Eleito pela comunidade acadêmica lá atrás, mas afastado impedido de assumir por decisão do governo Jair Bolsonaro num contexto da intervenção na UFGD, o professor Etienne Biasotto retornou agora às urnas da instituição após um período em que a escolha do reitor da universidade ficou suspensa no tempo. Sua eleição, neste momento, ultrapassa o rito formal e se impõe como reparação institucional, encerrando um ciclo que, embora recente, deixou marcas profundas na história da universidade.
Mais do que uma vitória circunstancial, trata-se também de uma homenagem — ainda que tardia — ao professor Wilson Valentin Biasotto, um dos ideólogos da instituição, cuja criação e implantação foi ombreada desde a origem por lideranças como o então prefeito Laerte Tetila e os deputados João Grandão e Geraldo Resende, num tempo em que a universidade ainda não era uma realidade consolidada. Não é apenas um sobrenome que retorna ao centro da instituição, mas uma linha histórica que se reconecta, ainda que sob outras circunstâncias.
A comunidade universitária decidiu, nas urnas, esta semana, pela Chapa 1 — Avança UFGD, que elegeu Etienne Biasotto e a professora Danielle Marques Vilela com 56,3% dos votos, vencendo nas três categorias que compõem o colégio eleitoral interno: docentes, técnicos administrativos e estudantes. Um resultado que, mais do que expressivo, carrega consigo um significado que vai além da soma dos votos, ao indicar não apenas preferência, mas uma espécie de alinhamento institucional em torno de um projeto que se apresenta como continuidade com avanço.
Biasotto não é um nome que surge agora no cenário. Ao contrário. Foi o mais votado na eleição anterior, mas acabou impedido de assumir em função da decisão do governo federal à época de não reconhecer o resultado da consulta e nomear gestões pró-tempore, em um movimento que tensionou a autonomia universitária e rompeu com uma tradição historicamente respeitada no âmbito das instituições federais de ensino. O que se vê agora, portanto, não é apenas uma vitória eleitoral, mas uma resposta construída no tempo — menos ruidosa, mais consistente.
Ao lado de Biasotto, a professora Danielle Marques Vilela assume a vice-reitoria, trazendo consigo uma trajetória consolidada no ensino, na pesquisa, na extensão e na gestão universitária. A chapa vitoriosa conduziu uma campanha pautada na valorização da comunidade acadêmica, com ênfase em políticas de inclusão, permanência estudantil, enfrentamento às violências e fortalecimento institucional, especialmente no que diz respeito ao Hospital Universitário, um dos pilares mais sensíveis e estratégicos da universidade.
O processo eleitoral deste ano carrega, inevitavelmente, o peso simbólico do período entre 2019 e 2022, quando a UFGD viveu sob intervenção federal, num contexto que extrapolou a disputa interna e passou a representar um embate mais amplo sobre os limites da autonomia universitária. A eleição desta semana, nesse sentido, não apaga o passado recente, mas o reposiciona dentro de uma narrativa que reafirma a capacidade da instituição de retomar seu próprio rumo.
As demais chapas — encabeçadas por Marisa Lomba e Sidnei Azevedo, que obtiveram 29,2% dos votos, e por Gicelma Chacarosqui e Arquimedes Gasparotto Junior, com 11,9% — participaram de um processo que, desta vez, transcorreu dentro da normalidade institucional, o que, em determinados contextos, já representa por si só um avanço relevante. Porque, quando a exceção se instala, a normalidade deixa de ser trivial e passa a ser conquista.
O que se desenha agora não é apenas a escolha de uma nova gestão, mas a reafirmação de um princípio que sustenta a própria ideia de universidade pública: o de que decisões coletivas, construídas no âmbito da comunidade acadêmica, devem ser respeitadas não como concessão, mas como regra. E, nesse ponto, a eleição de Etienne Biasotto e Danielle Vilela devolve à UFGD algo que havia sido tensionado, mas não perdido — a capacidade de decidir sobre si mesma.
