Imagine uma vitrine. Nela, produtos expostos, cada um com seu valor, sua etiqueta, sua posição estratégica para chamar atenção de quem passa. Agora troque os produtos por pessoas. Foi mais ou menos essa a sensação que ficou ao ler o release que anunciava, com entusiasmo protocolar: “Em sessão solene, Marcelo Mourão homenageia ‘Mulheres de Valor’” (sic). Foi uma homenagem a 38 mulheres da cidade, pela passagem do Dia Internacional da Mulher. A pergunta surge quase automática: quanto vale uma mulher? Pode parecer provocação exagerada, mas nasce da forma como as palavras foram colocadas, da ênfase entre aspas. Uma infelicidade do pobre redator, talvez.
Valor. Palavra curiosa. No comércio, define preço. Na política, muitas vezes define conveniência, circunstância, afinidade ou oportunidade, para não ficarmos na demagogia pura e simples.
A sessão foi proposta pelo vereador Marcelo Mourão (PL) em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. À primeira vista, tudo dentro do roteiro clássico das solenidades institucionais: discursos emocionados, agradecimentos, aplausos, familiares orgulhosos, fotos para registro e a sensação geral de que o reconhecimento público foi devidamente prestado. Afinal, homenagens são parte do cotidiano do Legislativo municipal e sessões solenes são quase um ritual nas câmaras de vereadores Brasil afora. O problema é que o Dia Internacional da Mulher nunca foi apenas isso. O 8 de Março nasceu como um marco de luta, uma data que remete à reivindicação por direitos, igualdade, respeito e dignidade, muito mais do que um convite para cerimônias festivas ou gestos protocolares. Basta abrir qualquer portal de notícias para perceber que a realidade continua dura: o Brasil segue convivendo com índices alarmantes de violência contra mulheres e o feminicídio virou presença quase cotidiana nas manchetes.
É nesse ponto que o conceito de “valor” começa a incomodar. Porque quando se fala em “mulheres de valor”, inevitavelmente surge outra pergunta: quem define esse valor? A solenidade aconteceu justamente numa Câmara presidida por uma mulher — a vereadora Liandra Brambilla. Ainda assim, ao que tudo indica, nem ela apareceu entre as homenageadas da noite. Curioso, para dizer o mínimo. Mais curioso ainda é lembrar que naquele mesmo plenário atua uma das personagens femininas mais controversas da política douradense recente: Isa Cavala Marcondes. Polêmica, sem dúvida, mas também a vereadora mais votada das últimas eleições. Uma mulher que entrou na política sem pedir licença aos padrões tradicionais e que ganhou notoriedade ao afirmar, em campanha, que “já que Dourados está uma zona, de zona eu entendo”. Goste-se ou não da frase, ela virou voto — e voto expressivo. Dois exemplos, apenas, de mulheres de valor e que foram esquecidas pelo nobre colega Mourão.
E aí voltamos ao ponto inicial: qual é o critério? Porque quando se cria uma lista desse tipo, o risco é transformar reconhecimento em classificação simbólica, algo que lembra até escalação de time de futebol: algumas entram em campo, outras ficam no banco e muitas sequer são chamadas para o jogo. Enquanto isso, fica a dúvida inevitável sobre quantas mulheres que realmente movem esta cidade ficaram fora dessa vitrine simbólica. Quantas enfermeiras que atravessam madrugadas em plantões intermináveis nos hospitais. Quantas médicas da rede pública. Quantas merendeiras que garantem alimentação nas escolas. Quantas lideranças indígenas — num município que convive diariamente com a triste realidade das aldeias. Quantas líderes comunitárias que resolvem problemas onde o poder público raramente chega. Mulheres que nunca aparecem em releases oficiais, mas sem as quais a engrenagem da cidade simplesmente não gira.
Não se trata, evidentemente, de desmerecer as homenageadas — muitas certamente têm trajetórias respeitáveis e histórias dignas de reconhecimento. O problema está na lógica da vitrine. Porque quando política e homenagem se misturam, o gesto simbólico quase sempre vem acompanhado de um segundo objetivo: capital político. Tanto que, no meio da cerimônia dedicada às “mulheres de valor”, o vereador também aproveitou a ocasião para apresentar um balanço das ações de seu mandato, algo absolutamente comum em eventos desse tipo, onde a solenidade acaba funcionando também como espaço de prestação de contas e exposição pública da atuação parlamentar. Nada irregular. Política é assim mesmo. Mas o detalhe ajuda a explicar por que certas solenidades às vezes parecem menos reconhecimento e mais palco cuidadosamente iluminado.
Por isso, a sessão solene levanta uma reflexão que talvez não estivesse prevista no roteiro da noite. Porque quando se usa a palavra “valor” para classificar pessoas, a homenagem inevitavelmente produz também uma comparação. E comparação, em política, quase sempre gera ruído. A pergunta então permanece no ar — e provavelmente continuará ecoando depois que as luzes do plenário se apagam e os discursos terminam: quem decide o valor de uma mulher? E mais importante ainda: será que o verdadeiro valor da mulher cabe mesmo numa lista de 38 nomes escolhidos dentro de um gabinete político? Porque, dependendo da resposta, o que parecia homenagem pode acabar revelando algo bem diferente — uma velha regra da política brasileira: a da faca de dois “legumes”.
