Cada vez mais presentes nos campos de batalha desde a eclosão da Guerra da Ucrânia, há quatro anos, os drones militares ganharam protagonismo global e passaram a integrar de forma mais estruturada a agenda das Forças Armadas brasileiras. Nos últimos meses, novos projetos marcaram a entrada do país na corrida por essa tecnologia, considerada barata e capaz de causar grande efeito contra alvos muito mais caros, ampliar o alcance das operações, com menor exposição de militares. Depois de inaugurar, em dezembro do ano passado, o primeiro esquadrão de drones do país, a Marinha abriu, no último dia 17, uma escola para treinar fuzileiros navais no uso desses equipamentos. As iniciativas, no entanto, ainda são cercadas de desafios, apontam especialistas.
O recém-inaugurado Esquadrão de Drones Táticos de Esclarecimento e Ataque da Marinha, instalado no Complexo Naval da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, já desenvolve, entre os projetos, um drone kamikaze, que se autodestrói ao atingir o alvo, e um quadricóptero capaz de transportar e soltar explosivos.
— É uma mudança grande dentro da Marinha, pois vamos precisar de gente capacitada em análise de dados, big data, eletrônica e aviônica. Vai causar grande evolução em pouco tempo — disse o capitão de Mar e Guerra Rodrigo Rodrigues, à frente do esquadrão.
Para preparar militares que saibam operar essas aeronaves não tripuladas, tanto em missões de vigilância quanto em ações ofensivas, a Marinha inaugurou este mês a Escola de Drones, onde oficiais também estudarão as aplicações da tecnologia. A unidade fica no Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo, próximo ao esquadrão, e a ideia é que todo fuzileiro naval passe pela instituição.
— Vai ser o repositório de todo o nosso conhecimento, do que está acontecendo nas guerras e de como os países estão lidando com essa inovação — afirma o vice-almirante Renato Rangel, responsável pelo treinamento. — O cabo, o sargento, o tenente, o comandante já sairão do centro de instrução sabendo pilotar e conhecendo as vantagens, técnicas e táticas do emprego de drones.
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Formação de soldados
Na avaliação do coronel da reserva e mestre em Ciências Militares Paulo Filho, os drones mudaram a dinâmica dos conflitos e exigem adaptações na formação de soldados e oficiais. O aprendizado deve contemplar tanto a operação e o emprego ofensivo quanto a proteção contra essas aeronaves. A tecnologia também reduziu o chamado “nevoeiro de guerra”, expressão que descreve a falta de informações no campo de batalha.
— Quase todo movimento das tropas poderá ser observado por um drone inimigo em tempo real. Isso força os exércitos a se dispersarem e se camuflarem melhor, a abandonarem grandes concentrações de tropas e a se deslocarem com mais cautela — diz Filho. — Isso exige soldados e oficiais mais preparados para tomar decisões rápidas, sob pressão.
A pesquisadora Cinthya Araújo, do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), aponta que a variedade de tecnologias adotadas por cada força, com drones adquiridos de empresas distintas, é um dos desafios para a integração e o preparo dos militares. Outro ponto é a retenção de mão de obra.
— Precisamos de escala de produção e de pessoas suficientes para operar esses sistemas. Vemos pilotos da FAB migrando para a aviação comercial. O que impede os militares treinados de enxergar mais vantagens no uso civil dos drones? — questiona. — As Forças Armadas vivem uma transição. Tentamos acelerar porque o Brasil perdeu o timing do início da guerra da Ucrânia e percebeu tarde a importância dessa tecnologia.
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‘Enxames’ e kamikazes
Inspirado no veículo aéreo não tripulado Carcará, usado pela Marinha em operações de reconhecimento desde 2007, o drone kamikaze teve testes finalizados em outubro passado, em operação em Formosa (DF). O equipamento tem alcance de até 5km e autonomia de 25 minutos.
— É um equipamento barato que consegue causar grande efeito contra sistemas muito mais caros — diz o capitão Rodrigo Rodrigues, acrescentando que partes das aeronaves podem ser feitas em impressoras 3D.
O impacto dessa tecnologia aparece no conflito do Oriente Médio, que envolve forças dos EUA e Israel contra o Irã. Nele, mísseis Patriot de US$ 4 milhões são usados para derrubar drones kamikaze iranianos Shahed-136, que custam cerca de US$ 20 mil. Muitos são interceptados, mas parte consegue atingir os alvos.
— Com a aceleração do projeto e compras em escala com fornecedores, calculamos um custo entre R$ 10 mil e R$ 20 mil — diz Rodrigues sobre os kamikaze brasileiros.
Apesar de operar com navegação autônoma pré-programada, o drone pode ser controlado pelo piloto. O desenvolvimento exigiu adaptações, como a criação de uma catapulta para lançamento, já que o Carcará decola ao ser arremessado manualmente.
— Criamos a catapulta para que o soldado não precise fazer o drone decolar com um explosivo na mão — explica Rodrigues.
Essa estratégia pode evoluir. Fuzileiros navais desenvolvem um projeto de inteligência artificial que permitirá às aeronaves identificar e atacar alvos. No Instituto Militar de Engenharia (IME), o Exército trabalha em um “enxame de drones”, capaz de coordenar veículos autônomos em missões de reconhecimento, vigilância e apoio de fogo.
— Teremos drones de reconhecimento e drones armados, com sensores de defesa química, biológica, radiológica e nuclear, com capacidades disruptivas. Buscamos finalizar até o fim do ano — afirma o general Hertz Pires do Nascimento, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia.
Entre pesquisadores, o uso de IA levanta questões éticas sobre a redução do elemento humano nas decisões.
— Não devemos repelir a tecnologia, mas impor limites ao seu uso — diz a pesquisadora Cinthya Araújo. — A guerra é uma atividade humana. Estados e forças continuarão responsáveis por seu emprego.

Maiores e mais complexos
Além dos enxames e dos drones de pequeno porte já usados em vigilância, o Exército trabalha na incorporação de modelos maiores, como o Nauru 1000c, da empresa brasileira Xmobots, que no futuro poderia transportar mísseis
Desde novembro de 2024, a força planeja adquirir drones com raio de ação de cerca de 270 km e autonomia de 25 horas, capazes de transportar suprimentos como peças, alimentos e sangue. Em março de 2025, foi lançado edital para compra de três unidades com capacidade de disparar “míssil ou foguete”, sem avanços divulgados.
Os principais esforços seguem concentrados nos drones menores, que oferecem maior flexibilidade para inovação e ciclos de desenvolvimento mais curtos, com maior participação da indústria e da academia. O Exército também planeja criar uma subunidade dedicada a esses equipamentos no Rio de Janeiro e um batalhão de drones em Taubaté (SP). Na Amazônia, o 1º Batalhão de Comunicações de Guerra Eletrônica de Selva testa o uso de impressoras 3D na fabricação dessas aeronaves.
Paulo Assad/O Globo
