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sexta-feira, março 20, 2026

Prefeito que governou o Rio por mais tempo, Eduardo Paes deixa o cargo com legado de obras, para disputar o governo do estado

Paes renuncia para disputar o governo do estado deixando obras emblemáticas e avanços em áreas como mobilidade e urbanismo, mas também promessas pendentes

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Eduardo Paes (PSD), o prefeito que governou por mais tempo o Rio de Janeiro — foram 4.827 dias, em quatro mandatos —, renuncia hoje ao cargo para se candidatar ao governo do estado pela terceira vez. Ele se despede do Palácio da Cidade, deixando a marca de um gestor que derrubou o Elevado da Perimetral, mudando a cara da Zona Portuária com o Boulevard Olímpico, criou parques públicos nas zonas Norte e Oeste e iniciou a reocupação do Centro com o programa Reviver. Mas deixará nas mãos de seu vice, Eduardo Cavaliere, a missão de zerar a fila de consultas médicas e cirurgias na rede pública, uma promessa de campanha não cumprida, e de combater a desordem urbana — estacionamento irregular, precariedade na iluminação pública e buracos nas ruas estão entre as principais queixas dos cariocas.

Caixa apertado

Os últimos cinco anos de governo foram com o caixa municipal mais limitado, situação diferente das duas primeiras legislaturas (2009-2016), quando a cidade teve dinheiro — de recursos próprios, empréstimos e parcerias — para botar de pé os grandes projetos para a Olimpíada de 2016, por exemplo. Mesmo com recursos da venda da Cedae (cerca de R$ 5 bilhões, parcelados), Paes recorreu a empréstimos para tocar obras nas duas últimas administrações.

Ao voltar à prefeitura após a gestão de Marcelo Crivella (2017-2020), Paes enfrentou um “recomeço”. O que deu mais dor de cabeça — e despesa — foi a mobilidade urbana. Foi preciso recuperar o sistema de BRTs, assim como concluir o Transbrasil (trecho Deodoro-Caju), que patinava havia quase dez anos. O corredor foi inaugurado em março de 2024 — sete anos depois do previsto —, com o Terminal de Integração Gentileza (TIG), no Caju, além de uma expansão do VLT.

Ainda no setor de transportes, criou um sistema de subsídio para que as empresas de ônibus recolocassem nas ruas coletivos que tinham sumido durante a pandemia e instalassem ar-condicionado nos veículos, o que ainda está em andamento. Implantou o Jaé, que tirou dos empresários o controle sobre a bilhetagem e fez o passageiro enfrentar longas filas para receber o novo cartão. A reorganização do setor, no entanto, está só começando, com a licitação das linhas por regiões.

A antiga promessa para melhorar a mobilidade na Zona Sul feita lá em 2016 voltou a ficar no papel. Reciclado em 2023, o projeto de um VLT de 10,4 quilômetros entre Botafogo e o Leblon, com custo estimado em R$ 1,7 bilhão, não deslanchou. Em outra frente, comandou iniciativas para recuperar o protagonismo do Aeroporto Internacional Tom Jobim, em um esforço para atrair mais voos e turistas para a cidade.

A prefeitura teve que empreender esforços para recuperar o programa Saúde da Família. Na gestão do antecessor de Paes, a cobertura do serviço caiu de 70% para 34,9% da população. Com a contratação de novos profissionais, em cinco anos o percentual bateu 73,89% no fim do ano passado.

A rede de saúde foi reorganizada durante a pandemia com a aposta de centralizar o tratamento das vítimas de Covid-19 no Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari. Mas conseguir uma consulta ou um exame na rede pública hoje ainda é um desafio. No último dia 18, o tempo médio na fila do Sistema de Regulação (Sisreg) chegava a 105 dias, contra 160 há seis anos. Na cardiologia, o paciente aguarda até 234 dias. Mas o prefeito que deixa hoje o cargo cumpriu a promessa de oferecer Ozempic na rede municipal. Ou, pelo menos, começou. Anteontem, o próprio Paes aplicou a injeção na primeira paciente no Super Centro de Saúde de Campo Grande, na Zona Oeste.

Na área de urbanismo, entre as principais iniciativas está o Reviver Centro, que tenta dar um perfil mais residencial para a região central do Rio, ainda hoje com centenas de escritórios e lojas comerciais fechados desde o isolamento social imposto pela pandemia.

O projeto concede incentivos fiscais e urbanísticos para construir residenciais ou converter imóveis em nova moradia. Das 8.702 unidades autorizadas desde 2021, apenas 1.256 apartamentos receberam o habite-se. Em paralelo a isso, a prefeitura elegeu âncoras para ajudar na revitalização. Uma delas é o Edifício A Noite, primeiro arranha-céu da cidade, comprado pelo município e revendido para uma empresa que está transformando o imóvel na Praça Mauá em residencial de luxo.

O prédio fica diante do Boulevard Olímpico, construído para os Jogos de 2016 após a demolição da Perimetral. A região do Porto Maravilha, antes esquecida, se consolidou como nova área de lazer. Na mesma vizinhança, fica a Estação Leopoldina, que começou a ser restaurada.

O Rio não teve, nos últimos cinco anos, uma obra da dimensão do Porto Maravilha, mas, diante dos eventos climáticos extremos, a prefeitura optou por espalhar áreas verdes pela cidade. No rastro do sucesso do Parque Madureira, de 2012, foram abertos o Suzana Naspolini, em Realengo (que ainda será ampliado), o Arlindo Cruz, em Piedade (em fase de conclusão de obras para receber uma escola técnica), o Oeste, em Inhoaíba, e o Pavuna.

Desordem urbana

A obra mais cara dessa gestão — em fase final de conclusão — é o Anel Viário de Campo Grande. As intervenções para reorganizar o trânsito do maior bairro do Brasil — com mais de 350 mil habitantes — vão custar R$ 838 milhões. Os recursos para o projeto, que inclui a abertura de dois túneis, um já concluído, estão garantidos por empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Para atender a uma das principais queixas da população — sobre a falta de segurança —, a prefeitura conseguiu aprovar uma lei na Câmara dos Vereadores para a Guarda Municipal ter o direito de portar armas. Assim foi criada a Força Municipal, que estreou nas ruas há cinco dias. A primeira turma tem 600 guardas, e o patrulhamento contra roubos e furtos começou paulatinamente.

A prefeitura decidiu combater crimes, mas não levou adiante o choque de civilidade, projeto que Paes anunciou poucos dias antes de assumir seu quarto mandato. O ordenamento urbano — marca de suas primeiras gestões ao decidir criar a Secretaria de Ordem Pública em 2009 — não foi tão intenso, e se multiplicam queixas de ocupações irregulares de calçadas, ação de flanelinhas e buracos nas ruas, assim como a falta de ações eficientes para as pessoas em situação de rua.

Luiz Ernesto Magalhães/O Globo — Rio de Janeiro

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