Quando me dou ao trabalho, num exercício de arqueologia política, de analisar os riscos que rondam a candidatura de Reinaldo Azambuja ao Senado, não estou aqui a brincar de adivinho, muito menos a fazer torcida organizada. Faço o que sempre fiz: olho para os fatos e, principalmente, para a história. Os fatos, esses estão espalhados por aí, na memória popular, nos escaninhos do Judiciário, nas falas nada republicanas dos irmãos Batista, da JBS, em pleno Jornal Nacional. Já a história… bem, a história é mais ingrata: ela ensina, mas quase nunca é levada a sério. E, por isso mesmo, insiste em se repetir.
E eu sei bem do que estou falando.
Voltemos a 1978. Mato Grosso do Sul ainda nem tinha aprendido a andar sozinho e já havia quem caminhasse de salto alto. Pedro Pedrossian era, na prática, o governador do novo Estado. Faltava apenas o detalhe burocrático: a assinatura do general-presidente Ernesto Geisel. Foi nesse ambiente de certeza absoluta que um repórter ainda mais insubordinado do que hoje — este mesmo que vos escreve — resolveu cometer uma heresia jornalística, estando na capa de O Progresso a manchete que ninguém queria ler — “Definitivamente, Pedrossian não será o primeiro governador do novo Estado”.
Fui chamado de tudo. Louco, desinformado, irresponsável. Faltaram só pedir minha internação. O problema é que eu estava bem informado demais para estar errado. Dias depois, o velho telex dos Correios — o único que existia na cidade — tratou de me dar razão. Lembro-me como se fosse hoje: ao meu lado, dois pedrossianistas de carteirinha, Walter Benedito Carneiro e o lendário Zé do Norte, olhando para aquela fita de papel como quem encara um atestado de incredulidade. Não acreditavam no que viam. Eu, confesso, me divertia discretamente. Era o aviso da nomeação do engenheiro gaúcho Harry Amorim Costa como primeiro governador do MS.
Mas a política, como se sabe, é uma fábrica de reincidências.
Anos mais tarde, já mais metido do que devia, me vi distribuindo panfletos na campanha de Luiz Antônio Gonçalves para a prefeitura, contra o todo-poderoso João da Câmara e o candidato do sistema, Braz Melo. Foi quando meu compadre Antônio Tonanni, com seu humor peculiar, me perguntou se eu havia deixado de ser jornalista para virar jornaleiro. Respondi como pude, mas o melhor argumento veio depois: Luiz Antônio ganhou.
E, como a política adora uma ironia bem construída, tempos depois lá estava eu, não mais distribuindo panfletos contra Braz Melo, mas ajudando a elegê-lo, como seu “quase tudo” na campanha, produtor, editor e diretor de imagens de seu programa de TV, marketeiro, enfim. Ele começou com 7% nas pesquisas. Do outro lado, Zé Elias, com a nova Constituição recém-promulgada debaixo do braço e 67% de intenção de votos. Parecia jogo resolvido. Não era. Viramos. Ganhamos. Quarenta votos. Urna, a 185, a da Escola Tancredo Neves. Dessas histórias que não se explicam, se contam.
Até que, claro, veio o velho pecado.
Já no poder, Braz resolveu ignorar conselhos, dispensar aliados e apostar em um candidato que só ele via como viável. O resultado foi previsível, menos para ele. Perdeu. E, com a derrota, enterrou também um projeto maior, o de transformar em realidade o sonho dos douradenses, de eleger seu primeiro governador. Uma soberba que herdou de Pedro Pedrossian, o governador que o queria como prefeito.
Pedro Pedrossian, o gigante, todos se lembram, pagou um preço alto por isso. Perdeu eleição que não podia perder, para senador. Perdeu outra que jamais imaginaria perder, para governador. E perdeu, sobretudo, a aura de invencibilidade. A política tem dessas coisas: ela não derruba apenas adversários. Derruba certezas.
E é aqui que entro no presente. Reinaldo Azambuja, que até outro dia era tratado como senador eleito antes mesmo de pedir o primeiro voto, resolveu apostar alto. Trocou o PSDB pelo PL, confiou no fator Bolsonaro como se fosse um cheque ao portador e, de quebra, recolheu-se à sua confortável condição de coronel. Pelo tamanho da soberba, aliás, de general, que insiste em querer continuar governando, ou melhor, ordenando, a política estadual por controle remoto, só não constrangendo mais Eduardo Riedel porque o sucessor já deu provas de que tem personalidade e não aceita a condição de poste.
Só que eleição não é decreto. Nem se ganha por teleconferência. E é aí que o velho conhecido dá as caras: o cavalo paraguaio. Aquele que larga bonito, empolga a plateia, mas começa a perder fôlego quando a corrida exige mais do que impulso inicial. Não por falta de estrutura, mas por erro de leitura. Ou, quem sabe, por excesso de confiança.
Mato Grosso do Sul sempre soube jogar o jogo de Brasília. Sempre entendeu que o Senado não é prêmio, é estratégia. Mas, de uns tempos para cá, parece ter decidido brincar de outra coisa — uma mistura de isolamento, identidade e teimosia. O problema é que a política não costuma punir quem erra pouco. Ela pune quem acha que não erra. E a história, quando ignorada, não perdoa. Ela não apenas se repete, ela cobra um preço muito alto.
