As invasões hackers aos sistemas da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) que deram a Daniel Vorcaro acesso a dados sigilosos das investigações acerca das fraudes do Banco Master ocorreram primordialmente através de duas estratégias capitaneadas pelos comparsas Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
Do spearfishing, um golpe mais sofisticado, à simples compra de senhas por meio de intermediários, os métodos usados pela “Turma” (nome do grupo de WhatsApp do grupo) permitiram a Vorcaro ter acesso a investigações sigilosas sobre ele e o Master quase em tempo real.
Os três foram presos na terceira fase da Operação Compliance Zero da PF na última quarta-feira junto do cunhado do banqueiro, o pastor Fabiano Zettel. O quarteto foi descrito pelo relator como “uma espécie de milícia privada”.
Sicário morreu horas depois de ser preso pela PF. Ele tentou tirar a própria vida em uma cela na superintendência da corporação em Minas Gerais e chegou a ser reanimado pelo Samu e levado a um hospital, mas não resistiu.
O procedimento mais elaborado foi usado na PGR. Conhecido pela polícia de Minas Gerais pela larga ficha criminal e histórico de fraudes digitais, Sicário, que recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro, adotou uma campanha de spearfishing junto a servidores do Ministério Público Federal (MPF) mapeados pelo grupo.
O método usa tela falsas de troca de senhas, enviadas por e-mail aos servidores alvo do golpe. A principal característica desse esquema é o cuidado para que a fraude seja a mais convincente possível para que a vítima não se dê conta nem ao longo do tempo de que foi enganada.
Segundo fontes familiarizadas com as invasões ordenadas por Vorcaro, Sicário elaborou um ambiente digital para a troca de senha com a mesma aparência do servidor usado pelos funcionários da PGR.
Os alvos, com e-mails conhecidos, receberam uma mensagem falsa alertando sobre a necessidade da troca. O golpe funcionou, e o grupo obteve acesso a dois procedimentos sigilosos que corriam na primeira instância sobre o caso Master.
Já na PF, o roubo das senhas para viabilizar as invasões ficou a cargo de Roseno, escrivão aposentado da PF que também foi alvo da terceira fase da Compliance Zero. Neste caso, segundo o que apuramos, a metodologia foi menos sofisticada – Rosendo funcionou como intermediário para a compra de senhas de servidores da ativa –, mas a familiaridade com o sistema e o acesso do comparsa de Vorcaro a servidores da corporação foram determinantes para o sucesso do hackeamento.
Segundo a representação da Polícia Federal enviada para o relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, a ofensiva hacker de Vorcaro se estendeu até mesmo a organismos internacionais como o FBI e a Interpol. A decisão do ministro, porém, não entra em maiores detalhes sobre as invasões às entidades estrangeiras.
A representação da PF que baseou a prisão do executivo na última quarta, ainda em sigilo, afirma que foi por meio da invasão aos sistemas da PF que o banqueiro teve acesso às informações sobre o inquérito sigiloso contra o Master para investigar as fraudes nas carteiras de crédito vendidas ao BRB graças às invasões hackers, esquema que levou à liquidação da instituição pelo Banco Central (BC) em novembro passado.
Após saber que o inquérito sobre a fraude corria na 10ª Vara Federal de Brasília, comandada pelo juiz Ricardo Leite, a defesa do banqueiro entrou com um pedido na Justiça Federal para tentar impedir a prisão dele, que já havia sido determinada.
A PF diz que Vorcaro, no documento citado pelas iniciais DBV, então “esquenta” a informação, utilizando o site O Bastidor, dirigido pelo jornalista Diego Escosteguy, para torná-la pública. Segundo a PF, que anexou ao relatório prints de conversas entre Escosteguy e o banqueiro, ele “recebia dinheiro de DBV para publicar informações de interesse do banqueiro”.
Em uma das conversas, o jornalista inclusive informa a conta onde devem ser depositados os valores. Em uma planilha armazenada no celular, aparece referência ao seu nome e ordem de DBV para o pagamento de 2 milhões. Escosteguy nega irregularidades e diz que os repasses se referiam a contratos de publicidade,
“O mesmo jornalista esquenta uma informação que DBV tinha de que havia um processo criminal em trâmite da 10ª VF/DF”, diz o documento. “ A partir daí os advogados peticionam na Vara fazendo menção à reportagem publicada por Escosteguy. Logo após a publicação, o jornalista envia a reportagem para DBV e para Walfrido Warde (advogado de Vorcaro)”.
Em 21 de janeiro, Warde anunciou que deixaria a defesa de Vorcaro, em meio a divergências internas sobre a melhor estratégia jurídica para o caso.
Johanns Eller e Malu Gaspar/O Globo
