A eleição para a reitoria da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), marcada para o dia 26 de março, traz novamente ao centro do debate um nome que já protagonizou um dos episódios mais delicados da história recente da instituição. O professor Etienne Biasotto, candidato pela Chapa 1 – Avança UFGD, retorna à disputa depois de ter liderado a lista tríplice escolhida pela comunidade universitária, mas ter sido preterido na nomeação final durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, decisão que abriu um período de forte tensão institucional dentro da universidade e reacendeu, em todo o país, o debate sobre autonomia universitária.
A candidatura de Etienne também carrega um simbolismo que remonta à própria origem da universidade. Ele é filho do professor Wilson Valentin Biasotto, um dos idealizadores da UFGD no período em que atuava como secretário de governo da gestão do então prefeito Laerte Tetila, quando Dourados discutia a implantação do conceito de cidade educadora. A universidade viria a ser criada anos depois, já no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dentro de uma política nacional de expansão do ensino superior público que transformou o mapa universitário brasileiro e consolidou a presença de instituições federais em regiões estratégicas do país.
Foi nesse contexto que a UFGD se estruturou como uma das principais instituições de ensino superior da região sul de Mato Grosso do Sul, formando profissionais, produzindo conhecimento e ampliando o acesso de estudantes de diferentes origens sociais ao ensino público. Ao longo dos anos, a universidade também passou a desempenhar papel decisivo na formação científica, cultural e econômica da região.
O episódio da lista tríplice ignorada pelo governo federal marcou profundamente a vida institucional da universidade. Após o processo eleitoral interno que indicou Etienne Biasotto para a reitoria, a decisão do Ministério da Educação de nomear uma gestão interventora provocou reação de entidades representativas de docentes, técnicos e estudantes, abrindo um período de forte debate sobre os limites da intervenção política nas universidades federais.
Agora Etienne volta à disputa acompanhado da professora Danielle Marques Vilela, candidata a vice-reitora pela mesma chapa. Professora da UFGD há 15 anos, engenheira agrônoma, doutora em Ciência dos Alimentos e atual diretora da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais, Danielle construiu sua trajetória acadêmica entre ensino, pesquisa e gestão universitária e afirma que um dos compromissos centrais da candidatura é consolidar uma universidade mais democrática, inclusiva e comprometida com as transformações sociais que atravessam o ambiente acadêmico.

Segundo ela, o crescimento da presença feminina nos espaços universitários é uma realidade que precisa ser consolidada também nos espaços de decisão institucional. Para isso, a chapa defende o fortalecimento de políticas voltadas ao enfrentamento das violências de gênero, à prevenção do assédio e à construção de ambientes acadêmicos mais seguros e acolhedores.
Entre as propostas apresentadas estão o fortalecimento da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, a implementação plena do Protocolo de Não Revitimização, a ampliação da Ouvidoria da Mulher e Diversidade e a criação de mecanismos permanentes de monitoramento das políticas institucionais voltadas à equidade.
A candidata a vice também destaca a necessidade de ampliar as condições de permanência acadêmica para estudantes que enfrentam desafios adicionais no cotidiano universitário, especialmente mulheres que conciliam estudos, trabalho e responsabilidades familiares. Nesse sentido, a chapa propõe políticas institucionais relacionadas à maternidade, paternidade e cuidado familiar, além de ações voltadas à ampliação da presença feminina em espaços de liderança dentro da universidade.
Outra iniciativa prevista é o programa “Ler Mulheres na Universidade”, que busca estimular a presença de autoras nas bibliografias e nas atividades formativas, além da criação de editais específicos de incentivo à pesquisa e extensão coordenadas por mulheres.
A chapa também defende o fortalecimento do Hospital Universitário da UFGD, considerado estratégico tanto para a formação de profissionais da área da saúde quanto para o atendimento da população da região sul do Estado. A proposta prevê ampliar a integração entre hospital e universidade, fortalecer programas de residência e garantir melhores condições de formação e trabalho dentro da estrutura hospitalar.
Para Danielle, a eleição representa um momento importante de reflexão sobre o projeto de universidade que a comunidade acadêmica deseja construir nos próximos anos. Segundo ela, os avanços institucionais dependem de compromisso público, planejamento e participação coletiva.
No dia 26 de março, estudantes, professores e técnicos administrativos irão às urnas para escolher os novos dirigentes da universidade. Mais do que uma disputa administrativa, a eleição ocorre num momento em que a UFGD revisita sua própria história — de universidade criada no ciclo de expansão das federais no governo Lula, atravessada por um período de intervenção política e agora chamada novamente a decidir, pela força do voto da comunidade acadêmica, os rumos de sua gestão.
