Tem dias em que a realidade parece pronta para virar crônica, e hoje é um deles. Com Lula em Campo Grande para a abertura da COP-15, na terra do mar de Xaraés, o que se vê não é apenas a chegada de um presidente, mas o encontro de dois mundos que, no Brasil, insistem em caminhar em direções opostas: o da política que precisa do povo e o da segurança que insiste em mantê-lo à distância.
Antes mesmo da agenda começar, o Comando Militar do Oeste tratou de “fechar” o Parque dos Poderes. Justificativa? A presença de chefes de Estado, o protocolo internacional, a segurança reforçada. Tudo compreensível — até certo ponto. Porque, no limite, proteger autoridades é dever. O problema é quando a proteção começa a se confundir com isolamento. E aí entra a contradição.
Lula, que construiu sua trajetória justamente no contato direto com o povo — e que, ao contrário do general presidente João Figueiredo, nunca escondeu que gosta do cheiro de gente — chega a um Estado onde o ambiente político lhe é, no mínimo, adverso. Mato Grosso do Sul é território onde o agronegócio fala alto e onde o bolsonarismo costuma ganhar de goleada. Não é exatamente um terreno confortável. O que, em tese, tornaria ainda mais necessário o gesto político de aproximação.
Mas o que se vê é o contrário: grades, restrições, distanciamento. O povo, que poderia ser ativo político, vira elemento de risco. E, nesse jogo, quem deveria ser aliado acaba tratado como variável incômoda. Há um erro de leitura aí.
Em tempos de polarização, presença popular não é ameaça, é ativo. É demonstração de força, de legitimidade, de capacidade de mobilização. Ainda mais para um presidente que, goste-se ou não, sempre se alimentou desse contato direto, quase visceral, com a rua.
Fechar o Parque dos Poderes, nesse contexto, não é apenas uma decisão de segurança. É, no mínimo, um equívoco político. Porque impede aquilo que poderia ser um gesto simbólico importante: o presidente dialogando com uma população que, majoritariamente, não votou nele. Um gesto que, em outro cenário, poderia ser interpretado como disposição ao diálogo. Agora, corre o risco de ser lido como distância. E distância, em política, raramente ajuda.
Assim, entre o protocolo internacional e o cheiro do povo, optou-se pelo primeiro. Resta saber se, no saldo final, essa escolha não vai pesar mais do que qualquer discurso feito dentro de auditórios bem protegidos. Porque, no futebol, e na política, tem lance que não precisa de replay. É gol contra na hora, mesmo com revisão do VAR.
