Como não falar? Idealizado pelo ator Juliano Cazarré, conhecido por papéis na TV Globo e por posicionamentos conservadores, o evento “O Farol e a Forja” se autodenomina o “maior encontro de homens do Brasil”. Previsto para ocorrer entre os dias 24 e 26 de julho, em São Paulo, o curso promete resgatar o “papel de liderança” da figura masculina na sociedade, combatendo o que o organizador classifica como “desamparo”, “perda de rumo” e “enfraquecimento” dos homens.
O evento, que cobra por inscrições e propõe imersão com palestrantes sobre liderança, empreendedorismo, paternidade, saúde masculina e vida espiritual, tem como público-alvo explícito aqueles que se “recusam a ficar calados”. Em sua divulgação, Cazarré afirma que “a família sente, a criança sente, a sociedade sente a falta do pai” e que o objetivo é ensinar homens “desamparados a retomarem seu papel de liderança”.
A proposta de “redenção” do homem pode passar por uma retomada de valores patriarcais, de homem provedor, líder inquestionável e da mulher em papel de submissão. Discursos como esses alimentam uma fantasia de dominância que serve de “verniz moral” para a violência doméstica.
Os números dão materialidade à preocupação. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registra, em média, quatro feminicídios por dia. Mato Grosso do Sul, estado natal do ator, ocupa a 3ª posição no ranking nacional, com taxa de 2,7 mortes por 100 mil mulheres, atrás apenas de Acre e Rondônia. A maioria dos crimes ocorre dentro de casa, praticados por companheiros ou ex-companheiros.
A dura realidade social contrasta com o imaginário de “família tradicional” vendido por certos setores. Estatísticas do IBGE mostram que o núcleo familiar “pai, mãe e filhos” é cada vez menos a regra: cerca de 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, e oito em cada dez domicílios monoparentais são liderados por mães solo. Dados de cartórios indicam que mais de 100 mil crianças (6,8%) são registradas, por ano, sem o nome do pai na certidão de nascimento.
Há ainda um paradoxo no discurso do “resgate da paternidade”. Enquanto o ator propõe empoderar homens, a realidade mostra um padrão de abandono oposto: pesquisas indicam que mulheres diagnosticadas com doenças graves têm probabilidade muito maior de serem abandonadas por parceiros do que homens na mesma situação, fenômeno que estudiosos chamam de “abandono no adoecimento”.
Na esteira da polêmica, vozes femininas se dividiram. Se atrizes como Marjorie Estiano, Claudia Abreu, Elisa Lucinda, Guta Stresser e Julia Lemmertz criticaram o evento, outras mulheres, anônimas e públicas, saíram em defesa de Cazarré. Essa defesa muitas vezes espelha uma adesão a uma fantasia de estabilidade familiar que não resiste aos dados: 41% das mulheres evangélicas, por exemplo, já sofreram algum tipo de violência doméstica, segundo pesquisas recentes.
Em meio às críticas, Cazarré adotou tom de enfrentamento, afirmando que “já foi cancelado várias vezes” e que não recuaria. Sua esposa, a influenciadora Leticia Cazarré, publicou mensagem sobre “reinvenção”, interpretada por seguidores como resposta indireta.
A questão que fica, para analiste, é como conciliar um discurso de “fortalecimento masculino” num país onde a violência do homem contra a mulher já produziu, nos últimos anos, milhares de órfãos e destruiu incontáveis núcleos familiares. Enquanto o evento promete “salvar” homens perdidos, os dados indicam que o maior risco para a mulher brasileira continua sendo o homem de dentro de casa.
Anita Tetslaff
Jornalista, Professora, Doutoranda em Educação, políticas públicas.
