Sentado à mesa da padaria, que, naquela hora — entre o café da manhã e o almoço — tem menos gente, ele permanece ali. À sua frente, um copo de café e dois pães de queijo. Parece ter o pensamento longe. Onde exatamente? Aos seus mais de 60 anos, pode estar em muitos lugares, em muitas situações. Na infância? Longe dessa cidade grande para onde veio trabalhar e “fazer a vida”? Ou na adolescência? Ou seria em algum lugar no futuro?
Está de costas para a janela de vidro; não vê nada do que acontece fora das paredes do prédio. E o que importa? Parece não ter a cabeça ali. Bebe um gole do café com leite no copo americano cheio — bebida que certamente aprendeu a tomar na infância. O café ainda deve estar quente. Espera antes de sorver o próximo gole.
O que haverá dentro da sua bolha? Não tem cara de quem tem pressa, de quem precisa cumprir horário de trabalho num dia de semana.
Pisca os olhos, mexe levemente a cabeça, como quem diz não. Passa as mãos no rosto. Tentando apagar algo dentro de si? Os lábios parecem se mover levemente, mas nenhum som sai. De um lado e de outro do balcão, os garçons servem clientes, recolhem copos e pratos das mesas, limpando-as em seguida para o próximo freguês. Mesas de fórmica, fáceis de limpar com um líquido alcoolizado. Algumas já começam a ser preparadas para o almoço.
Rapiar! Como tinha esquecido essa palavra de três sílabas?! Não está nos dicionários de hoje. Eu rapio, ela rapiava, ela rapiou… se ele rapiasse… Lembra-se, como se fosse ontem, do pedido do irmão Marcelo:
— Conjugue o verbo rapiar no pretérito perfeito!
Rapiar? Até então, nunca tinha ouvido falar dessa palavra. O que significava?
Roubar é o sinônimo mais conhecido. Poderia ser também agarrar, tirar, arrebatar, saquear, raptar, levar à força. Pegar sem autorização.
Vê — ou melhor, ouve — o menino que foi dizer:
— Eu rapiei, tu rapiaste, ele rapiou, nós rapiamos, vós rapiastes e eles rapiaram.
Ela me rapiou! Isso mesmo! Como foi possível?
Lembra-se da explicação do padre Marcelo, da leitura do Sermão do Bom Ladrão, do Padre Antônio Vieira. Quanto tempo se passou? Não tinha vocação, não continuou no seminário, mas guardou os aprendizados.
Como não desconfiou? Como acreditar que uma pessoa tão meiga, tão gentil — que conhecera há poucas semanas, a mesma que estava à sua frente ontem à tarde — pudesse roubar algo, rapiar?
Levar, sem ser convidada, o que era seu. Mais do que dinheiro e joias, roubou sua confiança. Sua confiança no outro.
Estava arrasado, em estado de choque. Será que já estava velho, a ponto de não perceber? Deixou-se enganar pela solidão em que vive? A mulher morta, os filhos distantes pelas exigências do trabalho. Ligam de vez em quando, aparecem pouco.
Como viver sem o abraço do outro, sem o carinho, sem a amizade? Precisa do olhar nos olhos, da cumplicidade. Pensa nos tempos vividos juntos — os quatro. A mulher e os filhos.
Sem afeto, sua necessidade de proximidade o levou a se deixar enganar. Não percebeu que o interesse dela era apenas material.
O que se faz numa hora dessas? Ser rapiado por alguém que nunca pretendeu retribuir o amor recebido…
Não seria esse o maior dos pecados?
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
