As redes sociais certamente não serão as mesmas ao fim desses quatro longos dias. Pelo menos para aquela parcela da população que se acostumou a acompanhar as manifestações diárias de Rodolfo Nogueira, deputado federal, bolsonarista militante e uma das vozes mais eloquentes na cruzada permanente contra o lulo-petismo, o comunismo e demais ameaças reais ou imaginárias à retomada do poder pela direita brasileira. Há três dias, porém, Rodolfo trocou o celular por uma mochila e escafedeu-se morro acima, na Serra da Bodoquena, em busca de reflexão espiritual. Trata-se de uma mudança de cenário que, convenhamos, merece alguma atenção.
Qual não foi minha surpresa ao chegar nesta quinta-feira de Corpus Christi ao Shopping Avenida Center e encontrar uma legião de homens vestidos de laranja. Eram dezenas deles. Todos carregando mochilas. Todos aparentando aquela mistura de expectativa e apreensão típica de quem está prestes a enfrentar algum desafio importante. No meio da multidão, de preto, como “iniciado”, um conscrito entre os Legendários, ele, Rodolfo Nogueira, o nosso já antológico Gordinho do Bolsonaro. Confesso que minha primeira impressão foi a de ter chegado atrasado para alguma excursão esportiva. Mas a missão era outra. Muito mais ambiciosa.
Rodolfo preparava-se para embarcar rumo à Serra da Bodoquena em mais uma edição do retiro desse estranho movimento cristão voltado exclusivamente para homens, focado no fortalecimento espiritual, liderança familiar, restauração de relacionamentos e superação de limites físicos e emocionais. Antes da partida houve até despedida oficial. A esposa, vice-prefeita Gianni Nogueira, almoçou com no shopping, antes do ritual de embarque, cercados por correligionários, alguns participantes dessa curiosa peregrinação contemporânea.
Pouco antes de engrossar a tropa, Rodolfo falou ao contrapontoMS, em tom de lamento, que Dourados e Mato Grosso do Sul estariam perdendo a oportunidade histórica de eleger uma grande senadora da República, referindo-se à própria esposa, que tinha apalavrada com o chefe, Jair Bolsonaro, sua candidatura à Câmara Alta da República. Agora, segundo explicou resignadamente, ela deverá disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. “Mas Deus está conosco”, concluiu.
E aí reside uma das grandes virtudes da fé. Quando a realidade resolve contrariar nossos planos, sempre existe a possibilidade de acreditar que alguém lá em cima continua trabalhando em um projeto maior do que conseguimos enxergar.
O mais curioso é que o Legendários se apresenta justamente como um movimento destinado a fortalecer valores, desenvolver liderança equilibrada, promover autoconhecimento e aprofundar a espiritualidade masculina. Em tese, um ambiente perfeito para qualquer cidadão disposto a rever certezas, enfrentar limitações e refletir sobre a própria trajetória.
A história das religiões está cheia de personagens que subiram montanhas e voltaram transformados. Moisés desceu com tábuas da lei. Outros retornaram com revelações, visões ou profundas mudanças de perspectiva. Em todos os casos havia um elemento comum: algum grau de silêncio interior.
Talvez por isso eu esteja sinceramente curioso para acompanhar os próximos capítulos, a partir deste retorno.
Não é segredo para ninguém que Rodolfo se tornou um dos mais combativos representantes do bolsonarismo nacional. Seus discursos raramente são acusados de excesso de moderação. Seus adversários dificilmente o apontariam como exemplo de serenidade contemplativa. Seu estilo político costuma se aproximar mais da cavalaria ligeira do que da diplomacia vaticana.
Quem sabe quatro dias caminhando por trilhas, encarando desafios físicos, ouvindo reflexões espirituais e contemplando os horizontes da Bodoquena não produzam algum efeito benéfico. Nem que seja uma pequena redução na temperatura das redes sociais. Seria injusto exigir milagres.
Mas convenhamos: se um sujeito consegue subir uma montanha carregando todas as indignações da política brasileira e voltar apenas com uma parte delas, já estaremos diante de um feito espiritual digno de registro.
Também no Mato Grosso do Sul, e excepcionalmente em Dourados, onde o movimento é forte, a história registra inúmeros casos de homens que subiram montanhas e voltaram transformados. Também registra alguns que voltaram exatamente iguais. E, não querendo ser agourento, mas lembrando que às vésperas das eleições passadas o então prefeito Alan Guedes, crente de que a fé remove montanhas, também decidiu se enfronhar na Bodoquena. Talvez em busca das mesmas respostas que hoje movem Rodolfo Nogueira. O trauma foi tão grande que ele não quis nem esperar Marçal Filho no topo da rampa da prefeitura, para o protocolo da transmissão da faixa de prefeito, descendo pela pela porta dos fundos.
