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sábado, março 14, 2026

Do Jaguapiru ao ‘fim do mundo’, a descoberta do Albardão, na presença de Anita

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Valfrido Silva

Eu estive lá, vi com estes olhos que a terra há de comer. Passando Pelotas, um retão de 200 km da Praia do Cassino até Santa Vitória do Palmar, daí mais 8 km e a sensação de ter chegado ao “fim do mundo”. “Fim do mundo” decretado pela minha companheira de viagem, Anita Tetslaff, já na altura do Porto de Rio Grande, de onde queria voltar ou ali mesmo montar barraca. Não, nem era ainda o fim do mundo nem do Brasil: para isso são necessários mais 9 km de areia para chegar à pequenina Praia do Chuí, enfim, a última do Brasil Sul.

O Hermenegildo não passa de um vilarejo. Meia dúzia de barzinhos beira-mar, uma mercearia, algumas pousadas, um açougue, uma padaria, uma capelinha e o comércio reduzido a três ruas, com habitações bucólicas — enfim, a nossa “Macondo”, se Gabriel García Márquez resolvesse fazer ali uma parada para seus romances. O orgulho dos moradores: o “Hermena” é a maior praia do mundo. Está até no Guinness. Mas, se havia controvérsias, já que o começo de tudo é na praia do Cassino, agora elas aumentarão, com certeza, com a criação do Parque Nacional do Albardão.

Chegamos ao Hermena num 31 de dezembro. No bar que era o point da galera, para a nossa “virada”, o melhor que encontramos foi uma porção de salsicha com uma cerveja barata em latinha. Nada de espumante nem ceia de réveillon — apenas o vento do Atlântico e aquela sensação de solidão que faz a gente perceber o tamanho do mundo e o tamanho da gente dentro dele. Confesso que ali, diante daquela imensidão de areia e horizonte, deu vontade de fazer algo que nas cidades pareceria loucura: correr pelado pela praia. Não por exibicionismo, mas por aquela sensação de liberdade absoluta que só existe em lugares onde a presença humana é quase um detalhe da paisagem. Ali, sim, o legítimo cafundó de Judas.

Do Jaguapiru ao 'fim do mundo', a descoberta do Albardão, na presença de Anita
Praia do Hermenegildo, a maior faixa de areia contínua do mundo, no município de Santa Vitória do Palmar (RS) – FOTO: divulgação

Minha presença naquele pedaço remoto do mapa tinha uma explicação familiar. Meus filhos do meio — a número dois e o número três — costumavam passar ali as férias de fim de ano em companhia do padrasto, Carlos Canabarro, nativo do lugar e profundo conhecedor daqueles ventos e daquelas areias. Fui até lá para conhecer o cenário das histórias que eles traziam das temporadas de verão. E conheci. É daquelas viagens que vale a pena fazer uma vez na vida, talvez apenas uma vez, sem demérito algum ao lugar, claro, que tem uma beleza silenciosa que não se mede em infraestrutura.

Aliás, foi ali por perto, atravessando a fronteira para o Chuí do lado uruguaio, que vivi uma pequena cena que diz muito sobre a lógica da nossa economia fronteiriça. Depois de atravessar a Avenida Internacional deles para umas comprinhas de praxe, parei numa cafeteria. Pedi um simples pingado. Veio a conta. Reclamei do preço. O atendente, com seu sotaque em portunhol, explicou com toda naturalidade: “Mas señor, es caro porque el café es importado.” Ao que perguntei: importado de onde? E ele respondeu, sem titubear: “Do Brasil.”

Mas voltemos ao Albardão. O decreto que oficializou semana passada o maior parque nacional marinho costeiro do país — o Albardão — não é apenas uma canetada burocrática sobre um pedaço de mapa; é o reconhecimento de que aquele “nada” é, na verdade, um tudo absoluto. Entre o Cassino e o Hermenegildo, o que existe é um deserto de areia e céu, um santuário de dunas móveis onde o tempo não se mede por relógio, mas pelo ritmo das marés e pelo grito das gaivotas. Agora o Albardão deixa de ser apenas o recheio desse sanduíche de areia para ganhar nome próprio e certidão de nascimento ecológica. Para o morador do Hermena, que sempre inflou o peito para falar do Guinness, a novidade chega com um sabor de dúvida: afinal, onde termina a praia e onde começa o parque?

A resposta, para quem já cruzou aquela imensidão, pouco importa. O que vale é a preservação desse vácuo civilizatório, desse corredor de solidão onde o Farol do Albardão se ergue como um sentinela esquecido por Deus, guiando navios que mal conseguem ver a costa. A criação do parque é um freio de arrumação na sanha do progresso que, vira e mexe, tenta lotear até o vento. No Albardão, a natureza é bruta, sem filtros — como o Fantástico mostrou semana passada uma daquelas antológicas reportagens de Sônia Bridi e Paulo Zero — sem as facilidades dos calçadões urbanos. É ali que o Brasil deita para descansar, longe do barulho das capitais e da frenética política que consome os nossos dias.

Se o Hermena é a nossa Macondo, o Albardão é o reino da solidão que a cerca, um espaço onde a areia engole as pegadas quase no mesmo instante em que são feitas. Talvez por isso a Anita até quisesse voltar: há algo de assustador e, ao mesmo tempo, libertador em perceber o quão pequenos somos diante daquela linha de horizonte que se recusa a terminar. No fim das contas, a maior praia do mundo agora tem um guardião oficial, e o viajante que se atrever a descer até o Chuí saberá que, entre um balneário e outro, o Brasil ainda guarda um segredo de duzentos quilômetros de paz, vento e memória.

E quem chega até ali entende uma coisa simples: às vezes o fim do mundo não é um lugar — é apenas o começo do silêncio.

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