Valfrido Silva
Enquanto esquentava a água para o primeiro café do dia, vislumbrava ao longe, por cima dos condomínios fechados que avançam sobre o meu Jaguapiru, a torre da RIT — a Rede Internacional de Televisão — e me veio à memória a minha própria história com ela, ainda TV Caiuás, que remonta aos seus primórdios, ainda filha legítima de José Elias Moreira, nascida no mesmo caldo político que gestou o Centrão no Congresso Nacional, quando o onipresente ACM, Antônio Carlos Magalhães, comandava o Ministério das Comunicações no governo Sarney. Era um Brasil em que concessão de TV não era apenas negócio: era moeda política, poder e influência empilhados em forma de antena.
A história se repete no Mato Grosso do Sul como uma piada de mau gosto contada num balcão de bar, entre um gole de tereré e uma tragada de saudade. Na época da construção de Itaipu, dizia-se à boca pequena que o negócio era a maior simbiose do continente: o Brasil entrava com o dinheiro, a engenharia e a dívida, enquanto o Paraguai entrava generosamente com a barranca do Rio Paraná. Décadas depois, aqui em Dourados, a segunda cidade do Mato Grosso do Sul assistiria a uma reedição desse “acordo binacional” de um homem só.
Quando fui convocado pelo lendário Arceno Athas — o homem que deu régua e compasso à TV Morena antes de se aventurar na estruturação da TV Caiuás — para escrever a “literatura” que seduziria o reverendo R.R. Soares para investir em Dourados, abri o texto evocando Pero Vaz de Caminha: “nesta terra, em se plantando, tudo dá”. E como deu. O missionário olhou para a pequena retransmissora da Band, uma “galinha morta” que passou pelas mãos do grupo do Correio do Estado e enxergou ali o seu Canaã midiático. Criou a RIT, a Rede Internacional de Televisão, com sede jurídica na terra de seu Marcelino.
Mas o milagre da multiplicação dos pães, neste caso, acontece com o sinal de satélite: a concessão é douradense, o “corpo” da emissora ocupa o nosso solo, mas a alma, o faturamento e o dízimo batem ponto, em São Paulo, onde fica o sistema operacional, e no Rio, a sede administrativa. Ou seja, enquanto a RIT deveria projetar o nome da segunda maior cidade do Mato Grosso do Sul para o Brasil e o mundo, já que é “internacional”, o “dízimo” tributário pega o atalho da Via Dutra e deixa para o município apenas o papel de figurante de luxo em uma concessão de milhões, com uma programação basicamente ancorada em cultos religiosos, diga-se de passagem.
Dourados, ficou, assim, como a barranca do Rio Paraná de R.R. Soares. Geramos para o Brasil inteiro, do Oiapoque ao Chuí, mas na hora de passar o chapéu do ISS no município, o silêncio é de catedral em dia de segunda-feira. A prefeitura diz que não há contencioso — o que é quase pior do que uma disputa judicial. Significa que aceitamos, com uma resignação quase litúrgica, o papel de figurantes numa potência internacional que usa nosso CEP como um “laranjal técnico” para reduzir custos de uma geradora que opera no eixo Rio-São Paulo.
O reverendo plantou a fé e colheu uma rede nacional de baixo custo. Dourados, fiel à sina descrita por Caminha, continua sendo a terra onde tudo dá, inclusive o benefício fiscal de quem usa a nossa antena para retransmitir de São Paulo para o mundo. Se pelo menos deixassem para nós o consolo simbólico de ver o nome da cidade nos créditos finais… Mas nem isso! O imposto real, aquele que vira asfalto, remédio e escola, esse segue viagem.
É a prova de que, na literatura da vida real, o encantamento vira engenharia tributária. E que, no grande roteiro das concessões brasileiras — das gigantes Globo, SBT e Band às pequenas e improváveis redes do interior — a lógica raramente muda: alguém planta a estrutura, outro colhe o resultado. Tudo, claro, “em nome de Jesus”, conforme o bordão de R.R. Soares.
