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segunda-feira, março 9, 2026

Quando a carapuça atravessa o dial do seu rádio

A repercussão das crônicas sobre os “jornalistas-polvos” expôs um nervo antigo da imprensa douradense: o trauma do jabaculê e a confusão entre jornalismo e espetáculo na era das redes.

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Valfrido Silva

A repercussão dos textos “Das lições do caso Master ao jornalismo que se acha dono da verdade” e da primeira suíte “A carapuça” já indicava que a metáfora do jornalista-polvo tinha encontrado algum endereço no dial douradense. Até aí nada de extraordinário. O ambiente da imprensa local sempre foi sensível a qualquer reflexão que mexa com os nervos expostos da profissão. O que realmente provocou um certo alvoroço, porém, não foi propriamente o texto, mas a ilustração editorial que acompanhava a segunda crônica. A charge mostrava figuras carregando pacotes — uma alusão visual discreta, mas suficientemente reconhecível, ao velho personagem do folclore jornalístico brasileiro: o jabaculê. Nenhum nome foi citado, nenhuma acusação direta foi feita. Ainda assim, bastou a imagem circular para que algumas antenas se levantassem imediatamente.

A explicação é simples e remonta a um episódio que ainda ecoa na memória da imprensa douradense. Nos tempos em que a comunicação local orbitava basicamente em torno de jornais impressos e rádios tradicionais, o então prefeito Laerte Tetila protagonizou um momento que marcou profundamente a relação entre poder público e jornalistas ao acusar, de forma generalizada, a categoria de receber “jabá”. A reação foi forte, como seria de se esperar, mas a acusação acabou deixando uma cicatriz duradoura no ambiente profissional. Desde então, qualquer referência ao tema provoca um tipo particular de sensibilidade coletiva.

Naquele tempo, o “jabá” era associado principalmente a um segmento bastante específico do chamado jornalismo de ocasião: panfletos semanais que surgiam mais para pressionar políticos do que propriamente para informar a sociedade. Eram publicações que viviam no limite entre a denúncia e a chantagem, um fenômeno antigo na história da imprensa brasileira. O tempo passou, os meios de comunicação se transformaram e a tecnologia redesenhou completamente o mapa da informação. O problema, no entanto, não desapareceu. Apenas mudou de forma.

Com a explosão das redes sociais e a proliferação de canais improvisados de comunicação, surgiu uma nova fauna midiática. Perfis que começaram apenas reproduzindo notas frias produzidas por pequenas agências de publicidade passaram, de repente, a ocupar espaço de destaque no debate público. Hoje existem verdadeiros exércitos de comentaristas instantâneos que produzem conteúdo em escala industrial, muitas vezes alimentados por releases que, em tempos de redação tradicional, teriam destino certo: a velha “cesta sessão”, sim, cesta de lixo que ficava debaixo da mesa dos editores.

Nas redações de antigamente havia uma espécie de filtro natural chamado critério editorial. Notícias sobre a pintura da caixa d’água de uma escola ou a varrição de uma rua de bairro dificilmente sobreviveriam à primeira leitura de um editor. Hoje, porém, esse tipo de material frequentemente aparece nas redes como se fosse grande feito administrativo. E é nesse terreno fértil que floresce um novo tipo de relação entre política e comunicação.

Parte da classe política parece cada vez mais seduzida pela quantidade de visualizações e menos preocupada com a qualidade da audiência. O resultado é que conteúdos de baixa relevância acabam ganhando mais espaço do que análises, reportagens ou artigos que realmente ajudam a compreender a realidade. Enquanto isso, jornalistas que insistem em fazer apuração, contextualização e análise acabam sendo vistos quase como peças de museu num ambiente dominado pela lógica da viralização.

Nesse cenário reaparece, com novos tentáculos, a figura do jornalista-polvo, especialmente aquele que domina a famosa “latinha”, como são conhecidos os microfones radiofônicos no jargão da profissão. São profissionais capazes de comentar, na mesma manhã, um crime ocorrido na madrugada, o resultado da rodada de futebol, a cotação do dólar e os bastidores da política local — sempre com a mesma segurança de quem parece ter acompanhado cada episódio desde o início.

Entre esses personagens também aparecem os especialistas em levantar a bola para o poder de plantão. São entrevistas cuidadosamente organizadas para produzir exatamente o tipo de pergunta que prefeitos, deputados ou vereadores gostam de ouvir. Um modelo de comunicação que transforma o jornalismo em palco e o entrevistador em mero animador de auditório.

Talvez por isso a repercussão das crônicas tenha provocado tanto burburinho. Não porque tenha acusado alguém diretamente, mas porque boas metáforas costumam ter esse efeito curioso: cada um reconhece sozinho o tamanho da carapuça que resolveu vestir.

No fim das contas, fica a expectativa — aqui deste jurássico insubordinado. Que mesmo aqueles que hoje desdenham da audiência orgânica de veículos tradicionais, preferindo o conforto estatístico dos números inflados das redes, possam, quem sabe, dedicar alguns minutos da semana àquilo que sempre foi o verdadeiro combustível do jornalismo: ler. Ler um grande jornal do país, acompanhar uma reportagem bem apurada, refletir sobre um editorial ou um artigo de fundo. Para quem já esqueceu o significado disso, vale lembrar: são textos em que o jornalismo tenta explicar o mundo — e não apenas agradar quem está no poder.

Tenho dito.

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