Valfrido Silva
Há momentos em que um editorial não apenas opina, mas registra um ponto de inflexão. O texto publicado neste sábado pela Folha de S.Paulo, ao classificar como desproporcional a reação do ministro Gilmar Mendes contra o senador Alessandro Vieira, se insere exatamente nesse lugar: o de alerta público sobre os limites institucionais em um ambiente cada vez mais tensionado.
A crítica parte de uma premissa que, em outros tempos, seria quase consensual: a de que crises de credibilidade se enfrentam com reconhecimento de problemas e disposição para correção — não com encastelamento e contra-ataques. Ao identificar no comportamento de parte do Supremo Tribunal Federal uma tendência ao fechamento corporativo, o editorial toca num ponto sensível do debate contemporâneo sobre o papel da Corte.
O episódio em questão ajuda a dimensionar esse desconforto. De um lado, um senador que comete um erro primário ao tentar responsabilizar criminalmente um ministro pelo teor de suas decisões — iniciativa prontamente rejeitada no próprio ambiente político em que surgiu. De outro, a reação de integrantes do Supremo, especialmente Gilmar Mendes, que eleva o tom ao solicitar investigação contra o parlamentar, movimento interpretado pelo jornal como uma escalada desnecessária.
O centro da crítica não está, portanto, na defesa do gesto do senador, amplamente considerado inadequado, mas na proporcionalidade da resposta. E é justamente aí que o editorial ganha densidade: ao lembrar que a Constituição protege não apenas a independência dos magistrados, mas também a liberdade de atuação parlamentar, incluindo votos e declarações.
Ao qualificar a iniciativa de Gilmar Mendes como uma espécie de “míssil jurídico”, a Folha sugere que o problema não é isolado, mas parte de um padrão mais amplo, no qual o uso de instrumentos institucionais pode extrapolar a função de proteção e avançar para o campo da intimidação. Trata-se de uma leitura que, concorde-se ou não com sua intensidade, dialoga com uma percepção crescente na opinião pública e nos meios políticos.
Não por acaso, o editorial aponta para um cenário mais abrangente: o da inevitabilidade do debate sobre a reforma do Supremo. Pela primeira vez desde a redemocratização, o tema deixa de ser bandeira de grupos específicos e passa a ocupar espaço central no discurso de diferentes espectros políticos — inclusive entre setores tradicionalmente alinhados à própria Corte.
Esse movimento não surge do nada. Ele é fruto de um acúmulo de tensões, decisões controversas e percepções de desequilíbrio institucional que, somadas, alimentam a sensação de que o sistema precisa de ajustes. O alerta implícito é claro: quanto mais o debate for tratado como ameaça, e não como oportunidade de aperfeiçoamento, maior será o risco de radicalização.
No fundo, o editorial da Folha não é apenas uma crítica a um episódio específico. É um chamado à moderação — e, sobretudo, à consciência de que, em democracias maduras, o poder não se sustenta apenas pela força de suas prerrogativas, mas também pela capacidade de reconhecer limites.
Ignorar esse sinal pode ser, no curto prazo, uma estratégia de defesa. No longo, tende a produzir exatamente o efeito contrário ao desejado.
