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quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Cavala prevê seu carro “metralhado”, reage ao cerco e tensiona disputa rumo ao Parque dos Poderes

Em discurso dramático, vereadora sugere articulação poderosa nos bastidores, ensaia narrativa de perseguição e coloca padrinhos políticos em zona de desconforto

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Valfrido Silva

Em vez de uma defesa técnica, protocolar, amparada em planilhas e argumentos jurídicos, a vereadora Isa “Cavala” Marcondes optou por um discurso carregado de emoção e simbolismo ao subir à tribuna da Câmara de Dourados para reagir às duas denúncias que agora tramitam contra ela — uma no Conselho de Ética e outra em comissão processante com prazo de 90 dias e potencial de interromper precocemente sua trajetória eleitoral. Com a voz embargada, alternando indignação e desafio, atribuiu a origem das acusações a alguém ligado à própria família, cujo nome disse não poder revelar em razão de processo em segredo de Justiça, e, a partir dessa insinuação inicial, construiu uma narrativa que extrapola o campo jurídico e mergulha no terreno da perseguição política.

O ponto culminante do discurso veio quando evocou, sem rodeios, a possibilidade de sofrer atentado (semelhante ao que marcou a campanha de Ari Artuzi à prefeitura), ao afirmar que “um dia meu carro pode ser metralhado”. A referência não foi casual nem ingênua. Ao trazer à memória o episódio que antecedeu a derrocada de Artuzi e a Operação Uragano — marco traumático da política douradense — Isa não apenas dramatizou sua situação, como insinuou que forças semelhantes às que atuaram naquele período estariam novamente em movimento. A diferença, porém, é que Artuzi caiu sob o peso de investigações estruturadas e colapso institucional, enquanto Isa tenta se posicionar como alguém que estaria sendo alvejada justamente por denunciar, por incomodar, por tensionar.

Nos bastidores, comenta-se que, além de desavenças familiares, o cerco que se desenha teria o mesmo “rolo compressor” de outrora, com endereço conhecido no Parque dos Poderes — coincidência que não passa despercebida, sobretudo porque é justamente ali que a vereadora projeta instalar-se a partir do próximo ano, caso confirme a candidatura à Assembleia Legislativa. Ela não mencionou explicitamente a disputa, mas deixou escapar o calendário ao dizer que “outubro está chegando” e que novas denúncias devem surgir em profusão, frase que, em ano pré-eleitoral, dispensa tradução.

Isa construiu sua carreira no confronto permanente. Elegeu-se descendo o porrete no prefeito Alan Guedes, agora critica Marçal Filho com intensidade quase diária e, paradoxalmente, insiste que continua “na base” do governo municipal, contradição que faz parte de sua estratégia: manter o vínculo formal enquanto preserva o discurso insurgente. Esse estilo, que lhe garantiu visibilidade e capital político, é ao mesmo tempo ativo e risco. Em eleições proporcionais, intensidade costuma valer mais que moderação. A narrativa de enfrentamento pode galvanizar nichos, mobilizar eleitores que se sentem órfãos de representação combativa e transformar processo disciplinar em combustível eleitoral.

É justamente aí que reside o desconforto dos seus principais padrinhos. Reinaldo Azambuja, ex-governador reposicionado no campo bolsonarista e virtual candidato ao Senado, atravessa momento de oscilação política que não comporta turbulências adicionais. Associar-se a um episódio que mistura denúncia, insinuação de conspiração e metáforas de violência pode ser custo alto demais para quem precisa ampliar base e reduzir rejeição. Já o octogenário deputado Zé Teixeira, veterano de incontáveis disputas e conhecido por fazer contas frias quando o assunto é sobrevivência eleitoral — inclusive patrimonial — certamente acompanha o desenrolar dos fatos com a cautela de quem não aposta duas vezes no mesmo risco sem garantias de retorno.

O silêncio desses padrinhos, daqui para frente, será eloquente. Blindar demais pode contaminar; afastar-se cedo demais pode significar perda de ativo político caso Isa sobreviva ao processo e transforme o cerco em medalha de resistência. Ao afirmar que sabe estar sendo gravada e que possui “munição de sobra”, inclusive fora do país, a vereadora deixou no ar não apenas desabafo, mas advertência. O discurso foi menos defesa e mais aviso: se atacada, reagirá.

A comparação com a Uragano, portanto, não é mero recurso retórico. Em Dourados, processos políticos raramente são apenas administrativos; costumam ser capítulos de disputas mais amplas por poder regional e projeção estadual. Isa decidiu dramatizar o momento e enquadrá-lo como teste de resistência. Se o objetivo era freá-la, ela tratou de transformar o freio em argumento de campanha antecipada. Resta saber se o rolo compressor, real ou imaginado, repetirá a história ou se, desta vez, produzirá efeito inverso, impulsionando exatamente quem pretendia conter.

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