrido durante o recesso. O texto também menciona pagamentos realizados via ordem bancária e Pix à conta pessoal da vereadora, o que, embora não seja automaticamente irregular, amplia o ruído político.

Entre os deslocamentos citados estão agendas regionais e uma viagem ao festival Tomorrowland, em Itu (SP). No processo político, pouco importa a planilha; importa a narrativa. E a palavra “festival” fala alto em ano pré-eleitoral.

A segunda denúncia, aprovada por 16 votos a 3, envolve fiscalizações na UPA e suposta violação do direito de descanso de servidores. O caso seguirá para o Conselho de Ética.

Agora saímos do jurídico e entramos no tabuleiro. O placar de 17×2 não é casual. É sinal de isolamento momentâneo ou de articulação prévia bem executada. Câmara não vota assim por acaso. Quando a admissibilidade passa com essa margem, há mensagem embutida.

Para o prefeito Marçal Filho, há alívio tático. Menos pressão direta na saúde enquanto a adversária reorganiza defesa. Mas é alívio com prazo de validade. Isa construiu capital político no enfrentamento. Mesmo sob processo, pode converter desgaste em vitrine.

E aqui está o ponto central: a Assembleia Legislativa. Isa Marcondes, com mandato municipal consolidado e exposição regional frequente, é nome natural numa disputa proporcional estadual. Em eleições para deputado, a lógica é diferente: não é vencer majoritariamente, é pontuar de forma eficiente. E ela sabe mobilizar nichos específicos, especialmente no discurso de fiscalização da saúde e combate a “sistemas”.

Se a comissão processante não produzir cassação, a narrativa provável será a de perseguição política. E, nesse roteiro, ela sai fortalecida para pedir voto estadual sob o argumento de que “mexeu onde não devia”. Se houver condenação e perda de mandato, o cenário muda, mas não necessariamente para o silêncio. Ela pode emergir como vítima institucional e ainda capitalizar politicamente, dependendo do timing da decisão.

Os chamados padrinhos políticos — Reinaldo Azambuja e Zé Teixeira — entram agora em zona delicada. Blindar demais contamina. Abandonar pode custar capital futuro.

Como dizia meu avô Gelista, Urbano, pioneiro dos pioneiros, do Guassu: “Isa, só matando.” Mas em política, às vezes tentar matar é o que dá mais fôlego ao adversário.

A corrida começou antes da largada oficial. E o galope agora é jurídico, mas o destino é, claramente, eleitoral.

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